quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

I Tm 6: O Apóstolo Paulo, sobre a Teologia da Prosperidade

Último capítulo da primeira carta de Paulo a Timóteo. Aqui, o Apóstolo dará as últimas instruções ao seu companheiro de ministério e se despedirá. Essas últims instruções falarão sobre a postura ideal daqueles que se converteram sendo escravos, sobre o amor dinheiro em contraste com a doutrina correta de Cristo e ainda sobre a postura ideal para o próprio Timóteo, diante do amor ao dinheiro sob o qual muitos estavam vivendo.

O primeiro ponto, sobre os escravos, traz para nós uma orientação sobre a nossa vida profissional, principalmente aos que trabalham como funcionários de alguém. Aqueles homens deveriam servir aos seus senhores com respeito e honra, justamente por terem se convertido, para que o nome de Deus não ficasse envergonhado pelo testemunho deles. Caso o seu senhor fosse cristão, isso deveria ser motivo para servi-lo ainda melhor, ao invés de ser uma brecha para se tirar vantagem e/ou aliviar o trabalho. Aprendemos uma lição sobre responsabilidade e excelência aqui, não é?

E então o Apóstolo fala sobre o amor ao dinheiro, fazendo-o de forma tão única que vale a pena aprofundarmos um pouco aqui. Para começar, leia abaixo os versos 3-5 deste capítulo:

"Se alguém ensina outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins suspeitas, contendas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade é fonte de lucro."

Em poucas palavras, o texto diz que aqueles que consideram a piedade como fonte de lucro, não se conformando com a boa e correta doutrina de Cristo, são soberbos, pois se propõem a expor uma "verdade" acima evangelho. Os que assim fazem estão delirando, diz o texto. O termo usado para a palavra piedade é eusebéia, que do grego pode ser traduzido por piedade ou religião. Portanto, muitos que são corruptos de entendimento e privados da verdade, como diz o texto, pensam que a religião é fonte de lucro.

Nosso Senhor disse que conheceríamos a árvore pelo fruto, falando justamente sobre os falsos profetas que surgiriam. Sobre os mesmos, ele diz que nem todo o que o chama de Senhor fará parte do seu reino (Mt 7.20-21). Você consegue ver motivos de "suspeitas ruins" no ministério de Jesus? E inveja de sua parte, brigas de opiniões, soberba? Pois isso não acontecia com ele e não acontece com pessoas que levam a Palavra de Deus a sério não é a toa. Já com aqueles que tem a religião como fonte de lucro...

Outro dia, postei um vídeo aqui no blog que demonstra os frutos de quem vive delirando acerca da doutrina de forma escandalosa. E seus frutos são podres tal qual o texto nos mostra. O mesmo protagonista do vídeo responde a acusações terríveis no ministério público, sobre lavagem de dinheiro, extorsão, evasão de divisa e outros escândalos relacionados às suas finanças e de sua igreja (vejam este outro vídeo). Esses frutos acompanham justamente aqueles buscam o lucro e o benefício próprio através da falsa piedade, da falsa religião.

A orientação de Paulo a Timóteo diante desses exemplos é o contentamento com o suficiente. O verso 6.8 diz isso claramente. E o Apóstolo ainda adverte que aqueles que querem ficar ricos se enveredam por caminhos que não queremos passar (6.9-10).

Finalmente, o capítulo e a própria carta caminham para seu desfecho com a recomendação para que Timóteo fugisse dessas coisas, seguindo a "justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão" (6.11). E o orienta a recomendar aos ricos desse mundo que sejam também "ricos em boas obras, generosos em dar e prontos a repartir", acumulando um tesouro que lhes garanta a vida eterna (6.17-19).

Meus amigos e irmãos, usar a religião como fonte de ganho é anti-cristão. Há tesouros mais preciosos a serem conquistados na caminhada cristã. Outro dia ouvi falar que um sujeito era tão pobre, que só tinha dinheiro... E a verdade é que o aperfeiçoamento do nosso caráter, a melhora dos nossos relacionamentos, a vitória sobre o pecado, o desprendimento material que adquirimos com Cristo em prol do evangelho e do bem comum, dentre outras virtudes, é que são tesouros verdadeiros. Dinheiro, conforto extremo, lucros absurdos, estão à disposição de qualquer um que se disponha a buscá-los a qualquer preço. Mas essas virtudes, só Cristo, através do Espírito Santo, pode gerar em nós.

Busquemos o simples, profundo e valioso reino de Deus. E acumulemos tesouros para a vida eterna. Das nossas necessidades, como muito prometeu, o Senhor cuidará. Que Deus preserve nosso coração e consciência. Que o sirvamos sempre e da melhor maneira.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

I Tm 5: Quais cargos devem existir na igreja?

As cartas de I e II Tm e Tt são chamadas de cartas pastorais, pois são escritas a líderes de igrejas e contém orientações sobre como presidir suas congregações. No caso de I Tm, o destinatário da carta estava em Éfeso e ali era um jovem pastor comissionado pelo próprio Ap. Paulo para, inicialmente, resovler algumas questões doutrinárias controversas (1.1-4).

No capítulo 3 dessa primeira carta, o autor fez uma descrição de quais são as qualidades para que alguém exerça a função de bispo ou diácono na igreja. E agora, no cap. 5, ele instrui sobre a postura que a igreja deveria ter ao cuidar de um grupo de algumas pessoas em necessidades, na primeira parte (5.1-16), e dá conselhos diretos sobre os presbíteros da igreja. A esta altura, vale a pena voltarmos nosso olhar para a forma de organização da igreja primitva, pois assim compreenderemos melhor este e outros textos.

Apesar de vermos um padrão de liderança eclesiástica no Novo Testamento, não podemos inferir que não seja permitido instituir outros cargos diferentes dos que ali aparecem. Como veremos agora, há apenas 3 cargos na igreja primitiva, sendo que a maioria dos que conhecemos hoje poderiam se encaixar em 2 deles.

O primeiro desses cargos é o de Apóstolo. E nesse caso, é uma nomeação que não mais deve ser feita, pois os pré-requisitos para se exercer tal ministério já não podem ser preenchidos. Os Apóstolos eram assim considerados caso tivessem visto Jesus ressurreto em pessoa e fossem diretamente comissionados por ele. Portanto, não há mais legalidade bíblica para que ninguém se denomine apóstolo hoje. Os que o fazem, mais estão manifestando seu orgulho, ao reivindicarem para si uma autoridade tão grande quanto a do Apóstolo Paulo, por exemplo (!!!), do que se prestando a um serviço em prol do evangelho. Algumas referências básicas para fundamentar isso: At 1.22; 1.2-3; 4.33; Mt 10.7.

O segundo cargo, e em ordem hierárquica, é o dos presbíteros. Esse nome também pode ser entendido como bispo ou pastores, e designa alguém que governava a igreja, a presidia. Os requisitos para se exercer tal tarefa estão relacionados na própria carta a Timóteo, no capítulo 3. Várias referências fundamentam que os presbíteros poderiam exercer as tarefas de liderança e de ensino, que estão intimamente ligadas no Novo Testamento. Seguem algumas: I Tm 5.17; I Pe 5.2-5; I Tm 3.2-7; Ef 4.11; Tt 1.9.

O terceiro cargo é o de diácono. A palavra diácono significa servo e não é um termo exclusivamente cristão. Alguém com boas condições financeiras na época dos apóstolos poderia ter um diácono contratado, dentre outros servos. Eles têm sua instituição narrada em At 6, apesar de uma pequena polêmica que cerca a tradução daquele texto. Ele não usa o termo diácono para se referir aos que foram eleitos para servirem às mesas, mas sim um verbo relacionado, que designa serviço mesmo. Sua função ali atribuída é muito coerente com as responsabilidades que são sugeridas em I Tm 3.8-13, portanto parece correto entender que o texto tratava mesmo de diáconos nesse sentido, ainda que eles possam não ter recebido tal título num primeiro momento.

O Novo Testamento difere claramente o presbítero/bispo do diácono, mas não especifica com tanta clareza qual a função desse segundo servo. Pelas qualificações que lhe são exigidas no texto I Tm 3, podemos inferir que eles ocupavam cargos de confiança nos quais serviam. Possivelmente tivessem alguma função administrativa, podiam lidar com o dinheiro da igreja e ainda trabalhar aconselhando os irmãos, além de executar o cuidado material ao qual a igreja se prestava a prover.

Na igreja primitiva, estes são os cargos oficiais encontrados no Novo Testamento. Há uma longa lista de ministérios em Ef 4 e ainda em Rm 12.6-8 e I Co 12.1-11, mas esses não são considerados oficiais da igreja. Por oficiais, entendo em concordância com Wayne Grudem, autor de uma Teologia Sistemática muito respeitada (a qual consultei muito para escrever este texto), que se trata de "alguém publicamente reconhecido como detentor do direito e da responsabilidade de desempenhar certas funções para o benefício de toda a igreja". Estes cargos deveriam ser confiados com responsabilidade (I Tm 5.22) e hoje não deve ser diferente.

Entendendo isso, exerceremos nosso serviço ao Senhor com mais consciência e saberemos discernir o que é bíblico e o que é invenção de moda ou soberba. Sobre outros ministérios, escrevi um texto que pode ser útil (clique aqui). Não é necessário que nos sejam confiados cargos/títulos para servirmos a Deus. Porém, caso isso tenha acontecido, saibamos que as responsabilidades dos que recebem tal confiança é maior. E que o Senhor nos abençoe para o servirmos e à nossa igreja com responsabilidade, dedicação e excelência.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

I Tm 4: Hipocrisia, doutrinas de demônios e o caminho correto

Os primeiros 5 versos deste capítulo tratam de um tema que é comum a Paulo (I Tm 4 e II Tm 3) e coerente com outros trechos do Novo Testamento: o de que nos dias que antecedem a segunda vinda de Cristo, o amor de muitos se esfriaria e a impiedade, diretamente associada à corrupção do homem aumentaria. A impressão é a de que quando Jesus buscar o seu povo, a humanidade se encontrará em seu momento mais corrompido de toda a história, deixando aqueles que gritaram "crucifica-o" no chinelo.

O que se destaca, ao menos aos meus olhos, nessa advertência de Paulo, são os seus personagens principais: líderes religiosos corrompidos. Paulo classifica esses homens como "espíritos enganadores" e as suas doutrinas como "doutrinas de demônios". Sua conduta, ainda segundo o Apóstolo, é uma conduta hipócrita, por ensinarem mentiras com consciência do que fazem, mas com essa consciência cauterizada, ou seja, sendo incapazes de sentir o peso de seu erro.

Paulo diz que suas doutrinas proibiriam o casamento e ordenariam a abstinência de determinados alimentos "que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ação de graças" (4.3). Esses são problemas que já eram conhecidos de Paulo naquela época e foram tratados, por exemplo, na igreja de Corinto. Mas, no final dos tempos, tudo se agravaria ainda mais.

Muito me dói, mas muito mesmo, ver como determinados líderes religiosos tem seguido esse padrão hoje. Pessoas discaradamente enganam o povo com objetivos egoístas, mesquinhos, gananciosos. Outro dia um vídeo me deixou pasmo, e reproduzo o mesmo logo abaixo. Aliás, o que contém nele é o mais próximo que eu já ouvi falar de "doutrina de demônios". Veja:


No caso dos dois líderes que protagonizam essa briga aí, um é dissidente da igreja do outro. E, para falar com toda a sinceridade, essa mulher deve estar possessa sim. Mas não pelo demônio que supostamente fala ali através dela, mas por outro que poderia concorrer ao oscar. Na minha opinião, e sei que julgo a outro e, por consequência, me coloco sob o mesmo peso de julgamento (Mt 7.1-2), isso aí é a "hipocrisia de homens que falam mentiras e têm cauterizada a própria consciência" (3.2).

E como reagimos a isso tudo? Fazendo exatamente o que Paulo também recomenda a Timóteo no decorrer do capítulo 4. Perseverar na doutrina correta, bíblica e sadia; perseverar no aprendizado, na exortação aos irmãos e no seu ensino, o que, também segundo este texto, salvará a nós mesmos e aos que nos ouvem. A reação correta à apostasia demonstrada por aqueles que se dizem líderes cristãos não é a decepção com a igreja seguida do afastamento dela. Mas o exercício religioso/cristão sincero e verdadeiro.

Ainda como aprendemos com o Apóstolo Paulo, há melhor maneira de combater a mentira do que pregando e vivendo a verdade? Não acredito. Portanto, a despeito da apostasia de muitos - e até por causa dela, persistamos em viver um evangelho verdadeiro. O Senhor nos prosperará e abençoará nessa caminhada, pois é ele quem se agradará de nossa postura.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

I Tm 3: O que preciso para servir a Deus?

Neste capítulo, Paulo dá claras e diretas instruções sobre a instituição dos diáconos e sobre as características que devem preceder a vocação ou o desejo pelo "episcopado", que podemos entender num contexto mais comum como ministério pastoral.

Já concluí há muito que, para servir a Deus, não é necessária qualquer habilidade específica. Para ser um matemático é preciso habilidade lógica, da mesma forma que não se faz um advogado sem um poder argumentativo. Já para servir a Deus, não há exigências de habilidades. Diferentemente de um matemático ou de um advogado, de quem se exige tais características, o servo de Deus precisa corresponder a exigências éticas e morais, o que aqueles dois não precisam. É possível haver um matemático e um advogado corrupto, mas não um servo de Deus. No reino de Deus, portanto, o que se é tem muito mais valor do que o que se faz.

Essas exigências a serem correspondidas ditam um padrão de caráter, que tem como modelo o próprio Cristo e como objetivo o estado de irrepreensibilidade, como Paulo diz a Timóteo (3.10). É uma exigência altíssima e, não fosse a ajuda do Espírito Santo, poderíamos desistir desde já.

Dentre todos os requisitos, que são muitos, alguns chamam a atenção pela forma como são tão facilmente negligenciados hoje em muitas situações. Ser preciso ter boa aceitação dos de fora, por exemplo, é algo que muitos não se preocupam em cultivar. Pastores se atacam em rede nacional, na tv aberta, aparentemente sem a mínima preocupação com aquele não-cristão que pode estar assistindo-o. Muitos mantém seus programas chamados evangélicos, falando todo o "crentês" comum ao seu meio e o telespectador que o entenda. A preocupação com "os de fora" é mínima ou nenhuma, nesses casos.

As instruções desse capítulo são voltadas principalmente a pastores e diáconos, mas obviamente não somente a eles. Tudo é recomendável e aplicável a todo cristão sério. E indispensável a quem exerce tais funções. Contextualizando um pouco, podemos entender que tais recomendações são válidas a todo o que pretende servir a Deus, principalmente. Afinal, pastores e diáconos naquele tempo, englobavam todos os cargos que exisitiam na igreja organizada. Portanto se hoje queremos exercer qualquer atividade eclesiástica e com ela servir a Deus, vale atentar para este capítulo.

E gostaria que nos voltássemos para uma direção específica de Paulo ali. A de que os dois grupos ou, no nosso contexto e entendimento, todos os que servem ao Senhor, devem governar bem as suas casas. É uma orientação que se repete (3.4 e 12). Não ter a sua casa em ordem e querer cuidar da igreja é tratado como incoerência, e de fato o é (3.5). Mas como isso se aplica a quem é jovem, solteiro e deseja servir a Deus?

O princípio é que nossos relacionamentos familiares estejam em ordem. Se não sou o governante da minha casa hoje, preciso entender que a recomendação para mim enquanto servo de Deus é ter de forma bem tranquila um bom relacionamento com meus pais, irmãos, família. Isso é inegociável. Afinal, se a minha casa não está em ordem, como posso querer ordenar as coisas na casa de Deus? É esse o princípio claro em 3.5.

Preocupemo-nos com isso. É hipocrisia a nossa casa estar uma bagunça e querermos consertar a casa do Senhor. Nossos relacionamentos familiares estarem frustrados e nos dispormos a ajudar os irmãos na igreja. Se esse for o caso, primeiro precisamos de ajuda. A não ser que algum conflito ou qualquer situação ruim já tenha recebido todo cuidado e preocupação nossa e, ainda assim, a situação persiste - por responsabilidade real de outro, devemos primeiro resolver isso. Então com coerência e autoridade, livres desse embaraço, serviremos com excelência.

Que Deus nos abençoe, direcione e capacite para termos em ordem a nossa própria vida e depois sermos usados plena e excelentemente por ele.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

I Tm 2: "Orem por Jerusalém". Por que não acredito nisso como mandamento

Quero começar este texto citando os primeiros versos do capítulo tratado aqui:

"Exorto, pois, antes de tudo, que se façam súplicas orações, intercessões e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e sossegada, em toda piedade e honestidade."
I Timóteo 2.1-2

Gostaria também de contrastá-lo com outro texto, bem famoso e interpretado de forma bem estranha por muitos. Segue:

"Orai pela paz de Jerusalém; prosperem aqueles que te amam. Haja paz dentro de teus muros e prosperidade dentro dos teus palácios. Por causa dos meus irmãos e amigos, direi: Haja paz dentro de ti. Por causa da casa do Senhor, nosso Deus, buscarei o teu bem".
Salmo 122.6-9

Não podemos ler o texto bíblico de forma mística. Precisamos lê-lo, num primeiro momento, como um texto comum. Ler as cartas como se lêssemos uma carta que nos fora enviada. Os históricos como de fato são, livros que nos falam sobre alguma história. Para então, a partir daí, o interpretarmos de acordo com o que entendemos ser sua natureza: a Palavra de Deus revelada a nós. Ler o texto esperando ler em cada vírgula uma orientação ou lição moral, um direcionamento, etc., pode nos fazer sermos literalistas e pecarmos muito na sua interpretação. Antes, devemos ler todo texto em seu contexto e com alguns recursos já adotados, para então entendermos sua mensagem de forma completa e aprendermos com ela.

Digo isso pelo seguinte: você já ouviu alguém dizer que devemos orar pela paz em Jerusalém? Eu já. E esse "mandamento" é baseado no salmo acima. Que foi escrito por um judeu, que prezava por Jerusalém justamente da forma como descreve ali: o lugar da casa do Senhor, onde ele tem amigos queridos ou até família. Se Jerusalém estivesse bem, toda a nação israelita estaria. Se a casa do Senhor, o Templo, estivesse em ordem, a vida religiosa do povo da mesma forma. Portanto, o povo judeu daquela época deveria mesmo orar por Jerusalém, a cidade mais importante da nação, centro cultural, religioso e econômico de Israel.

Por outro lado, olhemos para o texto de I Timóteo. Imagine que Paulo estivesse escrevendo para um colega fariseu. Ele poderia até citar o Salmo 122, pois a orientação seria a mesma. Mas não consigo entender dessa forma. Antes, vejo alguém escrevendo o Salmo como que falando de um judeu para outros, enquanto vejo Paulo escrevendo como de alguém que cuida de pessoas de diferentes nacionalidades escrevendo a um discípulo que faz o mesmo; portanto a orientação paulina deveria abranger as pessoas de forma geral.

Observe as razões do salmista para orar por Jerusalém: lá estão os seus amigos, irmãos e a casa do Senhor. E observe as razões de Paulo para orarmos por nossos governantes e autoridades: para que vivamos de forma piedosa e honesta, tranquilidade e sossego. Isso, para quem estava vivendo num contexto de domínio exercido pelo Império Romano, é muito precioso. Era como dizer que as orações deveriam ser direcionadas para que o governo político não censurasse ou perseguisse os cristãos por sua conduta moral e ética.

Agora, pese as duas considerações: você tem amigos e/ou família em Jerusalém? A casa do Senhor está lá? Se sua resposta for positiva, vou te convidar a visitar alguma igreja cristã ao invés de ir à sinagoga no final de semana. Já o argumento de Paulo nos serve perfeitamente, não é verdade? Afinal, temos governantes que precisam mesmo da nossa oração e disso, em muitas esferas, depende a nossa liberdade religiosa.

Portanto, entendo que o Salmo 122 pode ser entendido à luz de uma orientação mais abrangente, como a de I Timóteo 2. Assim com o judeu orava pela paz em Jerusalém e por sua prosperidade, devemos orar pelo nosso país. No nosso caso, oremos para que de Brasília possam sair boas decisões políticas que favoreçam nossa nação.

No contexto atual, Jerusalém está uma bagunça. Portanto, é coerente orarmos por ela. Mas assim como devemos também orar pela Coréia do Norte, que vive num regime político horrível, que inclusive censura a entrada do evangelho. Podemos e até devemos ter um carinho especial por Israel e pelo povo judeu, pois através deles o Messias foi revelado. Mas não consideremos o Salmo 122 como mandamento. Isso é mais uma prática religiosa construída sob pouca reflexão do que um mandamento.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

I Tm 1: Paulo, Timóteo e os seminaristas

Primeira carta do Apóstolo Paulo ao seu possível discípulo mais jovem, Timóteo. Cuja juventude, inclusive, não era empecilho para um bom empenho e desempenho na obra de Deus, pois o jovem pastoreava a comunidade de Éfeso e era instruído de perto por Paulo.

A temática da carta é comum a tantas outras: Paulo está combatendo falsas doutrinas que surgiram naquela igreja. Dessa vez porém, as mazelas não são externas. Surgiram no próprio seio da comunidade e os que a propoagavam, que não são muitos (I Tm 1.3 diz que alguns a disseminavam), eram os próprios líderes presentes naquela cidade. O Apóstolo adverte quanto à sua doutrina e incentiva Timóteo a ser duro para com eles. Afinal, uma falsa doutrina para as ovelhas é veneno dado ao rebanho por alguém que não é pastor delas.

A doutrina corrompida que passava por ali tinha características judaizantes e gnósticas. Em outro momento falamos em detalhes sobre o gnosticismo. Caso sinta-se a curioso, o incentivo a fazer uma breve busca e ler um pouco. Essa mistura doutrinária estava levando características legalistas e místicas ao evangelho dos efésios. À medida que essas características forem sendo trabalhadas pelo texto, as abordaremos. Por hora, quero focar em outro ponto.

Você já se deparou com alguém que gosta de discutir minúcias (chatas e irrelevantes) da fé? Eu já. E como! Certa vez, um grupo de amigos estava preocupado em concluir se o corpo glorificado de Jesus era capaz de processar alimentos. Acho que, em outras palavras, eles queriam saber se Jesus tinha que fazer o número 2 depois de ter sido glorificado. Isso porque ele comeu peixe com os discípulos após a ressurreição. Então, para onde ia aquele alimento. Pode isso? E esse é um de muitos outros exemplos. Lembro-me de uma discussão que dizem ter sido pauta na época da escolástica, que buscava descorbrir quantos anjos caberiam na cabeça de um alfinete.

Há pessoas que tendem a se inclinar a esse tipo de discussão estéril. E eu gostaria de entender o motivo, sinceramente. Não vou especular aqui, mas de fato me intriga. Os versos 3-4 do primeiro capítulo dessa carta nos deixam claro qeu Timóteo também precisava lidar com essa característica naquela igreja:

"Como te roguei, quando partia para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns que não ensinassem outra doutrina, nem se ocupassem com fábulas ou com genealogias intermináveis, que antes produzem controvérsias do que o serviço de Deus, na fé".

Ainda diz o verso 6: "Alguns se desviaram destas coisas (elementos básicos da fé) e se entregaram a discursos vãos".

Tentei fotografar uma anotação da minha Bíblia sobre os versos acima, mas a foto não ficou boa. Perguntei a mim mesmo, ironicamente, se havia seminaristas em Éfeso. Lembrando que eu já fui um e sempre serei um estudante de Teologia, se o Senhor o permitir. Mas, já percebeu como muitos estudantes de Teologia gostam de se deedicar a polêmicas, como o povo daquela igreja estava fazendo? Não poucas vezes adverti a amigos queridos que não entrassem em determinados méritos no meio teologicamente leigo, pois apenas produziriam discussões vazias e divisões.

Sinceramente, qual a finalidade de se discutir sobre o poder ou não poder fazer isso ou aquilo? Voltamos à lei, por acaso? Qual o fim da discussão sobre Gênesis 6, sobre os gigantes/anjos/filhos de Deus/etc.? Para quê se dedicar a entender toda a hierarquia do inferno, sob a justificativa ridícula de que isso é importante para se "batalhar espiritualmente"? Entender que no nome de Jesus, segundo a Palavra de Deus, todo demônio deve obedecer, me é suficiente. Enfim.

Como bem disse o Apóstolo Paulo, tais coisas mais dividem que produzem algo bom. Mais espalham do que ajuntam. Já vi pequenas discussões dessas, às vezes até sobre temas mais coerentes, como a eleição, terminarem em brigas e divisões. E com qual propósito? De se provar um ponto de vista, de ganhar a razão num debate tolo? Há mais com o que nos preocuparmos no reino de Deus.

Ainda seguindo o raciocínio de Paulo, ele diz que muitos que se arriscavam a fazer interpretações erradas da lei sequer entendiam o que de fato ela dizia. Quando levantamos algumas dessas discussões, será que o fazemos com um conhecimento bíblico relevante? Já sabemos tudo o que precisamos, a ponto de termos tempo disponível para gastar com isso? Acredito que não.

Há muito para se fazer para o Senhore em prol do seu reino. Há muitas discussões relevantes sim, mas que devem ser feitas da maneira e no momento/lugar certos. Por hora, preocupemo-nos em edificar a nossa fé e a do nosso próximo. Pois o fim daquelas coisas, como nos mostra o exemplo dado por Paulo no final deste capítulo, é o naufrágio na fé. Não nos percamos em meio a tolices, mas busquemos a Deus, produzamos bem para o crescimento do reino e nos informemos sobre o que precisamos entender de fato: Deus, sua revelação a nós e sua Palavra.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

II Ts 3: Um líder rico. E o exemplo do Ap. Paulo

Se você conhece razoavelmente o Novo Testamento, certamente já notou uma discrepância que pretendo expor aqui, comparando os Apóstolos de Jesus e os apóstolos / pastores / líderes de igreja de hoje. E o terceiro capítulo da segunda carta aos tessalonicenses é um dos textos que nos remetem à tal discrepância. Há outros no Novo Testamento, inclusive na primeira carta ao mesmo destinatário desta. Mas nos atenhamos a este capítulo, por hora.

Paulo adverte àquele povo que continuem seguindo o exemplo que ele e os seus companheiros de minsitério demonstraram: que continuassem, cada um, trabalhando pelo seu próprio sustento. Assim como eles fizeram quando estavam ali pregando o evangelho. Sendo Paulo um fabricante de tendas, profissão que rendia bons retornos naquela época, ele diz que trabalhou dia e noite para que suas despesas não fossem pesadas para os irmãos daquela igreja. Ele diz que nem sequer o alimento eles comeram ali sem que o custeassem, mesmo tendo o direito de fazê-lo (3.6-9).

O exemplo de Paulo é esse em todo o tempo. Ele sempre trabalhou para se manter, sendo ajudado o mínimo possível pelas igrejas que servia. Reforço, ele recebia o mínimo das igrejas às quais ele prestava incansável e excelente serviço. O famoso texto de Fp 4, onde no verso 13 o Apóstolo diz que pode todas as coisas em Cristo, que o fortalecia, diz no verso 12 que ele, Paulo, aprendeu a passar necessidade e também ter em abundância, tanto a ter fartura quanto a passar fome. Sendo o Apóstolo do qual mais podemos notar frutos, por ter escrito mais da metade do Novo Testamento, por exemplo, ele não teve uma vida sequer confortável.

Esse mesmo Apóstolo diz que o trabalhador é digno de seu salário, reconhecendo que aquele que trabalha em prol da pregação do evangelho também deve viver por ele (I Tm 5.18, dentre outros). No próprio texto de I e II Ts ele reconhece que tinha o direito de desfrutar do sustento financeiro da igreja. Mas sua opção por não fazê-lo revela um princípio de entrega, dedicação e abnegação que deve servir de exemplo a todo cristão, principalmente a todo líder.

Por isso, quando vejo aqueles que hoje se chamam apóstolos e outros líderes cristãos, ou que assim se chamam, vivendo uma vida extremamente regalada às custas de dinheiro do povo, ou proveniente de negócios próprios que foram criados às custas também daquele dinheiro, meu coração teme. Teme, pois também sou pastor e vejo um perigoso caminho adiante que preciso evitar a qualquer custo. E também me frustro com isso, pois eles alegam ser toda a ostentação bênção de Deus e o pior, o povo engole.

Há pouco ouvi um desses líderes contar um testemunho de que comprara seu terceiro avião. Outro, dizia que certamente quem ofertasse para a causa que ele estava investindo naquele momento, receberia um cuidado tão especial de Deus que todos os seus planos financeiros para aquele ano que estava no começo se realizariam. A propósito, esse também comprou seu avião recentemente. Nada contra os aviões! Mas contra os carros importados, aviões, sítios, haras, prédios, outros imóveis...

Por opção, o Apóstolo Paulo, repito, não chegou sequer a ter uma vida confortável. E ele não escreve a carta aos Efésios, quando diz que tudo pode, num momento de sua vida no qual já havia passado pelas maiores dificuldades e ali contava com descanso. Pelo contrário: ele escreve estando preso em Roma, por pregar o evangelho. Ainda tendo que suportar muito pela Palavra de Deus, diz que Nele pode todas as coisas, inclusive passar necessidades.

Não penso que essa reflexão chegará aos ouvidos de quem a precisaria ouvir para mudar a sua prática hoje. Mas se ela alcançar aqueles que amanhã estarão exercendo seus ministérios e lideranças, se você, leitor, for alguém que ainda sonha em fazer mais pelo Senhor e sabe que o fará, tenha junto comigo essa consciência. Quando for a nossa vez, faremos cessar um erro que já perdura há algum tempo. Se o Apóstolo Paulo pode ser considerado uma boa referência, então estaremos bem seguros e embasados, servindo a Deus com excelência e dedicação, assim como ele.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

II Ts 2: A principal arma do diabo contra o crente

Neste capítulo da segunda carta aos tessalonicenses, Paulo revela sua principal motivação parar escrever àqueles irmãos. Um erro escatológico (a respeito das últimas coisas) rondava a mente dos de Tessalônica. Sua compreensão dizia que Jesus voltaria muito rapidamente, o que o próprio Paulo quer ali combater.

Essa impressão não era rara naquele tempo. Quando Jesus subiu aos céus, muitos imaginavam que suas palavras de que voltaria diziam respeito a um tempo muito próximo. Talvez alguns até tenham confundido sua fala em Mc 9, que disse que muitos daquela geração não morreriam sem terem visto chegar o reino de Deus. O reino, porém, era chegado com a pregação, morte e ressurreição de Cristo. Também é possível que uma escatologia exageradamente antecipada tenha motivado os irmãos da igreja de Jerusalém a se desfazerem de seus bens materiais em prol do bem comum. Isso não anula sua voluntariedade, abnegação e solidariedade, mas explica um pouco a má administração daqules recursos. Algum tempo após as doações relatadas no início de Atos, uma fome assolou aquela região e suas proviões não lhes foram suficientes. Mais adiante, ainda em Atos, vemos Paulo colhendo ofertas para aquela igreja que em outro momento tinha recursos em abundância.

Compreender a fé da maneira correta é fundamental. Esse pequeno erro doutrinário poderia produzir sérios prejuízos à vida daquele povo, por isso Paulo os exorta. Tento resistir a citar mais exemplos, pois o parágrafo anterior já foi maior que o pretendido. Mas cedo a falar sobre mais dois: em 70 d.C., Jerusalém foi totalmente destruída pelo exército romano comandado por Tito. Muitos acreditaram que aquele era o tempo da perdição e apostasia que Jesus e os apóstolos preveram, e acharam que a volta do mestre era iminente. Desde 64 d.C., com o imperador Nero, a igreja já sofria grande perseguição. O máximo de paz que se experimentou dali até o século IV, foram alguns intervalos de até 10 anos, seguidos de novas e intensas dificuldades. Em 313, com a conversão do Imperador Constantino, o cristianismo é aceito em todo o Império, através do Edito de Milão. Para muitos cristãos daquele tempo Jesus estava mesmo às portas, pois o fim da perseguição era quase o paraíso.

Enfim, o esclarecimento feito por Paulo neste texto é bem pertinente. Ele diz que a volta de Cristo deveria ser precedida por uma grande apostasia e pela manifestação de um "homem do pecado ou filho da perdição", o anticristo. E isso será um evento claro, como entendemos pelo restante das Escrituras. Principalmente nos versos 2.1-12, Paulo explica sobre isso e tenta acalmar os ânimos escatológicos dos tessalonicenses.

Os versos 2.1-2 justificam em boa parte sua motivação para prestar tais esclarecimentos. Dizem:

"Ora, irmãos, quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele, rogamo-vos que não vos demovais facilmente do vosso modo de pensar, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epistola, como se procedesse de nós, como se o dia de Cristo já tivesse cheegado".

Para ser bem breve, entendamos que os termos espírito/palavra/epístola, referem-se respectivamente a falsas profecias, ensinos de falsos mestres e cartas falsas escritas em nome de Paulo e/ou de outros apóstolos. Para combater essa última possibilidade, notem que Paulo deixa uma marca pessoal facilmente reconhecível por seus destinatários, mostrada em 3.17. E tudo isso chama a atenção para o tamanho esforço feito por alguma entidade para que o povo de Deus fosse enganado. Percebam que qualquer que tenha sido o meio, o fim era o mesmo: uma deturpação doutrinária sutil na mente daquele povo. E que arma poderosa isso é!

É bem mais fácil pregarmos o evangelho a um incrédulo do que a um crente enganado. Se alguém julga conhecer a Deus, mas está no engano, seu coração está mais fechado do que nunca. Afinal, julga conhecer a verdade, não sendo necessário que se lhe pregue ou ensine nada novo. Não foi assim que pensaram e nessa pauta agiram os fariseus e demais religiosos judeus na época de Jesus encarnado?

O engano na nossa mente é uma empreitada para a qual Satanás não deixa de dar atenção. Afinal, ao nos tornarmos cristãos, via de regra, fechamos as portas da nossa vida para os principais pecados. O adultério, o roubo, a fornicação, a desonestidade, o engano, etc., são males tão claros para nós que passam a ser evitados com intensidade. Mas algo disfarçado de um bom ensino, ainda que com conteúdo prejudicial, pode ser fatal à nossa fé. E é por aí que somos facilmente minados. Por essa porta entrou a teologia da prosperidade, o exagero sobre a batalha espiritual, a confissão positiva, o "tomar posse" ou "determinar" isso ou aquilo. E tudo disfarçado de boa doutrina, sob as peles de um ensinamento cristão. Mas que na verdade mais afasta-nos da Palavra de Deus do que dele nos aproxima.

Você quer pensar em batalha espiritual? Pense nessas investidas de Satanás. Logicamente, não estou te incentivando a desconsiderar a ação de demônios. Mas ao menos na vida da igreja, não vejo haver outra possível porta de entrada mais acessível que esta. E como combatê-la? Oração e jejum, sim, mas principalmente estudo e dedicação ao conhecimento sólido da Palavra de Deus. Com ela, fortalecemos nossa fé e nos preparamos para resistir às flechas inflamadas do maligno. Flechas essas que podem incendiar nossa boa doutrina e plantar outra coisa estranha no lugar, caso não estejamos seguros.

Esforcemo-nos por conhecer a Deus. E reconheçamos que isso se dá por meio de sua palavra. As profecias podem ser falsas. Assim como muitos escritos, livros e até a pregação que pode ser feita em nossas igrejas vez ou outra. Mas a Palavra de Deus não muda e é 100% confiável. Dediquemo-nos diaraiamente a ela, e certas investidas de Satanás contra nós jamais acharão lugar.

Graças a Deus.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Predestinação ou livre arbítrio? Uma introdução aos dois pensamentos e seus pensadores

Amigos, abaixo faço uma compilação de três pequenos resumos sobre o tema, que havia usado na Escola Bíblica da Mocidade da Getsêmani. Muitos já haviam me pedido tais resumos/informações, então decido publicar aqui.


Amanhã continuamos com o devocional sobre II Tessalonicenses. Bom proveito!

Armínio

Jacob Hermann, nascido em Oudewater, na Holanda em 1560, tendo vivido até 1609, era um teólogo conhecido por Arminius, forma de seu nome em Latim.

Armínio era de uma família muito pobre, que não teve condições de criá-lo ao nascer. Por isso, sua mãe o entregou aos cuidados de um sacerdote católico, que o criou e, no momento possível, enviou-o a um internato em Utrecht. Passado algum tempo de seu ingresso, seu pai adotivo veio a falecer. Então, um professor de sua escola lhe assumiu os cuidados e enviou-o à Universidade Luterana.

Numa invasão espanhola à cidade de Oudewater, a família de Armínio foi morta por apresentar resistência ao catolicismo. Este fato desencadeia uma revolta muito grande em Armínio contra a igreja e a contra a política.

Durante seus estudos na Universidade Luterana, Armínio conheceu o Rev. Pedro Bertius, pastor da Igreja Reformada de Roterdã. O Rev.. Bertius acolheu Armínio quando da perda de sua família em sua casa, tendo ingressado com a ajuda deles na Universidade de Leiden, na Alemanha. Armínio era um estudante excepcional e seu destaque fez com que a igreja tivesse interesse que ele ingressasse no trabalho ministerial. Com a condição de envolver-se ministerialmente em sua obra, a Igreja Reformada de Amsterdã financia os estudos teológicos de Armínio. Seu envolvimento foi de fato consumado, tendo se tornado um excelente pregador e exegeta.

Durante sua formação, Armínio apegou-se aos ensinos de Calvino. A teologia Calvinista era seu norte nas formulações teológicas.

Em determinado momento, quando do estudo do livro de Romanos para uma apologética dos decretos divinos, teoria também calvinista, Armínio convenceu-se de que Calvino teria se excedido ao tentar refutar a soberania da Igreja Católica da Reforma, fazendo com que o papel da soberania divina ficasse demasiadamente destacado e super-valorizado, a ponto de ocultar o papel fundamental do homem no processo salvífico, não dando ênfase ao seu livre-arbítrio.

Certo disso, depois de muito estudo, Armínio torna-se um opositor da Teologia Calvinista. Defendeu o ponto de vista da liberdade humana durante o resto de sua vida de estudos. Após sua morte, seus discípulos sintetizaram seu pensamento em 05 pontos, que ficaram conhecidos como os 5 pontos do Arminianismo.

Tendo dado forma à Teologia Arminiana, seus seguidores apresentaram suas idéias ao Estado afim de que o catecismo de Heidelberg e a Confissão Belga desse lugar aos ensinos de seu professor. Em 1618, um sínodo é convocado na cidade de Dort para discutir as idéias dos Cinco Pontos do Arminianismo. Este contava com 84 teólogos e 18 delegados seculares, tendo sido composto por 154 sessões, que atravessaram de novembro de 1618 à maio de 1619. a conclusão do exame destes pontos apontou para uma natureza herética dos ensinos de Armínio. Para refutar ainda estes ensinos, fora formulado no Sínodo de Dort os Cinco Pontos do Calvinismo.

Apesar de ganhar forma com os discípulos de Armínio e os defensores de Calvino, sabe-se que nenhuma das idéias é nova no mundo teológico.  No século V, um teólogo chamado Pelágio defendia que a natureza humana não estava totalmente corrompida pelo pecado e que o homem era capaz de decidir-se por Cristo. Suas idéias foram combatidas por Agostinho, que disse não ter a vontade do homem a menor liberdade no processo de salvação, ensinando que o homem é escravo de Satanás e que está morto em seus pecados. À época da Reforma, Erasmo de Roterdã, grande humanista e teólogo, que muito influenciou a Calvino e tantos outros, defendeu a graça soberana de Deus, mas argumentava que o homem poderia aceitar ou não a obra de Cristo em sua vida.


Calvino

Calvino foi um dos teólogos mais importantes, marcantes e motivadores de discussões diversas na história da igreja. Seu pensamento mudou, formou e dividiu opiniões de sua época à nossa.

Karl Barth, um dos maiores teólogos da história, de origem alemã, disse em uma carta a um amigo, citada por Timothy George:

"Calvino é uma catarata, uma floresta primitiva, um poder demoníaco, algo vindo diretamente do Himalaia, absolutamente chinês, estranho, mitológico; perco completamente o meio, as ventosas, mesmo para assimilar esse fenômeno, sem falar para apresentá-lo satisfatoriamente. O que recebo é apenas um pequeno e tênue jorro e o que posso dar em retorno, então, é apenas uma porção ainda menor desse pequeno jorro. Eu poderia feliz e proveitosamente assentar-me e passar o resto de minha vida somente com Calvino".

João Calvino nasceu na França, no ano de 1509. Nesta época, Lutero já ensinava na Universidade de Erfurt. Também em 1509, o Rei Henrique VII falecia, dando lugar a seu filho, que se tornou o Rei Henrique VIII. O então Papa, Júlio II, promulgava uma indulgência para a construção da Catedral de São Pedro.

Calvino era filho de Gérard Cauvin, um também francês influente inclusive eclesiasticamente. Seu pai era assistente administrativo do bispo de Noyon, que concedeu um benefício (financeiro) a Calvino quando este tinha 12 anos. Foi através deste benefício que Calvino concluiu seus estudos.

Vale lembrar que a concessão de benefícios a parentes e amigos era prática comum no clero contemporâneo à reforma de Lutero. Este era apenas um dos vários abusos adotados pelos clérigos e um que favoreceu Calvino em sua formação.

Calvino converteu-se em meados da década de 1530, pegando carona nas tradições e teologias já quase formadas por aproximadamente 20 anos de discussões sobre os princípios levantados por Lutero.

Quando Calvino começa seu movimento reformador, a reforma de Lutero já vinha perdendo espaço e experimentando frustrações, principalmente se vista à luz dos objetivos luteranos: Lutero acreditava que em pouco tempo o papado cairia, seria convocado um verdadeiro concílio reformador (lembrando que Lutero esperava uma reforma dentro da igreja, não uma divisão ou destruição da Igreja Católica), os judeus e turcos seriam evangelizados e convertidos e Jesus voltaria, derrotando o diabo.

A esperança escatológica eminente de Lutero frustrou-se. Zuínglio havia falecido, Erasmo de Roterdã estava sendo cada vez mais consumido pela sua enfermidade, Lutero já não estava tão em foco, muito pelo contrário, a igreja romana começava a retomar suas forças, a reforma radical estava fragmentada. Neste contexto, Calvino emerge como líder de um movimento e reformulador de uma nova teologia.

Calvino começou seus estudos formalmente em agosto de 1523, em Paris, na maior universidade da Europa. Deste ano até 1541, Calvino se transformaria no reformador que conhecemos. Timothy George, no clássico “Teologia dos Reformadores” (que principalmente nos tem servido de guia até aqui), divide a vida de Calvino nestes anos em três partes: preparação, conversão e vocação de Calvino.

Erudito por natureza, nos seus primeiros anos de estudos teológicos, dedicava-se mais que todos os companheiros de sala, de forma que o tempo que alguns tinham de recreação contrastava-se com a oportunidade que Calvino via de estudar um pouco mais.

Por sua disciplina nos estudos, Calvino destacou-se facilmente e passou a freqüentar os círculos do humanismo francês, o qual criticou em alguns aspectos.

Em 1528 Calvino abandonou o curso de Teologia em Paris para cursar direito em
Orléans. Seu pai já não tinha os benefícios da catedral de Noyon e estava em idade avançada. Receando pelo futuro financeiro do filho, Gérard Cauvin ordenou que Calvino buscasse oportunidades mais promissoras como advogado (história totalmente contrastante com a de Lutero).

O estudo do Direito foi útil para ligar Calvino às questões práticas que lhe seriam úteis na formulação das instituições de Genebra, cidade na qual residiu a maior parte de seu tempo após começar os estudos e onde exerceu muita influência. Estes estudos também foram benéficos, falando de nosso ponto de vista, por aproximar Calvino dos estudos da literatura clássica, grande influenciadora de seu pensamento.

“Contrariado com a novidade, eu ouvia com muita má vontade e, no início, confesso, resisti com energia e irritação; por que (tal é a firmeza ou descaramento com os quais é natural aos homens persistir no caminho que outrora tomaram) foi com a maior dificuldade que fui induzido a confessar que, por toda minha vida, eu estivera na ignorância e no erro”.

Não é possível precisar uma data para a conversão de Calvino, mas possivelmente tenha ocorrido por volta de 1530.Calvino não se converteu com facilidade. Ao contrário disso, ele próprio afirma que sua conversão fora duramente aceita e que acontecera da forma súbita, apesar de ter sido um processo marcado por lutas, dúvidas e inquietações. O súbito reconhecido por Calvino pode ser justificado em sua certeza de que Deus mudara o seu coração em determinado momento, conduzindo-o à salvação. Calvino diz não ter feito nada para sua salvação, mas ter sido efeito de uma ação causada por Deus através de sua Palavra. Ele não imaginava a possibilidade de ter sido salvo sem que Deus tivesse tido uma atitude inicial, a despeito de sua dureza. Aqui está, possivelmente, o gênesis da discussão sobre a predestinação.

Calvino era um homem tímido e recluso. Confessava ter vontade de passar a vida em algum lugar isolado, longe do convívio social e dedicado apenas aos estudos. Calvino jamais intentara ser um reformador ou alguém de significativa expressão, especialmente após sua conversão. A convicção de Calvino de que a glória pertencia a Deus e que ele deveria ser cada vez mais invisível, apesar de ativo, no processo divino, também favorecia seu desejado anonimato. O papel de reformador foi atribuído a Calvino não de acordo com seu desejo mais profundo. Pode-se dizer que o desejo por mudança e a inconformidade com o sistema de sua época o impulsionaram a fazer além do que desejava, tornando-o quem foi.

Em 31 de outubro de 1533, exatos 16 anos após a fixação das 95 teses de Lutero na catedral de Wittenberg, Calvino ouviu um sermão proferido pelo reitor da Universidade de Paris, Nicolas Cop, que possuía conteúdo baseado no evangelho suficiente para insultar os católicos ortodoxos. Seu discurso chocou os que o ouviam. Na data, Dia de Todos os Santos, Nicolas Cop pregou a Cristo como único mediador entre Deus e o homem. Para continuar vivo, Cop precisou fugir de Paris.

Como Calvino também estava envolvido de alguma forma no discurso de Cop, a perseguição estendeu-se a ele. Seus escritos foram confiscados e ele não mais podia permanecer em Paris. Refugiou-se em Basiléia, cidade natal de Cop, que também estava lá e lugar escolhido por Erasmo de Roterdã, o maior dos humanistas, para passar seus últimos dias.

Em 1536, ainda na Basiléia, Calvino publica a primeira edição das Institutas. Em 1542, este, dentre outros de seus escritos, foram condenados pela inquisição espanhola, sendo queimados em praça pública.

Durante sua estadia em Basiléia, Calvino ficou nas sombras. Segundo ele, ficara ali escondido, num lugar onde pouquíssimas pessoas o conheciam. Escreveu ali, porém, o que foi considerado o principal documento da teologia protestante do século XVI, as Institutas. Estas eram um tratado sobre o ensino básico da religião cristã, um escrito catequético. As Institutas tiveram sua primeira publicação em 1536 e, após várias revisões, alcançou sua versão definitiva em 1559. Esta publicação foi um sucesso absoluto de vendas. Sua primeira edição esgotou-se no primeiro ano, fazendo com que Calvino ficasse muito conhecido.

Ainda em 1536, buscando seu objetivo de refugiar-se do tumulto para descansar e estudar, Calvino ruma com sua irmã, Marie e seu irmão, Antoine, para Estrasburgo. Devido a uma manobra militar no caminho, Calvino e seus irmãos desviaram o caminho e pretenderam passar uma noite em Genebra, cidade suíça localizada na fronteira com a França.

Pouco antes da chegada deles em Genebra, a cidade havia abraçado a Reforma e decidido viver de acordo com a evangelho a despeito das ordens e dos abusos papais, através de Guilhaume Farel. Quando este tomou conhecimento de que Calvino estava na cidade, o insistiu com ele para que ficasse na cidade e o ajudasse a completar a recente reforma. O desejo de Calvino ainda era rumar para um lugar tranqüilo e dedicar-se aos estudos. Diante de sua veemente negação, Farel amaldiçoou Calvino para o caso de ele não atender à sua necessidade. Calvino cita este episódio da seguinte forma:

"A essa altura, Farel
(Ardendo com um zelo assombroso
Pela proclamação do evangelho)
Repentinamente uniu todos os seus esforços
Para manter-me ali.
Depois de ouvir
Que eu estava decidido
A prosseguir meus estudos particulares –
Quando percebeu
Que não chegaria a lugar algum com súplicas –
Chegou a ponto de amaldiçoar-me:
Que agradaria a Deus
Amaldiçoar meu lazer
E a tranqüilidade para meus estudos
Que eu estava buscando
Se em tão grave emergência
Eu me retirasse e me recusasse
A prestar auxílio e socorro?
Essa palavra arrasou-me tanto,
Que desisti da viagem
Que havia começado".
Desde então, apesar de nunca ter se sentido a vontade em Genebra, Calvino abraçou sua causa. Exerceu, basicamente, o pastoreio e o ensino. Seu catecismo e uma confissão de fé foram adotados pela cidade. Em Genebra, a vocação de Calvino ficou claramente exposta aos seus olhos e ele abraçou com todas as forças e temor que pôde.

Em abril de 1538, porém, Calvino e Farel foram expulsos de Genebra. Uma discordância acirrada com o conselho da cidade a respeito da disciplina adequada da igreja causou esta confusão.

Expulso de Genebra, Calvino retomou seu curso para Estrasburgo. Ali, viveu anos com os quais ele ficou muito grato. Exerceu o pastoreio, lecionou numa escola fundada por John Sturm, erudito francês da universidade de Paris, revisou as Institutas e editou uma versão três vezes maior que a primeira. Calvino ainda foi atuante nas tentativas de união entre as igrejas protestante e católica, que parecia ainda viável até certo ponto. Calvino deparou-se com uma cristandade tão fragmentada, que disse: “Entre os maiores males de nosso século deve ser contato o fato de que as igrejas encontram-se tão divididas entre si e de que mal há um relacionamento humano entre nós”. Finalmente, em Estrasburgo Calvino casou-se com Idelette de Bure, uma viúva anabatista convertida à fé reformada através de Calvino. Após sofrerem a morte de um filho ainda bebê, tiveram mais dois filhos. Idelette faleceu 15 anos antes de Calvino.

Após passar três anos em Estrasburgo, o povo de Genebra implorou pela volta de Calvino, pois as coisas na igreja haviam ido muito mal durante sua ausência. Relutante, devido à realização pessoal encontrada na cidade em que estava, Calvino cedeu e voltou a Genebra em 13 de setembro de 1541.

Sua volta foi marcada por dois pontos importantes: primeiro, apresentou ao conselho da cidade um plano para a ordem e o governo da igreja, que foi aceito por eles. Instituía os ofícios de pastor, doutor ou professor, ancião e diácono. Segundo, quando voltou ao púlpito que havia deixado, ao invés de fazer qualquer discurso que responsabilizasse seus ouvintes pelas mazelas criadas durante sua ausência, Calvino retomou seus sermões exatamente do último versículo e capítulo que havia parado há três anos. Esta atitude mostrava que a prioridade em seu ministério e vida era um compromisso responsável e verdadeiro com a Palavra de Deus.

Calvino permaneceu em Genebra até a sua morte, em 27 de maio de 1564. Sua saúde nunca fora estavelmente boa e seus últimos anos o marcaram com muito sofrimento por causa dela. Uma carta escrita por ele endereçada a médicos franceses que lhe prestavam cuidado dizia que ele sofria de artrite, pedra nos rins, hemorróidas, febre, nefrite, indigestão severa, cólicas, úlceras, emissão de sangue no lugar da urina.

Calvino morreu declarando a consciência de que não havia feito nada para o Reino de Deus. Por tudo o que fizera e considerava que tenha sido útil para a igreja, esperava por sua recompensa no céu. Disse: “é suficiente para mim viver e morrer para Cristo, que é, para todos os seus seguidores, um ganho tanto na vida quanto na morte”.


Chegar a uma síntese baseada no confronto destas tese e antítese não é tarefa fácil. A oposição é tamanha que as idéias parecem não encontrarem um ponto comum. Cabe a nós analisarmos os dois lados à luz das Escrituras e refletirmos sobre os mesmos, cientes de que as duas linhas de pensamento foram formuladas por homens piedosos e zelosos pela Palavra de Deus e pela reta doutrina, seja qual for a opção doutrinária que fizermos.

Vejamos um contraste entre o arminianismo e o calvinismo, baseado nos cinco pontos de cada doutrina.

Arminianismo: Livre Vontade
A teoria da Livre vontade do homem defende que este não perdeu a sua capacidade de inclinar-se a Deus e à sua boa vontade. Para os defensores desta idéia, o arrependimento e a fé de alguém é de sua própria autoria, atitude entendida como uma cooperação livre com o Espírito Santo.
Assim, os defensores da Livre Vontade pregam uma depravação parcial: o homem é inclinado ao pecado, porém não foi depravado a ponto não poder resolver inclinar-se a Deus.

Referências:

Jo 3.16
At 2.38
At 16.31
Rm 10.9


Calvinismo: Depravação Total

O homem não possui a mínima capacidade de inclinar-se a Deus, pois foi totalmente corrompido, depravado na queda, a ponto de perder a sua faculdade de autodeterminação em relação a Deus.
Quem prega a depravação total acredita que o homem nasce escravo de Satanás, inclinado para sua vontade, morto espiritualmente e cego para a instrução sobre as coisas de Deus

Referências

Rm 3.11-12
Sl 58.3
Jo 3.3
2Tm 2.25-26
Ef 2.2-3
ICo 2.14


Armianismo: Eleição CondicionalPara os arminianos, a eleição depende do arrependimento e da fé por parte do homem. A eleição estaria baseada no pré-conhecimento que Deus possui daquele que ouve a mensagem do evangelho. Deus sabe com antecedência que o indivíduo atenderá ao chamado divino e usará seu poder de decisão para a salvação para fazê-lo. Para eles, Deus não viola a condição de liberdade do homem, efetuando a obra da regeneração em sua vida apenas após este abrir para ele o coração e arrepender-se de seus pecados, crendo em Deus. A decisão do homem é ponto fundamental para a salvação.

Referências:

I Pe 1.2
Rm. 11.2
Pv 3.5
Mc 1.15


Calvinismo: Eleição IncondicionalA principal diferença neste pensamento é a idéia de que o homem não possui a capacidade de arrepender-se e gerar fé no próprio coração. O ato de gerar arrependimento e fé no coração de alguém é de iniciativa divina, que abre o coração do eleito e cria nele a capacidade de querer fazer a vontade de Deus; vontade esta que seria indesejável ao homem natural.
Quem defende este pensamento, diz que a eleição está baseada na soberania e livre vontade de Deus. Ele escolheu a quem quis, segundo o seu propósito, antes da fundação do mundo. Nesta teoria, a regeneração precede o arrependimento e a fé. Deus regenera o homem, capacitando-o a crer e a se arrepender para ser salvo. Assim, estes dois atos são inteiramente obra de Deus no homem.

Referências:

Jo 15.16
At 13.48
Ef 1.11
Rm 8.28
Jo 6.44
At 16.14
Is 55.11


Arminianismo: Expiação UniversalEste conceito diz que a expiação feita por Cristo alcança a toda a humanidade, tendo Jesus morrido por todos, sem exceção. O sangue de Jesus tornou-se a base para a oferta do perdão.

Referências:

Jo 3.16
1Pe 3.9
Jo 1.29
At 10.43
Jo 1.12


Calvinismo: Expiação LimitadaDiz que a salvação é somente para os eleitos. Ela não seria ofertada ao homem, uma vez que ele não é capaz de escolher ou não atender ao chamado divino. O principal norte deste raciocínio é o de se Cristo morreu por todos, todos serão salvos. Se somente os eleitos serão salvos, então Cristo morreu somente pelos eleitos. Para os adeptos da expiação limitada, somente os escolhidos são alvo da graça de Deus. Argumentam que somente é dito nas Escrituras que são amados de Deus os santos/eleitos.

Referências:

Jo 6.37
Jo 17.9
2Ts 2.13
1Ts 1.3-4
Cl 3.12


Arminianismo: A graça pode ser obstruídaOs arminianos defendem que Deus deseja salvar a todos, porém, este desejo pode ser obstruído pela vontade do homem, uma vez que este é capaz de decidir-se a favor ou contra (!) o chamado divino. A chamada ao evangelho é acompanhada pela graça suficiente (não eficiente) e universal, porém resistível.

Referências:

Jo 1.12
Jo 3.36
Jo 3.18-21
Jo 5.40
Jo 8.45


Calvinismo: Graça IrresistívelComo crêem que Deus elegeu os seus desde a eternidade, o chamado da graça soberana será feito de tal forma que o eleito incondicional e irresistivelmente se voltará para Deus. Deus dá a vida aos filhos, não força-os a crerem nele, segundo os calvinistas.

Referências:

Is 46.9-10
Is 55.11
Jo 6.37
Tg 1.18
Jo 5.21
At 11.18
Tt 3.5


Arminianismo: O homem pode decair da graçaO arminianismo defende que, já que o homem é responsável por escolher ser salvo, é a sua autodeterminação usada par escolher a Cristo, ele também é responsável por conservar-se salvo, mantendo a fé e a obediência. Neste pensamento, o homem pode ter aceitado a Cristo, sido também aceito e salvo por ele, mas por algum motivo desistir da caminhada cristã, decaindo da graça, perdendo-se novamente.

Referências:

Gl 5.4
Hb 6.4-6
Hb 10.26-27


Calvinismo: A Perseverança dos SantosComo para os calvinistas a salvação é um processo que depende totalmente de Deus, sem a intervenção do homem em qualquer parte, ela nunca poderá ser perdida. Os santos perseverarão até o fim, pois é Deus quem quer que eles perseverem. Nenhum eleito poderá ser arrebatado da salvação ou das mãos do Senhor. O contrário poderia ser uma afronta à soberania divina.

Referências:

Jd 24
2Tm 4.18
Sl 37.28
Jo 10.27-28
Rm 8.37-39


Vale ressaltar que o maior número de referências ao calvinismo em alguns pontos não se dá por preferência ou algo do tipo, mas por maior abundância delas no texto bíblico.

O calvinismo foi sustentado ao longo da história por grandes homens. Teólogos, pastores, missionários e até políticos. Já o arminianismo, foi a base do modelo de evangelização em massa do século XX, tendo achado também sustentação em muitos nomes de relevância no meio cristão/teológico, inclusive dos irmãos Wesley.

Fato é que as duas doutrinas merecem um exame cuidadoso e carecem de responsabilidade da parte do estudante em sua abordagem. Ambas podem conduzir a extremos perigosos e apesar do imenso desafio, deve-se buscar um equilíbrio sadio entre as duas.

Um dos maiores exemplos que podemos citar sobre uma opção saudável, responsável e sensata por uma das duas doutrinas é a de William Carey, um revolucionário missionário, que inaugurou o que entendemos hoje de missão transcultural. Carey enfatizou determinadamente a predestinação. Isso, porém, não foi empecilho para que chamasse a todos para o arrependimento e a fé em Cristo, revolucionando o mundo com sua evangelização e com suas obras, certo de que o fato de Deus escolher previamente os seus, conforme concordava, não o eximia da responsabilidade de pregar o evangelho. Assim como também o apóstolo Paulo, no qual se encontra grandes bases para a defesa da doutrina da predestinação e que disse reconhecer imensa responsabilidade com a pregação do evangelho.

Recentemente ouvi o Rev. Augustus Nicodemus Lopes, chancheller da Universidade Mackenzie e pastor presbiteriano, detentor de um currículo acadêmico invejável, explicar a um grupo pequeno de irmãos sobre esses dois pontos discordantes. Em tom de descontração, ele disse que todo crente de joelhos é calvinista. Afinal, ninguém ora a Deus e dá graças a si mesmo por ter se decidido por Cristo, aceitado a salvação e agora, tendo feito bom uso de seu livre arbítrio, poder adentrar aos céus. Antes, agradecemos a Deus e o louvamos por ter nos escolhido e revelado seu filho em nós. Já de pé, esse mesmo crente calvinista prega o evangelho ao seu colega de trabalho, convidando-o ao arrependimento e à conversão, mostrando-lhe como é responsável diante de Deus por seus pecados. Portanto, todo crente em pé é um arminiano!

Devemos de fato buscar o equilíbrio que nos garanta uma doutrina bíblica e também uma prática bíblica e responsável para com o não-cristão, alvo do amor de Deus. Que o Senhor ilumine a cada um de seus filhos que, zelosa e responsavelmente aventurarem-se a investigar sobre estes ensinamentos. Que os moldes nos quais a igreja brasileira e latino-americana foram formadas não sirvam de “gesso” para o pensamento de nenhum de nós e que da mesma forma, a isenção do envolvimento humano no processo de salvação defendido por Calvino não seja usado de guia ou motivador à libertinagem de ninguém. Isso certamente seria irresponsável, insensato e infiel ao que Calvino tanto esforçou-se por ensinar e ao que as Escrituras nos convidam a fazer.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

II Ts 1: Do Senhor é a vingança (?)

"Deus é justo. Ele dará em paga tribulação aos que vos atribulam, e a vós, que sois atribulados, alívio conosco, quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos em seu poder, em chama de fogo. Ele tomará vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Eles por castigo padecerão eterna perdição, banidos da face do Sennhor e da glória do seu poder, quando vier para ser glorificado nos seus santos, e ser admirado em todos os que creram, naquele dia (porque o nosso testemunho foi crido entre vós)".
II Ts 1.6-10

Dizem que determinado sujeito zombou de Jesus, chamando-o de homossexual. Então, uma doença séria o acometeu e o sujeito morreu tragicamente. Conta-se a história de um grupo de amigos que saía de viagem e, quando alguém disse: "vão com Deus!", o motorista retrucou que não havia espaço para ele, pois o carro estava lotado, mas que ele poderia ir no porta malas. O carro capotou, segundo a história, todos morreram e um pente de ovos que estava no porta malas continuou inteiro. E imagino que você ainda consiga lembrar de outras histórias, que podem ser verdadeiras ou não, sobre situações em que alguém disse ou fez algo contra o Senhor e recebeu de forma trágica a paga pela sua rebeldia.

Pode ser que algumas coisas assim tenham acontecido. Pode ser também que tenham sido ação de Deus ou apenas coincidência. Por certo, sei apenas que nos cabe não exercer juízo. E, assim como o Senhor não tem prazer na morte do ímpio, não devemos olhar para situações com aquele olhar triunfalista e dizer: "o Senhor fez justiça". Isso pode ser tão errado como aquele ato que estamos condenando.

O texto acima diz que o Senhor recompensará tanto justos como injustos. E ele encontra amparo no restante das Escrituras, sabemos. O evangelho de Mateus nos diz que, ao voltar, o Senhor separará os bodes das ovelhas. Mandará que entrem no descanso os justos e condenará à perdição os injustos. E isso de fato acontecerá. Apesar de não nos caber julgar quem receberá qual recompensa.

Há uma vertente teológica em algumas das nossas igrejas que enxerga Deus como esse Senhor vingativo, intolerante, que não leva desaforo para casa. Que nos ensina a glorificar a Deus quando alguma tragédia acontece a alguém que zombou do evangelho, da igreja, de Jesus, etc. E que falta de amor, consciência, graça e coerência bíblica isso demonstra! Se Deus é assim, onde está a graça? E por qual motivo tolo eu considero a ofensa manifesta de alguém mais grave do que a minha ofensa velada com o meu pecado que não foi exposto? Isso não é motivo para glorificar a Deus, mas sim um atestado de imaturidade na fé.

O texto de II Tessalonicenses, como outros, diz que o Senhor recompensará a cada um na eternidade. Se alguém te prejudicou, injustiçou ou ofendeu, e de fato você foi alcançado pelo amor de Deus, a atitude ideal não é esperar que um raio caia do céu na cabeça do ofensor. Antes, esperemos em Deus que cuide de nós e oremos para que o ofensor conheça ao Senhor e seja alcançado por sua graça. Pois o castigo eterno é pesado demais, caso tenhamos nos esquecido. Esperemos que todos conheçam a Deus e sejam por ele agraciados. E que tal demonstrarmos também, com nossa atitude um pouco dessa graça?

A "vingança" é do Senhor. Que ele cuide de cada um de nós. E que possamos esperar uma recompensa justa, seja qual for.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

I Ts 5: Como um ladrão! Ou não.

Os irmãos tessalonicenses acreditavam erroneamente que Jesus voltaria muito em breve. E ainda tinham outros problemas quanto ao fim dos tempos: como afirmam alguns teólogos, possivelmente criam que a ressurreição do corpo não existiria, mas que a ressurreição se dava de forma espiritual e que os crentes já a tinham experimentado.

Neste contexto, o Apóstolo retoma uma metáfora que Jesus havia usado, a de que o Senhor viria como um ladrão de noite, e a explica a seus leitores.

O ladrão é alguém que vem de surpresa e pega sua vítima desapercebida, causando-lhe dano. Com certeza, essa não é a expectativa que temos quanto à volta de Cristo, mas ela cabe muito bem da forma que Paulo a aplica.

Estamos certos de que, quando o Senhor vier, não nos causará prejuízo. Antes, será motivo de alegria, pois seremos final e definitivamente redimidos. Toda tristeza será consolada, a justiça será feita e teremos uma alegria eterna, bem diferente e melhor do que tudo o que já experimentamos. Ao contrário do que dizem alguns, a segunda vinda de Jesus não é um "horizonte utópico", que serve como uma esperança norteadora para a nossa prática. Ela é real!

Para aqueles que vivem nas trevas, como dizem os primeiros versos do cap. 5, pensando poderem fazer tudo o quanto quiserem sem se preocuparem com Deus, ele virá com um ladrão e lhes causará dor e perda (5.3). Porém, para os que o esperam, não haverá susto, mas alívio. Afinal, não fomos destinados à ira, mas à salvação (5.9).

Portanto, ou vigiamos e nos portamos como quem anda na luz (5.5-6; I Jo 1.5-10) e seremos abençoados com sua volta (5.9; Ap. 21.1-4; ou vivemos como acharmos melhor (5.3, 6-7; Sl 14.1; Rm 1.21-32; etc) e seremos "pegos" quando ele chegar.

Para nós, ao invés da metáfora do ladrão, serviria melhor a de uma visita muito aguardada, mas que não avisou a que horas chegaria. Assim, pode chegar pela manhã, tarde ou noite, que será bem vinda e recebida com alegria.

 Estejamos prontos e aguardando o Senhor. Viveremos nossa vida normalmente; trabalharemos, pregaremos o evangelho e nos santificaremos. Ele pode ou não voltar enquanto estamos vivos. Mas, de qualquer forma, não fiquemos desprevinidos.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

I Ts 4: Conselhos de Paulo para a santidade

"Finalmente, irmãos, nós vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como recebestes de nós, quanto à maneira por que deveis agradar a Deus, assim andai, para que abundeis cada vez mais. Pois vós bem sabeis que mandamntos vos temos dado pelo Senhor Jesus."
I Ts 4.1-2

Texto mais direto do que o deste capítulo é raro. O Apóstolo Paulo diz que os tessalonicenses já conhecem a forma como agradarão a Deus, através do cumprimento dos mandamentos, e os relembra deles. Agora, nos versos 3-12, a fala de Paulo aborda três requisitos para agradar ao Senhor: fugir da prostituição; praticar o amor fraternal e trabalhar pela própria provisão. Segundo o Apóstolo, essa é a vontade de Deus para a nossa santificação (4.3).

Paulo era um homem que conhecia bem a si mesmo e a natureza da humanidade, em geral. Qual a razão de, dentre tantos pecados que poderiam ser listados, ele recomendar o cuidado com a prostituição (4.3-8)? A sexualidade é um dos maiores potenciais de tropeço para o cristão. Jesus também teve essa preocupação e quando foi falar sobre o adultério, disse que o problema, o pecado, não era consumar o ato, mas apenas desejar alguém de forma ilícita já era considerado um adultério no coração. O Senhor também nos conhece e sabe que se alimentarmos o nosso coração com desejos que não nos convém, uma hora acabaraemos caindo. Viver a pureza sexual a cada dia e nas pequenas coisas, nos garantirá boa parte da nossa santidade.

Além de fugir da prostituição, devemos praticar o amor (4.9-10). Um dos pecados mais comuns no meio da igreja está ligado diretamente a problemas de relacionamento. Enquanto deveríamos amar ao próximo e honrá-lo, abençoá-lo, vemos muitos que não fazem a mínima questão disso, e se perdem em seu egoísmo, individualismo e desprezo pelo próximo. De forma disciplinar, devemos decidir diariamente ter um bom relacionamento com o irmão. E fugir de invejas, brigas, discussões fúteis, de ter sempre a razão e a última palavra, etc. É um erro grosseiríssimo cultivarmos maus relacionamentos, pois o segundo maior mandamento, um dos dois que resumem toda a lei, nos diz para amarmos o próximo como a nós mesmos.

E por último, e de forma interessante, Paulo diz que cada um deve buscar o próprio sustento a partir de seu trabalho (4.11-12). Vale a pena transcrever esses versos:

"Ambicionem uma vida tranquila, e busquem tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhar com as vossas próprias mãos, como já vo-lo temos mandado, para que andeis honestamente para com os que estão de fora, e não necessiteis de nada ou de ninguém"

Tomei a liberdade de fazer uma tradução mais próxima do original nos dois versos acima, nos trechos em negrito. Paulo fazer essa recomendação nos diz ao menos duas coisas: uma delas é a mesma que disse aos tessalonicenses, que devemos trabalhar pelo nosso pão e, não tendo necessidades dos que estão de fora, servir-lhes de bom testemunho. E a segunda, é sobre a postura de Paulo ao recomendar essa atitude como necessária à santificação daquele povo. Isso nos fala sobre sua individualidade.

Para mim, a melhor forma de me santificar pode ser buscando mais domínio próprio nas situações de crise, discussão, tensão. E pode não fazer o mínimo sentido que isso seja recomendado para você. Assim como a recomendação sobre o trabalho pode também não fazer. Mas o que nos está sendo mostrado é que o nosso aperfeiçoamento no Senhor depende de quais são as nossas fraquezas. No caso da igreja de Tessalônica, a ociosidade era um problema a ser resolvido. No nosso, pode ser o individualismo, a carnalidade, a falta de domínio próprio, de educação, de consciência para com o meio-ambiente, etc. O Senhor quer o melhor de cada um de nós, individualmente. Não há fórmula para a santidade, mas apenas a necessidade comum e pessoal nossa de nos aproximarmos do Senhor e o agradarmos.

Que Deus nos abençoe para conseguirmos nos aproximar dele a cada dia. Que nossa santidade, cultivada por ele, possa ser sempre crescente. Assim o agradaremos, teremos uma vida coerente com o evangelho e de paz.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

I Ts 3: Sofrimento: uma certeza para a caminhada cristã

"Nivton, os textos do seu blog são para aproximar as pessoas de Cristo ou afastá-las?"

Sim, considerando o título deste texto, reconheço que poderia ouvir a pergunta acima. E a resposta seria que os textos têm a intenção de nos aproximar de um Cristo verdadeiro, que não promete o que não cumpre e nem está nos chamando a viver no País das Maravilhas.

Olhei para o capítulo 3 de Tessalonicenses um bom tempo antes de começar a escrever aqui. Apesar de ser um trecho curto e objetivo, que conta sobre a motivação de Paulo e dos seus em enviar Timóteo para se informar sobre os tessalonicenses, há muito o que podemos aprender aqui. A começar sobre a confiança da qual Timóteo era digno, que nos é exemplar. Fosse ele alguém negativo, pessimista, com uma visão distorcida da realidade, como daquelas pessoas que, após se tornarem (ou se dizerem) cristãs, passam a ver tudo como problema, ele certamente não teria sido enviado àqueles irmãos. Mas o foi e Paulo sabia que seu relato seria fiel. E o que ele conta alegra o Apóstolo a  respeito daqueles irmãos.

Ainda aprendemos que o pecado tem o poder de destruir com facilidade o que com muita dificuldade é construído. O verso 3.5 diz que Paulo temia que os irmãos dali fossem tentados e o seu trabalho se tornasse vão. E também vemos um excelente exemplo de uma igreja madura e sadia, que alegra ao seu pastor. A satisfação de Paulo ao escrever toda a carta, e este capítulo com destaque, é de encher os olhos. Espero que meu pastor tenha razões para manter um olhar como esse sobre mim.

Um princípio, porém, me chama muito a atenção e à ele gostaria de dedicar nossa principal temática. Os versos 3.1-4 dizem:

"Pelo que, não podendo suportar mais o cuidado por vós, achamos por bem ficar sozinhos em Atenas, e enviamos Timóteo, nosso irmão, ministro de Deus e nosso cooperador no evangelho de Cristo, para vos confortar e vos exortar acerca da vossa fé, para que ninguém seja abalado por estas tribulações (a prisão e o sofrimento de Paulo e de seus companheiros). Vós mesmos sabeis que para isto fomos destinados. Com efeito, estando ainda convosco, predissemos que íamos ser afligidos, como sucedeu, e vós o sabeis."

Gostaria que algum teólogo (se assim o puder chamar) da prosperidade me respondesse a respeito do que Paulo disse nesses versos. Para ele, o sofrimento estava seguramente marcado em sua agenda, fazia parte do "plano de vôo". O termo grego usado para dizer que eles estavam destinados é "keimai", que pode significar estar destinado, apontado para, certamente designado a; não há engano na nossa tradução. Era certo que, aqueles pregadores do evangelho inteiramente dedicados à causa de Cristo, sofreriam em sua caminhada.

Se as tribulações fariam parte da viagem do Apóstolo Paulo, que dedicava-se ao Senhor com todas as forças, literalmente dando sua vida para que o evangelho fosse pregado, com que fundamento está sustentada a ideia de que qualquer que diz confiar em Cristo não padecerá dificuldades?

Me lembro de um vídeo que, de tão absurdo chega a ser engraçado. Dêem uma olhada abaixo e riam comigo. Trata-se de um trecho, cujo recorte não compromete o sentido do todo, da pregação do pastor da igreja que possui no mínimo, o maior lugar de reuniões dos EUA, a Lakewood Church. O Pr. Mark Driscoll, que noutra mão é pastor de uma das igrejas mais sadias de que já ouvi falar, comenta com muita propriedade e bom humor sobre sua mensagem. Vejam o vídeo:


A vida cristã contém também seus percalços. O contrário só seria possível se vivêssemos num mundo perfeito, o que de forma alguma é verdade. Tem alguém em sua família ou conhece alguém, cristão, que tenha morrido de câncer, por exemplo? E que justiça há nisso? Conheci pessoas maravilhosas que sofreram e padeceram desse mal. O pecado que trouxemos à realidade da criação em Adão corrompeu tudo o que existe, fazendo da nossa realidade não-ideal em si mesma. E só a redenção final em Cristo dará jeito nisso. O erro grosseiro da teologia da prosperidade é querer trazer os efeitos dessa redenção final, que se dará na sua segunda vinda, para a nossa vida hoje. Por isso a T.P. é assassina da esperança real que devemos ter em Cristo.

Ser cristão não garante isenção das lutas dessa vida. Pelo contrário, muitas vezes. Há quem sofreu, sofre e sofrerá bastante, justamente por ser cristão e isso se lhe tornar causa de perseguição por parte de outros. Mas a recompensa na eternidade vale a pena! Paulo sabia pelo que lutava, por isso não desfalecia. E nos anima sempre, como temos visto em seus escritos. Ele falava com propriedade, pois o fazia com todo o conhecimento de causa possível.

Renovemos as nossas forças e sigamos o caminho que nos está proposto. Deus, em Jesus, é quem nos fortalece, pois é ele mesmo quem nos propõe tal caminho. E mais importante do que não ter dificuldades na viagem, é saber que o próprio Senhor está conosco nelas. Um caminho tranquilo sem Deus como companhia seria mais atribulado do que o mais complicado ao seu lado. E caminhemos com a esperança real, bíblica, digna, de que um dia estaremos com ele eternamente, e toda lágrima dos olhos, sofrimento e injustiça dessa vida serão findados.

Graças a Deus!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

I Ts 2: Um objetivo ministerial digno

Segundo capítulo da primeira carta de Paulo aos tessalonicenses. Como já disse antes, trata-se da carta mais tranquila que Paulo escreveu. Ele não economiza elogios à igreja de Tessalônica, pois a maturidade daqueles irmãos era notável e exemplar.

Ao ler o segundo capítulo, porém, outro personagem que não os destinatários me salta aos olhos, e é o próprio Paulo. Já escrevi em outro texto sobre a segurança que Paulo tinha por ter trabalhado em prol dos seus com uma consciência livre de qualquer culpa ou medo, principalmente por ter sido extremamente zeloso em não causar nenhuma espécie de incômodo aos que o recebiam enquanto evangelizava. O verso 2.9 diz que ele trabalhou durametne para que não fosse pesado aos bolsos dos irmãos. E o fez enquanto evangelizava, mesmo tendo o direito de usufruir do cuidado daqueles que o recebiam.

Este devocional de hoje é, antes de tudo, um texto para mim. Suponho que você, caro leitor, já tenha lido o capítulo do qual este texto trata. Caso ainda não, sugiro que o faça agora. Abaixo, escrevo uma paráfrase da fala de Paulo, expressando que desejo muito poder, um dia, fazer de suas palavras as minhas. Segue:


"Irmãos, vocês sabem que trabalhamos muito em prol de vocês, mesmo sob muita dificuldade. E também estão certos de que tudo o que lhes ensinamos não foi feito com segundas ou impuras intenções, mas com sinceridade de coração. O Senhor o sabe. Eu, assim como os que comigo tanto trabalharam, não aceitamos nenhuma recompensa humana, mas nos realizamos em ver o cuidado de Deus em vocês e em nós.



Abrimos mão de muita coisa em prol de vocês, mas certos de que essa era a direção de Deus, visando o vosso aperfeiçoamento e salvação. Trabalhamos pelo nosso pão, mesmo podendo repartir do de vocês. Assim, ainda que muito cansados, o Senhor nos sustentou.

Pregamos a vocês o evangelho, mas também compartilhamos da nossa vida com cada um de vocês. A relação de ajuda tornou-se amizade para com muitos. E a vossa postura em relação ao evangelho e ao amor que de nós receberam enche-nos de orgulho. A despeito das dificuldades e das perseguições, as quais foram sofridas e também previstas pelo Senhor, muito pudemos fazer juntos.


E tudo valeu muito a pena. Vocês se tornaram motivo de alegria para nós, por serem frutos que permaneceram e que poderão ser apresentados ao Senhor no grande dia. Por vocês, igreja madura e forte, que já resistiu a muito, estamos certos de que valeu a pena todo o nosso trabalho. Vocês são a nossa coroa diante de Deus".

Trabalhar para o evangelho sem pretensão financeira. Ter as orações respondidas e a segurança de estar fazendo da forma que o Senhor realmente se agrada. Abrir mão de muito, sim, mas para ganhar tudo das mãos do Senhor. Um dia, quero poder dizer ao meu público o mesmo que Paulo disse aos Tessalonicenses. Terei zelado por eles, cuidado, ensinado. E tudo com abnegação por causa de Cristo, não servindo à minha carne e/ou interesses.

Assim, estou certo de que terei tido - e continuarei a ter - um ministério frutífero e relevante. Que cada pastor se espelhe em Paulo, autor do texto. E que cada membro a igreja se espelhe nos irmãos de Tessalônica. Que o Senhor nos dê unidade e nos torne cada vez mais frutíferos, buscando com nosso ministério o bem das nossas ovelhas, não seu proveito..

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ts 1: O que faz uma igreja madura

Quando comecei a escrever os devocionais aqui no blog, postei primeiro alguns textos sobre Tessalonicenses. Se vc buscar aí na lateral os posts de Julho, vai identificá-los. E um desses posts tem como um de seus versos base os mesmos que uso abaixo, mas agora olhando mais profundamente por um ponto específico. Segue:

"Sempre damos graças a Deus por vós todos, fazendo menão de vós em nossas orações, lembrando-nos sem cessar da obra da vossa fé, do vosso trabalho de amor e da vossa firmeza de esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai, reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição".
I Ts 1.2-3

A igreja de Tessalônica, como disse no post anterior, era uma igreja madura. Paulo combate problemas relevantes ali, mas ainda assim é uma das igrejas mais elogiadas pelo Apóstolo em suas cartas. Essa maturidade é mostrada em todo o texto, mas os versos acima deixam isso claro para nós.

Paulo entendia por certa a vocação daqueles irmãos. O amor e a dedicação deles ao ministério atestavam sua eleição e salvação, como dizem esse e outros textos ainda da carta. Sobre isso se trata um dos posts anteriores dos quais falei. Se quiser lê-lo agora, clique aqui. E repare no que foi dito pelo autor nos versos que lemos a respeito dessa tão elogiada fé tessalonicense: eles tinham ação, pois Paulo lhes diz lembrar-se sempre da "obra da vossa fé". Conseguiam praticar o amor que diziam viver, como segue dizendo o mesmo verso transcrito acima, e sua esperança da volta da Cristo era firme e certa.

Obviamente, não poderíamos montar a partir daqui um questionário para medir a maturidade da fé ou a salvação de um e outro, mas podemos inferir que de fato, uma pessoa madura na fé e verdadeiramente salva, manifestará essas características.

Não dá pra imaginar um verdadeiro discípulo de Cristo se contentando em ir à igreja nos fins-de-semana sem colocar sua fé em prática através do serviço e da evangelização. Assim como também não se verá um cristão sério dizendo que foi alcançado pelo amor de Deus, mas que não consegue amar ao seu próximo com o mesmo amor que diz ter recebido. E quanto à esperança da volta de Cristo? Algumas brincadeiras que comumente ouvimos no meio cristão demonstram grande imaturidade. E quem te fala isso não é alguém sério demais, pelo contrário. Mas aposto que você já ouviu alguém dizer (ou você mesmo disse) que Jesus não poderia voltar antes de seu casamento, aquisição disso ou daquilo, formatura, conquista A ou B, etc.

Se temos consciência real do que representa a volta de Cristo, a redenção completa da humanidade, a libertação total das amarras que a queda nos trouxe, somos capazes de trocar qualquer coisa por esse esperado momento. E a fé tessalonicense demonstrava essa esperança viva.

Se olharmos para o nosso cristianismo hoje, veremos uma vivência que demonstra ação, prática do amor e esperança viva? Esse modelo na igreja para a qual Paulo escreve foi capaz de tirar-lhe um elogio da pena. Eu espero que possamos ter o Senhor olhando para nós com seus bons olhos e da mesma forma se alegrando com nossa fé.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Paulo aos Tessalonicenses: um pastor, a uma boa igreja

Para quem está acompanhando a leitura do blog, ler o título deste texto pode ser uma surpresa. Temos visto que todas as cartas, até aqui, sempre são escritas para resolver problemas e, na sua maioria, problemas doutrinários e/ou morais sérios. As duas cartas de Paulo aos irmãos de Tessalônica também tratam de problemas, para variar, mas essa igreja poderia servir de exemplo às demais daquela época e também às contemporâneas.

A primeira das duas cartas foi a segunda carta que Paulo escreveu em seu ministério. A primeira, possivelmente, foi Gálatas. Paulo conhecia os tessalonicenses pessoalmente, o que pode ser verificado em Atos 17. A segunda viagem missionária que fez teve como destino essa cidade, da qual Paulo precisou sair rapidamente por conta de uma perseguição.

Paulo escreve juntamente com Silvano (ou Silas, pois essa é outra forma de seu nome) e Tiimóteo e tece bons elogios aos tessalonicenses. Dentre outros, diz que a igreja de Tessalônica era madura e perseverante, apesar de perseguida. Como em todas as demais, os problemas estavam presentes. Mas aqui, temos uma boa igreja com alguns problemas, não uma igreja cheia deles.

O objetivo do Apóstolo ao escrever essas duas cartas é combater a oposição de alguns ao seu ministério e tratar de alguns problemas, como uma expectativa imediatista da volta de Cristo e o comportamento preguiçoso de alguns irmãos. É mole? Havia gente tão preguiçosa em Tessalonicenses que foi preciso um apóstolo de Jesus escrever sobre isso. Esse cara deve estar deitado até hoje...

Esta é uma carta com ensinamentos muito bons, muito mesmo. Ela fala sobre o valor e a necessidade do trabalho, traz uma perspectiva saudável da volta de Cristo e da expectativa que devemos cultivar, trata da predestinação, mostra o exemplo de Paulo em relação à dedicação ministerial paralela ao trabalho comum, enfim. Coisas preciosas e únicas dessa carta, que começamos a ver hoje.

Façamos a leitura juntos. Caso tenha qualquer dúvida ou não entenda algo, manifeste-se à vontade nos comentários. Que o Senhor nos acrescente mais uma vez na nossa leitura.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Cl 4: As últimas e importantes orientações de Paulo

Na reflexão de hoje, nos ateremos aos 6 primeiros versos do capítulo 4, último da carta. Lembrando porém, que o trecho que lemos a partir de 4.1 começou, pelo menos, em 3.17. Há aqui uma relação de orientações diretas e práticas a grupos específicos. Mulheres, maridos, filhos, pais, servos e, já no capítulo 4, também aos senhores (de escravos). Os versos 3.16-17 nos orientam a termos a Palavra de Deus habitando ricamente em nós, de forma que todas as nossas ações sejam pelo Senhor. E este texto não é interrompido no final do capítulo, mas entende-se ao trecho que tratamos aqui.

Se resumirmos as últimas orientações de Paulo nesta carta, teremos o seguinte norte:

1 - Todos temos que prestar contas a Deus, portanto devemos agir com temor. Uma grande diferença entre o cristão e o não-cristão é que o primeiro sabe que precisa prestar contas no final de tudo. E as orientações para agirmos com temor abordam de pais a filhos, de senhores a servos. Todos, sem exceção, compareceremos diante do tribunal de Deus. Alguns, para receberem sua sentença. Outros, dos quais espero que façamos parte, sua recompensa. Que vivamos com temor!

2 - Os colossenses deveriam orar por Paulo, seu líder e referencial, para que tudo corresse bem com o seu ministério, e ele tivesse oportunidade de anunciar a Cristo independente de suas cadeias. Antes disso ainda, deveriam ser persistentes na oração de forma geral. Não orar pelo nosso pastor é um erro grosseiro. Através dele, somos ensinados e direcionados. Compartilhamos do tempo que ele investe em nós, muitas vezes ao custo de seu próprio conforto e tempo com a família. E não lhe dedicamos orações? Você pode ter algum tipo de problema com o seu pastor. Mas nunca deixe de orar por ele. Nessas orações, o Senhor pode trabalhar em seu coração para que a situação não-ideal seja mudada. Pode depender de você!

3 - A terceira e última direção dada por Paulo é sobre a nossa postura com os que não conhecem a Cristo. E a postura recomendada pelo Apóstolo sempre foi chocante para mim. Ou melhor, a forma como agimos contrariamente ao que ele recomenda, me choca. Nem Jesus, nem Paulo ou qualquer dos apóstolos, olhava com ar de superioridade ou de desprezo para os não-cristãos. Eles não os julgavam, pelo contrário. Paulo diz que se fazia de tudo para com todos, para que pudesse ganhar alguns. Os não-cristãos são a razão do nosso trabalho para o Senhor.

A recomendação de Paulo é que tenhamos sabedoria parar lidar com os que não conhecem a Cristo e ainda que tenhamos sempre uma boa palavra, temperada com sal, como ele diz.

Devemos nos lembrar que essa é uma das últimas cartas do Apóstolo, sendo presente no último conjunto de cartas que ele escreveu a igrejas (junto com Filipenses, Efésios e Filemon). Depois dessas, ele escreve as duas à Timóteo, uma à Tito, e seu próximo passoo é a libertação da segunda prisão em Roma, mas para a morte.

A carta aos de Colossos se encerra no mesmo tom pessoal que a dominou. Um líder amigo escrevendo para amigos com quem se preocupa e recomendando-os a andarem na verdade. E com ênfase na última parte, que entendo normalmente que tem uma importância especial, ele diz que devemos ter consciência de que temos que prestar contas a Deus, agindo coerentemente com isso; orarmos perseverantemente, inclusive por ele mesmo e que devemos pregar o evangelho sabiamente.

Essas orientações são atemporais. Não serviram apenas aos Colossenses, mas são vivas para nós hoje. Tenhamos uma vida de comunhão com o Senhor, que seja cheia de temor e de frutos. Que Deus nos ajude!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Cl 3: Pecadinho, pecadão. Duas pedras, um só tropeço

Como disse no primeiro post sobre esta carta, os dois últimos capítulos são destinados à parte prática do que Paulo está dizendo aos colossenses. Depois de dizer no que eles deveriam acreditar, agora eles aprendem sobre como devem se comportar. Não se trata de um conjunto de normas e regras, pois assim o próprio autor entraria em contradição com o que fora dito no capítulo anterior. Mas sim um conjunto de princípios que, se observados, beneficiarão ao próprio praticante deles.

No início do capítulo 3 vemos Paulo fazer uma distinção interessante entre dois grupos de pecados. De maneira geral, podemos entender que ele fala sobre pecados que cometíamos e que nos dominavam antes de conhecermos a Cristo e, num segundo grupo, pecados que nos assolam ainda hoje, na nossa caminhada cristã.

O Apóstolo está dizendo que devemos dar atenção às coisas espirituais, "de cima", como ele diz, não nas materiais, terrenas. E desenvolve isso falando sobre esses dois grupos de pecados, cuja resistência a eles deve fazer parte da nossa espiritualidade.

Reparem que o primeiro grupo, composto pela prostituição, impureza, paixão, vil concupiscência, avareza, está falando de pecados graves que, via de regra, todo cristão tem consciência de que eles não devem ser praticados de maneira alguma. Não há dúvida sobre isso, pois a incoerência de sua prática aliada à vida cristã é óbvia. Já o segundo grupo, essa relação não é tão clara. Ao menos, a prática da maioria não nos deixa crer assim.

Trata-se de pecados que muitas vezes deixamos que passem desapercebidos. Você já ficou extremamente irado no trânsito (sou o primeiro a apanhar dessa...)? Já teve desejo de retribuir o mal que alguém lhe fez na mesma moeda ou já retribuiu assim? Fala ou já falou, depois de conhecer a Cristo, mal de alguém, ou palavrões e/ou um vocabulário inconveniente tem feito parte da sua fala? E a mentira, mesmo aquela pequena, disfarçada de omissão, às vezes?

Pois bem, a lista composta pela ira, cólera, malícia, maledicência, palavras torpes e mentira, trata-se de erros que são considerados, muitas vezes, menos graves. E pensar assim reflete uma concepção de cristianismo tão cheia de erros, que fica até difícil começar a relacioná-los. Primeiramente, se fazemos distinção entre erros graves e menos graves, ou até aceitáveis, estamos sendo juízes e moralistas. Juízes, pois se assim penso, posso considerar que aquele erro de desonestidade do fulano é muito mais grave que a "mentirinha" do ciclano. E moralistas, pois criamos um padrão moral próprio, que não considera a santidade de Deus como padrão para nossa postura, mas sim nosso conceito sobre o que é mais ou menos reprovável.

É comum que nas nossas vidas as portas para o primeiro grupo de pecados, principalmente, esteja fechada. Isso porque de fato reconhecemos que os que neles andam são aqueles que não conhecem a Cristo. Mas, não observando o segundo grupo, temos um cuidado seletivo do nosso comportamento que mais revela a intenção de demonstrar algo do que a de ser alguém. O que parece é que agindo assim, mais me é importante mostrar claramente que sou cristão do que sê-lo.

O povo de Israel cometeu um erro tão bobo em certa ocasião e esse nos serve de exemplo aqui. O Senhor havia prometido a melhor terra do oriente aos israelitas. Para conquistá-la, porém, eles precisavam derrotar os moradores de Jericó. E essa era uma cidade guardada por um muro forte e enorme, que também contava com um bom e numeroso exército, bem mais poderoso do que Israel. Porém, eles buscaram a Deus e o Senhor deu a estratégia para Jericó fosse derrotada. Foi uma grande vitória para aquele povo nômade, que agora conquistava seu espaço.

Numa segunda ocasião, porém, subsequente, o povo precisou lutar contra a cidade de Ai, um povo bem menor e menos poderoso que eles. A fala de Josué foi que fossem enviados poucos homens, pois já era uma batalha ganha. Vão 3 mil homens a Ai, que voltam derrotados. Havia sido cometido, por um único homem em Israel, Acã, um pecado simples: ele tomou para si alguns bens dos despojos de Jericó. Mas o Senhor havia ordenado que tal não fosse feito, então isso tornou-se um sério problema.

Josué ora a Deus, então, o que não havia feito antes, descobre e sana o erro. Então o Senhor orienta-o a ir contra Ai com trinta mil homens, não com os 3 mil iniciais. E dá a estratégia correta para dominar a cidade. Aquele desafio que parecia pequeno, tornou-se um sério tropeço. Israel derrotou Jericó sem maiores dificuldades, pois o Senhor os direcionou. Mas perdeu a batalha contra Ai, pois a considerou fácil e desprezou a orientação do Senhor. Toda essa história está em Josué 6-8.

Assim corremos o risco de fazer. Fechar as portas da nossa vida para os pecados que consideramos graves, e vencê-los de fato, mas deixarmos as portas abertas para os erros menores, "aceitáveis", como a fofoca, a mentirinha, algumas pequenas desonestidades, a manutenção da aparência no lugar da espiritualidade sincera, etc. Como diz o texto de Colossenses, devemos fazer morrer a nossa natureza carnal, estando aí incluídas as duas listas de pecados e tudo o mais que dela faz parte.

Que nós alcancemos uma santidade verdadeira, que mantém além do que pode ser visto. Que sejamos aprovados diante dos dois olhares que mais vêm nossa prática: o de Deus, onisciente e zeloso, que se preocupa conosco, e o da nossa consciência. Se nos preocuparmos em manter a santidade e não só a aparência, teremos sucesso na nossa busca.