quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

I Tm 2: "Orem por Jerusalém". Por que não acredito nisso como mandamento

Quero começar este texto citando os primeiros versos do capítulo tratado aqui:

"Exorto, pois, antes de tudo, que se façam súplicas orações, intercessões e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e sossegada, em toda piedade e honestidade."
I Timóteo 2.1-2

Gostaria também de contrastá-lo com outro texto, bem famoso e interpretado de forma bem estranha por muitos. Segue:

"Orai pela paz de Jerusalém; prosperem aqueles que te amam. Haja paz dentro de teus muros e prosperidade dentro dos teus palácios. Por causa dos meus irmãos e amigos, direi: Haja paz dentro de ti. Por causa da casa do Senhor, nosso Deus, buscarei o teu bem".
Salmo 122.6-9

Não podemos ler o texto bíblico de forma mística. Precisamos lê-lo, num primeiro momento, como um texto comum. Ler as cartas como se lêssemos uma carta que nos fora enviada. Os históricos como de fato são, livros que nos falam sobre alguma história. Para então, a partir daí, o interpretarmos de acordo com o que entendemos ser sua natureza: a Palavra de Deus revelada a nós. Ler o texto esperando ler em cada vírgula uma orientação ou lição moral, um direcionamento, etc., pode nos fazer sermos literalistas e pecarmos muito na sua interpretação. Antes, devemos ler todo texto em seu contexto e com alguns recursos já adotados, para então entendermos sua mensagem de forma completa e aprendermos com ela.

Digo isso pelo seguinte: você já ouviu alguém dizer que devemos orar pela paz em Jerusalém? Eu já. E esse "mandamento" é baseado no salmo acima. Que foi escrito por um judeu, que prezava por Jerusalém justamente da forma como descreve ali: o lugar da casa do Senhor, onde ele tem amigos queridos ou até família. Se Jerusalém estivesse bem, toda a nação israelita estaria. Se a casa do Senhor, o Templo, estivesse em ordem, a vida religiosa do povo da mesma forma. Portanto, o povo judeu daquela época deveria mesmo orar por Jerusalém, a cidade mais importante da nação, centro cultural, religioso e econômico de Israel.

Por outro lado, olhemos para o texto de I Timóteo. Imagine que Paulo estivesse escrevendo para um colega fariseu. Ele poderia até citar o Salmo 122, pois a orientação seria a mesma. Mas não consigo entender dessa forma. Antes, vejo alguém escrevendo o Salmo como que falando de um judeu para outros, enquanto vejo Paulo escrevendo como de alguém que cuida de pessoas de diferentes nacionalidades escrevendo a um discípulo que faz o mesmo; portanto a orientação paulina deveria abranger as pessoas de forma geral.

Observe as razões do salmista para orar por Jerusalém: lá estão os seus amigos, irmãos e a casa do Senhor. E observe as razões de Paulo para orarmos por nossos governantes e autoridades: para que vivamos de forma piedosa e honesta, tranquilidade e sossego. Isso, para quem estava vivendo num contexto de domínio exercido pelo Império Romano, é muito precioso. Era como dizer que as orações deveriam ser direcionadas para que o governo político não censurasse ou perseguisse os cristãos por sua conduta moral e ética.

Agora, pese as duas considerações: você tem amigos e/ou família em Jerusalém? A casa do Senhor está lá? Se sua resposta for positiva, vou te convidar a visitar alguma igreja cristã ao invés de ir à sinagoga no final de semana. Já o argumento de Paulo nos serve perfeitamente, não é verdade? Afinal, temos governantes que precisam mesmo da nossa oração e disso, em muitas esferas, depende a nossa liberdade religiosa.

Portanto, entendo que o Salmo 122 pode ser entendido à luz de uma orientação mais abrangente, como a de I Timóteo 2. Assim com o judeu orava pela paz em Jerusalém e por sua prosperidade, devemos orar pelo nosso país. No nosso caso, oremos para que de Brasília possam sair boas decisões políticas que favoreçam nossa nação.

No contexto atual, Jerusalém está uma bagunça. Portanto, é coerente orarmos por ela. Mas assim como devemos também orar pela Coréia do Norte, que vive num regime político horrível, que inclusive censura a entrada do evangelho. Podemos e até devemos ter um carinho especial por Israel e pelo povo judeu, pois através deles o Messias foi revelado. Mas não consideremos o Salmo 122 como mandamento. Isso é mais uma prática religiosa construída sob pouca reflexão do que um mandamento.

Um comentário:

Anônimo disse...

É necessá abordar essa realidade de forma holística quanto ao Propósito de Deus para com a Comunidade Global. Realmente não se pode extratificar pretenciosamente retalhos de todo o tecido expositor da Revelação Divina. Em contraste com a realidade terrena a Verdade Divina é muito mais do que pensamos saber.