quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Cl 3: Pecadinho, pecadão. Duas pedras, um só tropeço

Como disse no primeiro post sobre esta carta, os dois últimos capítulos são destinados à parte prática do que Paulo está dizendo aos colossenses. Depois de dizer no que eles deveriam acreditar, agora eles aprendem sobre como devem se comportar. Não se trata de um conjunto de normas e regras, pois assim o próprio autor entraria em contradição com o que fora dito no capítulo anterior. Mas sim um conjunto de princípios que, se observados, beneficiarão ao próprio praticante deles.

No início do capítulo 3 vemos Paulo fazer uma distinção interessante entre dois grupos de pecados. De maneira geral, podemos entender que ele fala sobre pecados que cometíamos e que nos dominavam antes de conhecermos a Cristo e, num segundo grupo, pecados que nos assolam ainda hoje, na nossa caminhada cristã.

O Apóstolo está dizendo que devemos dar atenção às coisas espirituais, "de cima", como ele diz, não nas materiais, terrenas. E desenvolve isso falando sobre esses dois grupos de pecados, cuja resistência a eles deve fazer parte da nossa espiritualidade.

Reparem que o primeiro grupo, composto pela prostituição, impureza, paixão, vil concupiscência, avareza, está falando de pecados graves que, via de regra, todo cristão tem consciência de que eles não devem ser praticados de maneira alguma. Não há dúvida sobre isso, pois a incoerência de sua prática aliada à vida cristã é óbvia. Já o segundo grupo, essa relação não é tão clara. Ao menos, a prática da maioria não nos deixa crer assim.

Trata-se de pecados que muitas vezes deixamos que passem desapercebidos. Você já ficou extremamente irado no trânsito (sou o primeiro a apanhar dessa...)? Já teve desejo de retribuir o mal que alguém lhe fez na mesma moeda ou já retribuiu assim? Fala ou já falou, depois de conhecer a Cristo, mal de alguém, ou palavrões e/ou um vocabulário inconveniente tem feito parte da sua fala? E a mentira, mesmo aquela pequena, disfarçada de omissão, às vezes?

Pois bem, a lista composta pela ira, cólera, malícia, maledicência, palavras torpes e mentira, trata-se de erros que são considerados, muitas vezes, menos graves. E pensar assim reflete uma concepção de cristianismo tão cheia de erros, que fica até difícil começar a relacioná-los. Primeiramente, se fazemos distinção entre erros graves e menos graves, ou até aceitáveis, estamos sendo juízes e moralistas. Juízes, pois se assim penso, posso considerar que aquele erro de desonestidade do fulano é muito mais grave que a "mentirinha" do ciclano. E moralistas, pois criamos um padrão moral próprio, que não considera a santidade de Deus como padrão para nossa postura, mas sim nosso conceito sobre o que é mais ou menos reprovável.

É comum que nas nossas vidas as portas para o primeiro grupo de pecados, principalmente, esteja fechada. Isso porque de fato reconhecemos que os que neles andam são aqueles que não conhecem a Cristo. Mas, não observando o segundo grupo, temos um cuidado seletivo do nosso comportamento que mais revela a intenção de demonstrar algo do que a de ser alguém. O que parece é que agindo assim, mais me é importante mostrar claramente que sou cristão do que sê-lo.

O povo de Israel cometeu um erro tão bobo em certa ocasião e esse nos serve de exemplo aqui. O Senhor havia prometido a melhor terra do oriente aos israelitas. Para conquistá-la, porém, eles precisavam derrotar os moradores de Jericó. E essa era uma cidade guardada por um muro forte e enorme, que também contava com um bom e numeroso exército, bem mais poderoso do que Israel. Porém, eles buscaram a Deus e o Senhor deu a estratégia para Jericó fosse derrotada. Foi uma grande vitória para aquele povo nômade, que agora conquistava seu espaço.

Numa segunda ocasião, porém, subsequente, o povo precisou lutar contra a cidade de Ai, um povo bem menor e menos poderoso que eles. A fala de Josué foi que fossem enviados poucos homens, pois já era uma batalha ganha. Vão 3 mil homens a Ai, que voltam derrotados. Havia sido cometido, por um único homem em Israel, Acã, um pecado simples: ele tomou para si alguns bens dos despojos de Jericó. Mas o Senhor havia ordenado que tal não fosse feito, então isso tornou-se um sério problema.

Josué ora a Deus, então, o que não havia feito antes, descobre e sana o erro. Então o Senhor orienta-o a ir contra Ai com trinta mil homens, não com os 3 mil iniciais. E dá a estratégia correta para dominar a cidade. Aquele desafio que parecia pequeno, tornou-se um sério tropeço. Israel derrotou Jericó sem maiores dificuldades, pois o Senhor os direcionou. Mas perdeu a batalha contra Ai, pois a considerou fácil e desprezou a orientação do Senhor. Toda essa história está em Josué 6-8.

Assim corremos o risco de fazer. Fechar as portas da nossa vida para os pecados que consideramos graves, e vencê-los de fato, mas deixarmos as portas abertas para os erros menores, "aceitáveis", como a fofoca, a mentirinha, algumas pequenas desonestidades, a manutenção da aparência no lugar da espiritualidade sincera, etc. Como diz o texto de Colossenses, devemos fazer morrer a nossa natureza carnal, estando aí incluídas as duas listas de pecados e tudo o mais que dela faz parte.

Que nós alcancemos uma santidade verdadeira, que mantém além do que pode ser visto. Que sejamos aprovados diante dos dois olhares que mais vêm nossa prática: o de Deus, onisciente e zeloso, que se preocupa conosco, e o da nossa consciência. Se nos preocuparmos em manter a santidade e não só a aparência, teremos sucesso na nossa busca.

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