segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Fp 1: O por quê do sofrimento determina sua intensidade

Não disse isso na introdução à carta aos Filipenses, mas esta é a carta mais pessoal que Paulo escreveu. Nenhuma outra possui tantos dizeres na primeira pessoa pessoa do singular; é o texto no qual o Apóstolo mais fala de si e de seu ministério, por um lado mais pessoal. Um dos assuntos dos quais ele trata é a sua prisão, vivida naquele momento em Roma (isso eu disse na introdução). Falando sobre ela, um trecho de seu texto diz:

"E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram têm antes contribuído para o progresso do evangelho; de modo que se tem tornado manifesto a toda a guarda pretoriana e a todos os demais, que é por Cristo que estou em prisões; também a maior parte dos irmãos no Senhor, animados pelas minhas prisões, são muito mais corajosos para falar sem temor a palavra de Deus."
(1.12-14)

Paulo estava preso, acorrentado. Havia apanhado um bom bocado e estava agora com seu potencial limitado, devido às cadeias. Será? 

O que vemos em seu testemunho é que mesmo preso e até por causa disso, o evangelho de Cristo estava sendo pregado. Não chega a ser engraçado, num certo sentido, Paulo dizer que toda a guarda pretoriana (a  guarda oficial do Imperador) ouvia o Evangelho? É um extremo, que revela qual era de fato a prioridade de Paulo: pregar o evangelho. A qualquer preço. Sua prisão não era nada, perto dos benefícios que proporcionava para o reino de Deus. Afinal, ele importava mais do que as vontades pessoais ou o conforto de Paulo.

Você já passou algumas noites em claro, ou dormindo numa cadeira desconfortável de hospital, por causa de algum querido que estava internado? Ou já teve que viajar de madrugada, cansado, para chegar à casa de algum familiar, quando algo ruim aconteceu e sua presença se fez urgentemente necessária? Comparo o sentimento de Paulo nesse momento com o que temos nas situações acima. A noite em claro se torna o menor de nossos problemas, pois a saúde de quem amamos é uma causa maior do que nosso conforto. A viagem longa e exaustiva não é tão pesada, pois temos uma preocupação mais importante em mente.

Por outro lado, já ficou uma noite acordado sem uma razão justificável? Por simples insônia, por exemplo? Ou já teve que fazer uma viagem longa e desagradável, para um fim que não desejou? Nesses casos, o peso é maior. E é assim que o sofrimento se nos apresenta quando não encontra justificativa suficiente para existir. No caso do Apóstolo, o problema dos gentios que não haviam ainda ouvido falar do evangelho era muito maior do que as consequências que ele sofria por isso. Apesar de ter a morte como lucro, por trazer de imediato o encontro com Cristo, caso sua vida difícil gerasse mais fruto para o Senhor, ela era preferível (1.21-26).

O sofrimento de Paulo chegava a ser bem vindo, mas por que ele sofria por uma causa, e uma causa justa. Se sofremos por qualquer motivo egoísta, por algum objetivo indigno, insuficiente, efêmero que não valha a pena, a dor causa mais dano do que se fosse por uma causa vitalmente almejada. Portanto, se quisermos ter as nossas preocupações, ansiedades e outras mazelas pessoais direcionadas apenas ao que vale a pena - e sendo por isso aliviadas - devemos rever nossas prioridades e objetivos. Se nosso maior objetivo de vida for cumprir a vontade de Deus, as adversidades originadas nesse propósito serão suportáveis e, talvez, como no caso do Apóstolo, até bem-vindas.

Vivamos bem uma vida que valha a pena. Vivamos intensamente uma vida pelo Senhor. Como disse o próprio Paulo noutro texto, "Ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou" (II Co 5.15).

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