terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Cl 2: Cristianismo: não toque, não prove, não use, não faça (??)

Antes de me converter ao cristianismo evangélico, tinha como um dos maiores problemas dessa religião, no meu conceito, o conjunto de regras que a acompanhava. Sequer tinha coragem de dar ouvidos à sua mensagem como um todo, pois essa especificidade era suficiente para manter-me afastado dela definitivamente. A única coisa que tinha certeza era a de que "os crentes" não podiam beber, fumar, nem se relacionar com ninguém que não fosse já beirando o casamento... Apesar de nunca ter gostado de bebida ou de cigarro, e também de não ter pegado quase ninguém, isso era um impedimento para mim. Vá entender...

Mas então o Senhor se apresentou para mim. Me lembro claramente daquele culto de oração, no qual eu estava totalmente perdido por não saber orar. Tinha ido parar ali, pela segunda vez na Igreja Bat. Getsêmani, pensando que naquele dia teríamos os grupos da União de Adolescentes, que eu havia conhecido uma semana antes e me apaixonado por aquele formato. Voltei porque gostei, mas caí numa reunião estranha onde todos falavam ao mesmo tempo e se expressavam de formas bem diferentes às que eu estava acostumado a ver - e até a tolerar.

Naquele dia, o que me chamou a atenção foi algo inesperado, diferente do que eu poderia estar buscando ali. Cheguei à igreja por convite de um colega. Gostei, voltei buscando o contato tão gostoso que havia tido com aquelas pessoas tão simples, bonitas e gentis que havia visto na semana anterior. Mas fui surpreendido por um confronto, sim, mas aquelas regras que eu imaginara, estranhamente, sequer foram lembradas naquele dia. Só sabia que, a despeito de tantos erros meus que fui capaz de enxergar naquele momento, havia uma aceitação incondicional por parte do Deus que falava ao meu íntimo ali.

E o que me mantém há 12 anos nesse caminho? Justamente a graça e a liberdade que há em Cristo. De lá pra cá, tornei-me mais crítico. Estudei e li muito mais do que havia feito até então, inclusive mais intensamente do que havia feito até ali. E hoje, convicto de que não me deixaria aprisionar por nenhum conjunto de regras, por qualquer religiosidade falsa, por nada que me pareça incoerente, continuo com Cristo cada vez mais intensamente.

Escrevi tudo isso para agora entrar no texto de Colossenses 2. Em sua prevenção às doutrinas falsas que assolavam os irmãos daquela cidade, Paulo diz:

"Se estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos sujeitais ainda a ordenanças, como se vivêsseis no mundo, como: não toques, não proves, não manuseies? Todas essas coisas estão fadadas ao desaparecimento pelo uso, porque são baseadas em preceitos e ensinamentos dos homens. Têm na verdade, aparência de sabedoria, em culto voluntário, humildade não fingida, e severidade para com o corpo, mas não têm valor algum contra a satisfação da carne."
Col 2.20-23

Como essa mentalidade legalista, arbitrária e vazia prejudica a compreensão do evangelho de Cristo. Eu mesmo criei barreiras contra o cristianismo por causa dela. E a própria Bíblia condena tal vertente de religião, como dito no texto acima. Pode parecer que agir assim e de tal forma nos traz algum benefício ou alimenta a espiritualidade, mas como Paulo diz: não tem valor algum para a mortificação da carne, que é o que fortalece de fato nossa espiritualidade.

A prática religiosa válida e verdadeira, proveitosa, agradável a Deus e que alcança graça à vista dos de fora? É baseada na graça de Deus, não nos nossos atos. Traz a mensagem de um Deus justo e amoroso, não só um dos dois, muito menos um Deus justo aos nossos olhos julgadores, ele é justo por si só e sua justiça está e estará manifesta em Cristo. O cristianismo verdadeiro, graças a Deus, é irresistível. Não dá para compreender de fato a mensagem do evangelho e não abraçá-la. Daí o peso da responsabilidade daqueles que chamam qualquer coisa de cristianismo verdadeiro, pois mais afastam os outros de Deus do que os atraem.

Vivamos uma religião que valha a pena. Que traz a liberdade do pecado e também do legalismo, pois este úlltimo anula a graça. Se Deus se agrada de mim pelo o que faço ou não, onde entra o sacrifício de Cristo por mim? Se torna nulo, pois eu mesmo conquisto meus méritos. Compreendamos o evangelho com fidelidade e assim o espalhemos.

Graças a Deus por sua bela e perfeita Palavra e irresistível graça.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Cl 1: Avaliando nosso crescimento espiritual

Paulo começa sua carta da maneira tradicional, identificando-se a à Timóteo, que com ele está e escreve e cumprimentando os irmãos com a paz do Senhor. Os elogia por sua fé e amor que têm para com os irmãos e ainda elogia Epafras, pastor deles. Em seguida, o Apóstolo escreve seus desejos para com os colossenses através de uma oração (1.9-14). Nela, identificamos aspectos relevantes para o nosso crescimento espiritual, pois está expresso ali o desejo de Paulo para a espiritualidade de seus destinatários.

Para vermos de forma completa e objetiva, abaixo seguem, de forma sistemática, cada ponto abordado pelo autor. A partir deles, temos condições de colocar nossa espiritualidade na balança e ter uma visão de nosso crescimento a partir do olhar de Paulo. Vejamos:

1 - Precisamos ser cheios do conhecimento da vontade de Deus, com sabedoria e discernimento espiritual (9).

Se conhecemos a vontade de Deus, andamos seguros. Se a temos conhecido diariamente, nossa vida então tem caminhado a bons passos para um destino certo. Caso contrário, dúvidas e falta de perspectiva certa nos dominam. Para nosso crescimento, não podemos negociar o conhecer o plano de Deus para nossa vida.

E isso, como associa Paulo, está ligado à paciência e ao discernimento espiritual. Não podemos deixar de ser pacientes, perseverantes, nem podemos abrir mão de uma boa visão espiritual. Por negligenciarmos certas verdades espirituais, podemos ser capazes de fechar as grandes portas da nossa vida para o pecado, como para o adultério, a desonestidade no trabalho, a falta de ética nos negócios, etc. Mas podemos, numa outra mão, abrir pequenas e aparentemente inofensivas portas, assistindo a programas que promovem práticas inconvenientes a cristãos, por exemplo, e que pouco a pouco vão alimentando o pecado em nós. Não podemos nos dar ao luxo de sermos ingênuos espirituais. Nosso crescimento também depende disso.

2 - Andar em conformidade com o caráter de Deus, agradando-o e frutificando (10).

Como ser um cristão mediocre, que não cresce espiritualmente e tem um testemunho ineficaz? Andando segundo a própria vontade e não atentando para o caráter de Deus, nosso norte moral. O Salmo 115 diz que aquele que adora a imagens torna-se como elas: têm olhos mas não enxergam, ouvidos mas não ouvem, boca mas não falam. Nos tornamos semelhantes àquilo (ou à quem) adoramos, veneramos, cultuamos, nos espelhamos. Se o Senhor é santo, justo e bom, devemos a cada dia ser mais parecidos com ele. Negligenciar o seu caráter santo é fadar a vida cristã à mediocridade. E se nos espelharmos mesmo nele, estaremos agradando-o e prontos para dar frutos. E como diz Jo 15, aquele que dá fruto o pai cuida, para que dê ainda mais.

3 - Crescer no conhecimento de Deus (10).

Sempre me surpreenderá a capacidade de muitos de se denominarem cristãos, mas negligenciarem a Bíblia como necessidade básica para o desenvolvimento da fé e do conhecimento de Deus. Não se conhece a Deus somente pela oração ou indo à igreja. Tudo isso é indispensável, mas aliado à uma vida devocional verdadeira, que preza pela oração, leitura bíblica e prática cristã. Fazendo isso, conheceremos a Deus diariamente. O contrário é cultivar uma religião.

4 - Ser fortalecidos na paciência e na longanimidade (11).

A paciência é uma virtude fundamental da fé. Deus é perfeito e sabe o que é melhor para nós, sabendo inclusive quando algo é de fato bom para nós. E sermos pacientes é necessário, pois o que esperamos em determinado momento pode ser bom para nós somente daí a algum tempo. Precisamos ser pacientes e ainda longânimos, ou seja, tolerantes, generosos, não-alheios às dificuldades dos irmãos. E dá-lhe crescimento para nós, observando tudo isso...

5 - Sendo gratos (12).

Como o texto diz, Deus nos transportou para o reino de Cristo, libertou-nos das trevas dos nossos pecados e nos redimiu no seu sangue. Como não ser grato? Expressar nossa gratidão ao Senhor em nossas orações e também na prática, nos fará lembrar sempre de onde viemos, onde estamos e qual o nosso destino certo.

Seguindo estes passos, cresceremos de forma relevante. Reparem que 2 pontos são bem semelhantes: precisamos conhecer constantemente a Deus e à sua vontade. E para isso, precisamos desenvolver nosso relacionamento com Deus e com sua Palavra. Que Deus nos ajude a observar cada ponto necessário para o nosso crescimento e de forma natural. Afinal, é o Espírito Santo quem trabalha essas necessidades em nós, renovando-nos e conduzindo-nos à boa, perfeita e agradável vontade Deus.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Paulo aos Colossenses: Defendendo a fé da melhor maneira

Paulo escreve esta carta à igreja que ficava na cidade de Colossos, uma importante cidade em sua época. Sua localização coincide hoje com a região centro-sul da Turquia. A cidade ficava na encruzilhada principal da estrada que saía de Éfeso e rumava para o leste. Éfeso era a capital da Província da Ásia, importante centro comercial. Sendo assim, Colossos crescia à sua sombra.

A data de escrita da carta coincide com a da carta aos Efésios. Paulo fora informado por Epafras, um irmão líder da igreja em Colossos, sobre a situação deles. Paulo, preso em Roma por volta do ano 60-62, escreve a Carta aos Colossenses, aos Efésios e aínda uma terceira carta à igreja de Laodicéia. Na mesma época ainda foram compostas as cartas aos Filipenses e à Filemon.

Seu maior objetivo ao escrever estas cartas é combater as ameaças doutrinárias das quais Epafras o informou. Não temos dados suficientes para classificar qual tipo de heresia de fato formou-se ali, mas sabemos que ela tinha características legalistas (só pra variar), agredia a centralidade de Jesus e também cultuava anjos, além de pregar o desapego aos prazeres de forma extrema, o ascetismo.

Epafras, correspondente de Paulo, ficou preso com ele ao fazer-lhe a visita que o informou sobre essses problemas. Quem conduz esta carta, assim como outras a seu pedido, é Tíquico, um companheiro de Paulo em sua terceira viagem missionária. Tíquico tornou-se bispo em alguma igreja na Ásia Menor ou na Itália, possivelmente em Nápole.

A forma como Paulo combate o falso ensino é exemplar. Ele não gasta seus escritos difamando o ensino incorreto. Antes, mostra como de fato é o evangelho de Cristo. Concordemos que fazer apologética expondo a verdade é muito mais sadio e agradável do que denegrir a mentira, não é mesmo? Paulo fez assim. O tom simples e prático de sua carta deixa isso claro. Ela consiste basicamente em dois blocos, sendo que no primeiro, de dois capítulos, é dito em que se deve acreditar e nos últimos dois, como se deve agir.

Seguíssemos o exemplo de Paulo e nossa pregação seria muito mais eficaz! De certa forma, não precisamos conhecer todas as religiões cabalmente. Mas precisamos conhecer a Cristo e à sua doutrina. Se você souber o que a Bíblia diz sobre a morte, o juízo, nossa condição essencial diante de Deus e a graça, por exemplo, na primeira vez em que você se deparar com a doutrina da encarnação ela não lhe será problema. Ainda que nunca tenha ouvido falar sobre ela antes, conhecendo os princípios de Cristo e do evangelho, esse ensino biblicamente incoerente é facilmente refutado.

Certa vez ouvi alguém dizer (infelizmente, não me lembro quem) que muitas vezes perdemos tanto tempo e esforço falando sobre o que não acreditamos, que até nos esquecemos do que de fato acreditamos. Quase poderíamos fazer, ao invés de uma tradicional declaração de fé, uma declaração de incredulidade. Mas o exemplo Paulino é outro para nós.

Leiamos esta carta preciosa. Que, assim como o Senhor sempre faz com sua Palavra, que aprendamos e consigamos pôr em prática o que nos é ensinado. Boa leitura e aprendizado para nós!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Fp 4: Vencendo a ansiedade

"Não andeis ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e pela súplica, com ações de graças, sejam as vossas petições conhecidas diante de Deus. E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus".

Muitas vezes já desejei que apenas saber de alguma verdade ou princípio fosse suficiente para colocá-lo em prática. Mas infelizmente não é assim. É como o próprio Paulo falou sobre o pecado em Romanos cap. 7, que o bem que gostaria de fazer não era feito, mas o mal que evitava constantemente era praticado. Além de conhecer o que é certo, é preciso ter uma consciência forte o suficiente para gerar razões e motivação para colocarmos algumas verdades em prática.

Assim é com aquilo que normalmente gera nossa ansiedade. Se apenas ler os versos acima nos fosse bastante para não ficarmos ansiosos, o mundo seria um lugar mais tranquilo, no mínimo. Mas precisamos aliar à nossa compreensão e a fé e a determinação para seguirmos a orientação do Senhor e vivermos melhor. Afinal, é o único fim dessa orientação de Fp 4.6-7: através da nossa fé em Cristo, não andarmos como quem não conhece a Deus, cheio de preocupações e ansiedades, sendo oprimidos por suas questões cotidianas. Podemos confiar em Deus, apresentar a ele nossas necessidades e vivermos tranquilamente.

A fórmula dada pelo texto, de orar, suplicar e agradecer, nos convida a entregarmos nas mãos de Deus nossas questões através da simples oração, primeiramente; suplicar, orar com fervor e vontade, num segundo momento e crer que seremos atendidos, sendo já gratos a Deus. E a consequência disso é aquilo que considero um dos versos mais consoladores da Bíblia: a paz de Deus, que está além de todo entendimento, de toda razão, de toda explicação racional.

Essa paz, consequência da fé e da entrega das nossas preocupações ao Senhor, não é passível de ser racionalizada. Ela é de fato inexplicável. A situação à nossa volta pode ser totalmente desfavorável para nós, mas ainda assim o Senhor coloca em nosso coração descanso. Lembremo-nos de Davi escrevendo o Salmo 23. Quando ele diz que o Senhor é o seu pastor, o que não lhe deixa faltar nada, e que ele o faz deitar em pastos verdes, guiando sua alma à águas tranquilas, está falando de uma paz que excede a razão. Lembra-se de quem foi Davi? Um rei que comandou durante muito tempo o exército de seu país nas duras batalhas de guerra. E queremos pensar que Davi tinha uma vida sossegada, a ponto de dizer que vivia como se estivesse deitado numa linda e verde grama, ouvindo o som de águas refrescantes?

Se o nosso coração for apascentado pelo Senhor e se confiarmos nas suas mãos as razões das nossas ansiedades, viveremos com Davi. Ainda que com guerras e tribulações ao nosso redor, viveremos em paz. Pois a paz que Deus nos dá não depende do contexto, mas de como lidamos com ele.

Graças a Deus, que nos dá descanso em tempos difíceis!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Fp 3: Os cães, os maus obreiros e os legalistas

Terceiro capítulo de Filipenses. E aqui, o Apóstolo amigo de seus destinatários lhes faz uma advertência contra três grupos de pessoas, que ele classifica como cães, maus obreiros e os da "falsa circuncisão". Devido à advertência específica contra o legalismo presente no mérito dos que se gloriavam por terem a circuncisão na carne, conclui-se que o último grupo refere-se a um grupo legalista.

Devemos ser extremamente cautelosos com esses três grupos, pela orientação de Paulo. E cada um por uma razão específica. O primeiro grupo, dos "cães", é composto por homens de coração maligno, que fecharam seus ouvidos e entendimento para o evangelho. O próprio Jesus usou o mesmo tratamento para estes sujeitos, no sermão do monte (Mt 7.6). Ele disse para não jogarmos pérolas aos porcos ou darmos aos cães as coisas santas, referindo-se à pregação do evangelho. Há um grupo de pessoas com o coração tão fechado, que a orientação do Senhor é para que não lhe preguemos o evangelho. Parece muito duro, mas é assim mesmo.

O segundo grupo surpreende já pela sua existência. Existem obreiros, pessoas que estão dentro da igreja mas que possuem um coração maligno, e devem ser evitados. Considero que o pior tipo de pessoa para se conviver é alguém que se passa por religioso, ou o é apenas no discurso. Esses aparentam piedade, devoção e sinceridade; entendem ou deixam entender que possuem a verdade na sua prática, estando muitas vezes certos disso, mas estão mais perdidos que qualquer outro pecador não religioso. Muitos desse grupo usam a religião para alcançar seus objetivos egoístas. Se há uma forma de garantir a perdição é perder-se pensando estar achado. E um falso religioso cai nesse sério e contagioso engano.

O terceiro grupo, a quem Paulo dedica a maior parte do capítulo, assemelha-se ao segundo. São pessoas que pensam ser dignas de algum mérito diante de Deus através de suas obras. Se foram circuncidados, marcaram um ponto. Se praticaram boas obras, outro. E assim, mérito por mérito, esforço por esforço, boa obra por boa obra, anulam a cruz de Cristo. A graça presente no evangelho é justamente pelo fato de não merecermos o que nos é oferecido. Se nos achamos capazes de tornarmo-nos dignos de algo diante de Deus, estamos dizendo que o sacrifício de Jesus foi desnecessário. E não queremos cometer tal erro grosseiro.

Dois de três grupos de pessoas com as quais devemos ser cautelosos são religiosos. Isso deve nos advertir e provocar uma reflexão pessoal. Será que em algum ponto nos assemelhamos com qualquer deles? Ao fazermos algo bom, como por exemplo prestar assistência social ou evangelizar alguém, pensamos que temos crédito com Deus e logo nos sentimos confiantes o suficiente para lhe pedir algo? Ou temos sustentado uma imagem religiosa, mas nosso coração está voltado para os benefícios que essa imagem pode nos oferecer em vida? Se em qualquer desses erros, temos sido achados indignos do reino de Deus.

Uma vez que conhecemos a Cristo, devemos nos sujeitar a ele, reconhecendo sua soberania, nossa indignidade, seu senhorio sobre nós e nossa dependência dele. Assim, construiremos uma fé verdadeira e sadia. Caso contrário, corremos o risco de passar do estado de salvação para o perdição, mesmo achando estarmos na luz.

Que o Senhor nos preserve e aumente a fé diariamente. Que nos esforcemos para isso. E, se identificarmos em nosso meio alguém que se encaixa em qualquer dos grupos citados pelo Apóstolo, que tenhamos amor suficiente para orarmos por essas pessoas e lhes prestar ajuda para encontrarem o caminho certo. Mas, como fomos advertidos, com os olhos abertos e atentos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fp 2: Servindo, como Jesus o fez

No segundo capítulo desta carta, Paulo mantém o tom pessoal. No seu final fala da esperança que tem de ainda ver os filipenses, do desejo de receber Timóteo, que lhe levaria notícias daquele povo e ainda justifica ter enviado Epafrodito a Filipos. A sinceridade que dá o tom da carta é bem demonstrada aqui. Paulo escreve mesmo como que a amigos.

O princípio do capítulo contém um dos trechos que mais admiro no Novo Testamento. Se precisarmos de um texto básico para afirmarmos que devemos servir ao próximo e que nossa vida cristã em muito está pautada nesse serviço, o texto de Fp 2.1-11 é perfeitamente cabível. Não irei transcrevê-lo aqui, mas como sempre, escrevo pressupondo que você, amigo leitor, tem seguido a leitura bíblica proposta aqui no blog. Se não for o caso, leia a referência acima e depois termine este texto.

Os versos citados dizem que devemos ter o mesmo modo de pensar, amor e ânimo, vivendo em unidade. E nos orienta a servirmos ao próximo, honrando-o e visando não somente nossos interesses pessoais, mas os interesses dos outros. E a vida de Jesus é o exemplo usado para nós. O texto diz que ele, sendo Deus, não teve isso como algo a que deveria se apegar, mas esvaziou-se da sua glória e obedeceu ao seu propósito até a cruz, em prol da nossa salvação. Jesus abriu mão de si mesmo por nossa causa e nós devemos fazer o mesmo por nossos irmãos.

A orientação bíblica, só para variar, vai na contramão do que estamos acostumados a ver nos contextos mais comuns. Diria que vai na contramão do mundo, mas é fato que em muitas (para não dizer na maioria) das nossas igrejas, a realidade é a mesma, nesse sentido. A maioria busca o que é seu e não se preocupa o mínimo com o próximo. Entre sofrer ou causar um prejuízo, muitos preferem causá-lo. Entre honrar ou ser honrado, o mesmo. E assim vamos vivendo um "cristianismo" que mais está para um conjunto de padrões morais e/ou normas que devemos seguir, mas que não reflete de fato o ensinamento do evangelho e de Cristo.

Não há vida cristã sem serviço. E não há vida cristã sem abrir mão de si mesmo, como Jesus fez nos dando o exemplo. Servir exercita em nós a humildade, essa virtude rara e difícil de ser alcançada. Servir nos disciplina a reconhecer o senhorio de Cristo, pois nos lembramos que ele se fez o menor, mas que foi assim, pelo Pai, feito o maior. O Senhor nos lavou os pés. Serviu-nos à mesa. Morreu em nosso lugar, pois merecíamos a condenação. E o que temos feito pelo nosso irmão?

Se a cruz de Cristo nos traz uma mensagem clara, é a de que nossa vida não deve ser tão preciosa para nós mesmos. A cruz nos diz que a vida de Cristo foi totalmente dada em nosso favor e nos remete à responsabilidade de também entregar a nossa vida por amor dele. E isso faremos através do amor e do serviço àqueles que, assim como nós, são alvos do amor de Deus.

Este é o segundo texto sobre Filipenses. E seu teor me leva a concluí-lo da mesma forma que o primeiro: "Ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou" (II Cor 5.15).

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Fp 1: O por quê do sofrimento determina sua intensidade

Não disse isso na introdução à carta aos Filipenses, mas esta é a carta mais pessoal que Paulo escreveu. Nenhuma outra possui tantos dizeres na primeira pessoa pessoa do singular; é o texto no qual o Apóstolo mais fala de si e de seu ministério, por um lado mais pessoal. Um dos assuntos dos quais ele trata é a sua prisão, vivida naquele momento em Roma (isso eu disse na introdução). Falando sobre ela, um trecho de seu texto diz:

"E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram têm antes contribuído para o progresso do evangelho; de modo que se tem tornado manifesto a toda a guarda pretoriana e a todos os demais, que é por Cristo que estou em prisões; também a maior parte dos irmãos no Senhor, animados pelas minhas prisões, são muito mais corajosos para falar sem temor a palavra de Deus."
(1.12-14)

Paulo estava preso, acorrentado. Havia apanhado um bom bocado e estava agora com seu potencial limitado, devido às cadeias. Será? 

O que vemos em seu testemunho é que mesmo preso e até por causa disso, o evangelho de Cristo estava sendo pregado. Não chega a ser engraçado, num certo sentido, Paulo dizer que toda a guarda pretoriana (a  guarda oficial do Imperador) ouvia o Evangelho? É um extremo, que revela qual era de fato a prioridade de Paulo: pregar o evangelho. A qualquer preço. Sua prisão não era nada, perto dos benefícios que proporcionava para o reino de Deus. Afinal, ele importava mais do que as vontades pessoais ou o conforto de Paulo.

Você já passou algumas noites em claro, ou dormindo numa cadeira desconfortável de hospital, por causa de algum querido que estava internado? Ou já teve que viajar de madrugada, cansado, para chegar à casa de algum familiar, quando algo ruim aconteceu e sua presença se fez urgentemente necessária? Comparo o sentimento de Paulo nesse momento com o que temos nas situações acima. A noite em claro se torna o menor de nossos problemas, pois a saúde de quem amamos é uma causa maior do que nosso conforto. A viagem longa e exaustiva não é tão pesada, pois temos uma preocupação mais importante em mente.

Por outro lado, já ficou uma noite acordado sem uma razão justificável? Por simples insônia, por exemplo? Ou já teve que fazer uma viagem longa e desagradável, para um fim que não desejou? Nesses casos, o peso é maior. E é assim que o sofrimento se nos apresenta quando não encontra justificativa suficiente para existir. No caso do Apóstolo, o problema dos gentios que não haviam ainda ouvido falar do evangelho era muito maior do que as consequências que ele sofria por isso. Apesar de ter a morte como lucro, por trazer de imediato o encontro com Cristo, caso sua vida difícil gerasse mais fruto para o Senhor, ela era preferível (1.21-26).

O sofrimento de Paulo chegava a ser bem vindo, mas por que ele sofria por uma causa, e uma causa justa. Se sofremos por qualquer motivo egoísta, por algum objetivo indigno, insuficiente, efêmero que não valha a pena, a dor causa mais dano do que se fosse por uma causa vitalmente almejada. Portanto, se quisermos ter as nossas preocupações, ansiedades e outras mazelas pessoais direcionadas apenas ao que vale a pena - e sendo por isso aliviadas - devemos rever nossas prioridades e objetivos. Se nosso maior objetivo de vida for cumprir a vontade de Deus, as adversidades originadas nesse propósito serão suportáveis e, talvez, como no caso do Apóstolo, até bem-vindas.

Vivamos bem uma vida que valha a pena. Vivamos intensamente uma vida pelo Senhor. Como disse o próprio Paulo noutro texto, "Ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou" (II Co 5.15).

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Paulo aos Filipenses: Importantes orientações para uma igreja importante

Paulo escrevendo ainda esta carta, à igreja localizada na cidade de Filipos, colônia romana batizada com esse nome por Filipe II, pai de Alexandre, o Grande (em torno de 40 a.C.). A carta foi escrita mais provavelmente em 62, sendo uma das cartas da prisão de Paulo. Nesse ano, ele estava preso em Roma, juntamente com Silas, seu companheiro de ministério.

A igreja em Filipos foi fundada pelo próprio Paulo. O Apóstolo pregara ali o evangelho durante sua segunda viagem missionária. Lembra-se do episódio em que Paulo e Silas são presos e cantam louvores? As cadeias se quebram e eles pregam o evangelho ao carcereiro da prisão (At 16)? Esse episódio se deu em Filipos. Sua prisão foi por expulsar o demônio de uma escrava, o que irritou seus donos, que levantaram perseguição contra ele e os seus. Ser endemoninhado deveria ser direito constitucional naquela época. Da mesma forma que podemos ir e vir, cada um deveria poder ser livre para ter seus demônios... Aff!

Ainda trazendo algumas informações sobre a cidade, ela era importante por pelo menos dois motivos. Primeiro, Filipos era uma colônia romana de prestígio. Seu colonizador, Filipe II, a transformara em colônia para os soldados aposentados, concedendo a todos os direitos de cidadão romano. Ainda por outro motivo, a cidade é importante por carregar consigo um histórico de influência de homens de destaque no contexto do Novo Testamento: Paulo evangelizou na cidade e fundou a igreja, à qual Lucas, o médico, dedicou um bom tempo ao seu cuidado após a partida de Paulo. Posteriormente, Timóteo assume a liderança da igreja. Bons homens passaram por ali e fizeram um bom trabalho.

A mensagem escrita a esse povo é também importantíssima. Mexe conosco saber que Paulo escreveu trechos como 4.4, dizendo ao povo que se alegrasse no Senhor, estando ele amarrado ao tronco numa prisão com seu companheiro de ministério. Paulo trata de cristologia na carta, ao falar da encarnação e volta de Cristo no capítulo 2, ao menos. Combate falsos ensinos (só pra variar) e defende uma vida cristã dedicada e zelosa, contrária à vida descuidada que alguns dali estavam levando. Ainda exorta aos cidadãos orgulhosos da colônia romana que nossa pátria verdadeira é o céu, a eternidade, que é muito mais preciosa que o que eles têm em mãos.

Filipenses merece nossa cuidadosa atenção. Ela carrega trechos que se tornaram básicos do Novo Testamento, como a exortação à alegria e a declaração sobre a encarnação e volta de Cristo. Além de nos ensinar ainda sobre humildade, a importância de os pastores darem atenção pessoal às suas igrejas, amor ao próximo, etc.

Nos próximos quatro dias meditaremos nos textos desta carta. Aproveito para abrir um parênteses e fazer um incentivo: geralmente, estou dedicando o primeiro dia de leitura de cada livro a trazer essas informações que nos ajudam a entender melhor a carta. E, sempre que escrevendo aqui, ao menos uns 3 livros acompanham a leitura do texto, para ajudar na coerência do que é comentado. Motivo você a dedicar um tempo de estudo das Escrituras em sua leitura, não apenas fazer uma leitura do texto sem saber o que o rodeia, mas compreendê-lo por completo. Isso trará maior fidelidade ao nosso entendimento e também edificação para nós.

Leiamos e aprendamos com Paulo e os Filipenses. Que o Senhor nos acrescente, como sempre tem feito.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Ef. 6: A armadura de Deus

Texto publicado originalmente em 13/02/2008.


Outra noite estive pensando sobre a Armadura de Deus, sobre a qual o Senhor nos fala através do Apóstolo Paulo em Efésios 6:10:17. Lembrei-me de quantas vezes já ouvi pregadores levando os irmãos a orarem, vestindo-se com a Armadura de Deus. “Coloque agora, pela fé, o capacete da salvação!”. Como se a orientação do Apóstolo fosse para realizarmos diariamente este ritual (e há quem o faça), para nos protegermos do Diabo.


Se fosse dessa forma, essa seria uma prática muito destoante do restante do Novo Testamento. Não vemos nenhuma orientação da parte do Senhor sobre nenhum ritual, com exceção de dois bem específicos, que carregam em si símbolos, não místicas. São a ceia do Senhor e o batismo. O primeiro, fala da presença de Cristo conosco e da esperança de sua volta, e o segundo é um símbolo da transformação que ocorreu conosco internamente, sendo manifestado externamente.

Vejo que o que o Senhor quer de nós neste sentido é muito mais simples e nobre, mais válido que praticarmos matinalmente esta "reza". Você consegue se imaginar tendo, em um dia, posse do capacete da salvação e da Espada do Espírito, e acordar no dia posterior sem a salvação e as bênçãos do conhecimento e da observância da Palavra? Seria possível estar com os lombos cingidos com a verdade hoje, e amanhã ser um mentiroso? Vestir a couraça da justiça, praticando o que é correto e depois tornar-se injusto sem motivo algum? Estar em um dia pronto para anunciar o Evangelho por onde for e se acovardar depois? Ser resistente a Satanás num momento, com o escudo da fé, e estar desprotegido em outro, sem nenhum motivo? Não, amigos!

Devemos ouvir tudo, como nos orienta a Palavra de Deus, e reter o que é bom. Muito do que tem chegado para nós da Teologia da Batalha Espiritual e da Teologia da Prosperidade deve ser muito bem filtrado. É claro que a orientação de Deus para nós sobre a sua armadura diz respeito a resistirmos ao Diabo sendo cristãos verdadeiros, não dando espaço para a sua atuação em nossas vidas. Ou pensaremos que praticar a justiça, ser autêntico, pregar o evangelho, ter a certeza da salvação, ser cheio do Espírito Santo e conhecer e obedecer a Palavra de Deus é uma necessidade só daqueles que “batalham espiritualmente”?

É claro que todos nós batalhamos espiritualmente. Não só aqueles que dizem expulsar demônios, desfazerem trabalhos, chutarem macumbas, etc. E todos nós enfrentamos o “dia mau”. O revestimento da armadura de Deus é uma característica de cada cristão verdadeiro. Nenhum de nós pode dar-se ao luxo de abrir mão de qualquer daquelas peças, fundamentais para um viver cristão genuíno. Ninguém pode vestir a couraça da justiça e troca-la pelos trapos do engano a qualquer momento. E o mesmo com as outras partes da armadura. Cristo ordena que sejamos vigilantes (I Pe 5:8), perseverantes (Ef 6:18), constantes (Ap 3:15-16). Faça das características de um soldado, como o da metáfora que Paulo usou para os Efésios, parte indissociável da sua vida cristã.

Sejamos cristãos autênticos, revestidos com toda a armadura de Deus, cheios da autoridade que o Senhor nos garantiu, e que o próprio Senhor nos dê sabedoria e discernimento para ler e ouvir a sua Palavra.
Que Deus nos fortaleça, em nome de Jesus.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Ef 5.1-17: Orientações para a prática cristã ideal

O texto que vimos no último devocional, Ef 4.17-32, é a primeira parte de duas que tratam do mesmo tema: a postura ideal para a prática cristã. A segunda parte é o texto que trabalhamos hoje, de 5.1-17. Trata-se de um dos textos mais práticos do Apóstolo Paulo, onde ele dá instruções diretas como devemos nos portar em relação a muitas práticas que muitos têm por comum, mas que nãos nos são ideais.

O verso 5.8 é um dos centrais dessa segunda parte, e diz: "(...) outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Andai como filhos da luz (...)". A orientação para termos uma vida cristã coerente é tema chave desse texto. E tal orientação é de fato cabível e coerente, pois muitos Efésios estavam adotando um cristianismo muito liberal, que aceitava práticas mundanas em sua prática. E é também coerente com o nosso tempo, pois sabemos que muitos agem da mesma forma em nosso meio.

Há algum tempo conheci um rapaz que desejava ministrar louvor na igreja. E fez o que podia para provar sua aptidão a tal tarefa. Se suas motivações eram sinceras ou não, ficarão livres de meu julgamento. Mas, depois de algum tempo, quando já estava quase assumindo a responsabilidade que almejara, começou a relacionar-se com uma moça de outra cidade, que passou a morar em sua casa e os dois passaram a ter uma vida conjugal informal. Sua intenção de ministrar, porém, permaneceu inabalável. Por algum motivo estranho, ele achava que poderia continuar com sua prática, desde que assumida e confessada, e ter uma vida dedicada a Deus e à sua obra.

O Senhor conta conosco. Mas conta conosco puros. Como o texto de Efésios diz, devemos andar na luz. Não  deve haver nada em nossa vida que não possa ser iluminado, exposto, pois caso o seja, manifestará incoerência entre nossa confissão e prática. A prostituição, impureza, cobiça, torpeza, conversas fúteis e maldosas, devassidão, avareza, são atitudes listadas por este texto de Paulo que devem permanecer longe de nós. Não podemos servir a dois senhores, como bem nos diz Mt 6.24. Naquele texto, os dois senhores são o Senhor e as riquezas. Mas sabemos que não importa quem seja o segundo senhor. Pode ser nossos prazeres, bens materiais, algum relacionamento. Qualquer coisa que venha a competir com uma dedicação integral, pura, verdadeira e exclusiva a Deus, ao Senhor Jesus, da nossa parte.

Se decidimos ser cristãos verdadeiros, nossa decisão inclui entregar a Deus o senhorio da nossa vida. Quem manda em nós, a partir de agora, é o Senhor, e é a sua vontade e agrado que buscamos, como o servo, o escravo faz ao seu dono. E seremos capazes, pelo seu Espírito Santo, de praticarmos aquilo a que ele nos orienta. Sendo cheios do Espírito Santo (5.18), conseguiremos viver em amor (5.1-7); agradar a Deus, evitando os  que praticam o mau e as suas obras (5.8-14); viver de forma sábia e coerente com a vontade de Deus (5.15-17) e cultuar a Deus com naturalidade e sinceridade, sendo capazes de nos sujeitarmos uns aos outros (5.19-21).

Entendo que erramos, muitas vezes, por não darmos ouvidos às Escrituras. Vejam como este texto é um exemplo claro de orientações práticas para nós, que podem nos livrar de tantos embaraços até mesmo em nossa vida secular, comum, cotidiana. O Senhor sabe o que é melhor para nós, e ouvi-lo é provar que estamos de fato sob o seu senhorio.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Ef 4.17-32: Cristianismo profundo X religiosidade fútil

O versos 17-32 deste capítulo merecem um destaque diferente. Portanto, uma exceção na rotina de postagem aqui no blog faz com que tenhamos dois textos sobre Ef 4. Neles, Paulo fala sobre a postura que o cristão deve ter a partir de sua conversão, em relação ao seu comportamento moral e nos relacionamentos em geral. Alguns pontos são destacados, como a valorização da verdade dita ao próximo, por sermos "membros uns dos outros"; a recomendação de, ao fica irado, não deixar passar sequer um dia sem que a ira se tenha passado ou resolvido. Dentre outros.

Ao ditar um padrão para nosso comportamento e relacionamento nos termos que faz, Paulo não está impondo uma nova lei ou divulgando um novo conjunto de regras. Antes, os pontos que ele valoriza demonstram que o cristão deve agir de forma respeitosa com o seu próximo (lembrando do que disse o trecho anterior do capítulo), promovendo a autenticidade e a paz nos relacionamentos, além de dever valorizar um comportamento íntegro.

Essas posturas nos conduzem a um cristianismo e uma vida de profundidade, contrários a algumas posturas e comportamentos fúteis. Quando somos incentivados a dizer somente aquilo que é bom para a edificação, por exemplo, no verso 29, e também somente o que for necessário, de forma que beneficie o ouvinte, estamos sendo convidados à profundidade. A futilidade passa longe do que deve ser nosso discurso ideal. Não quer dizer que não teremos em nossas conversas brincadeiras, momentos de descontração, etc. O mesmo verso 29 começa dizendo que não devemos dizer nenhuma palavra torpe, mas antes ter o discurso como exposto acima. Portanto, a relevância do discurso é contraposta à um tipo de fala suja, manchada pelo pecado e por palavras ou temas de baixa moral.

O fato de muitos darem espaço a futilidades que, sutilmente passam a fazer parte do nosso cotidiano, contribui muito para isso. Algumas vezes já disse o quanto não me conformo com alguém que se diz cristão assistir alguns programas como o Pânico na TV, por exemplo. Ter um discurso e uma vida relevantes, livres de uma carga imoral e fútil de referências, é totalmente contrário à postura de abrir espaço para tais influências em nós.  Não estou sendo moralista, basta olhar com um mínimo olhar crítico para o besteirol que compõe o humor desse programa e de outros do gênero. Um humor baixo, que explora e banaliza a sexualidade e a sensualidade, que lança mão de recursos e discursos para o humor que seriam impraticáveis num ambiente familiar e/ou religioso. E quando temos um padrão de relevância como ideal, a não possibilidade do uso desse discurso em família ou num ambiente onde Deus tem o destaque, é um bom padrão de referência.

O texto encerra tendo incentivado, além do supracitado, o trabalho honesto no lugar do roubo que poderia ocorrer anteriormente à conversão; o não-uso da amargura, ira, cólera, gritaria, blasfêmias e malícia; o incentivo à bondade, à compaixão e ao perdão mútuo. Agindo assim, preocupando-nos em sermos pessoas relevantes e fazendo do nosso discurso e prática da mesma forma - por consequência, até, estaremos cultivando um cristianismo verdadeiro e profundo. Mas, se nos dizemos cristãos, mas estamos carregados de todo o contrário ao que foi dito neste capítulo, vivemos uma religiosidade hipócrita e fútil, que ainda está arraigada numa vida antiga, na qual reinava a nossa carnalidade e prazeres. E esses ainda o fazem, ainda que por baixo de uma capa de religião.

Encerro lembrando de um trecho do sermão da montanha, em Mateus 6, no qual Jesus diz que se a luz que há em nós for trevas, quão grande são tais trevas! Se aquilo que há de "religião" na nossa vida for coberto do que não é "religioso", se vivermos uma hipocrisia, referenciando-nos na futilidade, mas tentando passar a aparência de relevância, estamos em trevas dignas de espanto da parte do Senhor. Sejamos verdadeiros, sinceros, profundos e coerentes. Tiremos do nosso meio e cotidiano o que não agrada ao Senhor, o que, como disse o verso 4.30 de Efésios, entristece o Espírito Santo. Agrademos ao Senhor e vivamos um cristianismo que vale a pena.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Ef 4.1-16: Igreja dividida. O que isso nos diz?

O texto referido no título acima detém uma mensagem tão clara, que minha primeira vontade é copiá-lo aqui, comentar em um parágrafo e dizer amém. Realmente te incentivo a lê-lo antes de continuar com esse texto aqui. Será bem melhor.

O trecho lido fala sobre a unidade na igreja. E traz muito conceitos interessantes, que respondem a algumas perguntas do mesmo nível. Por exemplo, se quisermos saber qual deve ser a finalidade de qualquer ministério existente na igreja, podemos recorrer aos versos 4.11-14, que nos dirão que eles devem visar o aperfeiçoamento e a edificação da igreja, promover a unidade da fé e uma unidade no que diz respeito ao conhecimento de Cristo e também o fortalecimento doutrinário. Entendo que algum ministério que não colabore com esses objetivos está apenas "enchendo linguiça".

Assim como em I Co 12, Paulo compara a igreja com um corpo e diz que ela é o corpo de Cristo, do qual ele é cabeça. E os versos 15-16 também nos respondem outra pergunta interessante usando essa metáfora: o que o unidade da igreja gera? Segundo o texto, gera um crescimento bom e sadio, uniforme, como o crescimento de qualquer corpo humano saudável. Uma igreja unida "edifica-se a si mesmo em amor", diz o texto.

E uma igreja desunida? Também respondemos pelo texto o que ela diz e pode gerar em si mesma e para os que com ela estão de alguma forma relacionados. Basta percorrermos os primeiros versos do capítulo (4.1-10) e pensar na lógica contrária à exposta ali. A via principal nos diz que as seguintes posturas/atitudes/qualidades promovem a unidade: humildade, mansidão, bondade, paciência com o próximo, consciência de que Deus é um só e da mesma forma deve ser a fé, assim como é o batismo. Praticando essas coisas, promoveremos cada vez mais a unidade e a autenticidade do nosso relacionamento com Deus em nossas igrejas/comunidades.

Agora, havemos de concordar, que uma igreja dividida nos passa a mensagem contrária às características acima, certo? Se temos um corpo dividido, isso está atestando que no seus membros há: soberba, ira, cólera e/ou falta tolerância, uma fé desigual, cheia de interpretações diversas, não-uniforme. Para termos ainda mais certeza do perigo dessas atitudes, imaginemos alguém com qualquer das posturas acima. Seria agradável conviver ou estar perto dessa pessoa? Pois assim como parece, quem age assim acaba por semear divisão.

Quantas vezes já não presenciamos divisões na igreja porque o ego inflado de alguém ficou ferido? Divisões e brigas por alguma discordância doutrinária? Este último pode justificar realmente alguma revisão de conceitos que passe por um processo difícil, mas não deve levar à divisão, antes deve promover a unidade de doutrina, como dito antes. Quantas vezes já não testemunhamos irmãos ou líderes perseguindo outros por pura vaidade, insegurança, medo? E essas últimas razões da divisão são muitas vezes geradas por uma caminhada cristã medíocre, que mais ostenta a aparência do que a autenticidade. E a cada momento em que a divisão é por elas estimulada, o atestado de mediocridade, mentira e hipocrisia é reforçado.

Uma igreja unida é edificada e cresce de forma sadia. Uma igreja dividida passa uma mensagem egoísta e mundana. A vida na igreja deve ser guiada pela unidade, ela deve ser um alvo duramente perseguido. E é claro que isso envolve custos. Em muitas situações, para que a unidade seja preservada, nossa razão deve ser deixada de lado. Assim como nosso orgulho, preferências, etc. Pensando no crescimento sadio que a unidade da igreja tem potencial para produzir, prefiro sofrer pela unidade a reinar na divisão.

Entendamos, contextualizemos e pratiquemos o que esses versos preciosos nos dizem. E que o Senhor faça de nós, como eu ouvia há muito tempo em uma oração atribuída a São Francisco de Assis, "instrumentos da sua paz".

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Ef 3: O que eu faço com a minha dificuldade?

O terceiro capítulo de Efésios dá continuidade ao que Paulo disse nos iniciais sobre a salvação pela graça e fé manifestada a todos, judeus e gentios, falando sobre a razão de sua prisão, que é justamente a mensagem do evangelho levada a todos. Antes de ir ao nosso ponto principal aqui, quero destacar uma fala do Apóstolo.

Já ouviu alguém falar que determinada "revelação" dada por Deus a alguém, seja durante o culto ou noutro momento de oração ou leitura da Bíblia, era um "mistério"? Pois bem, aqui em Efésios 3 temos o principal texto que carrega essa expressão no Novo Testamento, de onde os irmãos que assim se referem à determinada palavra de Deus tiram essa expressão. Mas vejam que Paulo faz uso diferente do contemporâneo desses termos. Ele deixa claríssimo que o "mistério" de Deus "é que os gentios são co-herdeiros e membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus pelo evangelho" (3.6). E a revelação é justamente a revelação do que antes era um mistério dito pelos profetas: que Deus estendera a salvação a todos, além dos judeus, e por causa dessa revelação o Apóstolo exercia seu ministério.

Percebam que não há nada de "misterioso nesse mistério". Não é algo místico, encoberto, que somente os mais espirituais ou os detentores de determinada revelação ou visão possuem. O mistério está ali escrito claramente e a revelação, que também é muito clara e detalhadamente explicada, está acessível a todos. É importante compreendermos isso, pois o uso indevido dessas expressões acabam gerando um pensamento errado de que há verdades misteriosas nas Escrituras que não são para entendermos agora. É claro que há profecias ainda não cumpridas e peculiaridades dessas, principalmente no Apocalipse e relacionados, que não estarão claras até que ocorram. Mas isso não significa que não é possível compreendermos alguma parte do texto sagrado. Pelo contrário, ali a revelação é exposta e o mistério revelado. Graças a Deus, que se preocupa em nos ensinar tão bem!

Agora sim, indo ao ponto principal (puxa, depois de falar isso tudo???), a condição na qual Paulo está me chama a atenção. O capítulo começa com ele dizendo que por causa dessa revelação, da extensão da mensagem do evangelho aos gentios, ele é prisioneiro. A carta foi escrita durante sua prisão em Roma, por volta de 60-62. Há a possibilidade menor de ter sido quando estava preso em Cesaréia, em torno de 57-59, mas a de Roma é mais apoiada pela história. O Apóstolo está preso, e isso é dito três vezes na carta (3.1; 4.1; 6.20). Sua prisão é devido mesmo à pregação do evangelho, que causava acusações diversas naquela época, como por exemplo, de desrespeito à figura do imperador.

Mais uma informação interessante: começamos a Jesus de Senhor por causa de uma expressão grega de uso comum na época do Império Romano. O Imperador era referenciado como Kyrios, que quer dizer Senhor em grego. Quando os cristãos começam a pregar o evangelho, dizem que esse título não é digno do Imperador, mas que só Jesus é Kyrios, só Jesus é o Senhor. Claro, isso não agradava às autoridades romanas...

Voltando à Paulo, o homem está preso, e o que isso acarreta ao seu caminho? Ele escreve, na prisão, as cartas aos Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemon. E na carta aos Filipenses, também escrita da prisão, ele diz: "alegrai-vos sempre no Senhor. Outra vez digo: alegrai-vos!" (Fp 4.4). A postura de Paulo me envergonha ao lembrar de como me portei diante de determinados problemas em minha caminhada. E serve de lição para nós, pois da tribulação ele tirou algo de valor para a igreja do seu tempo e para Deus.

Nossas dificuldades não podem servir apenas para nos deixar mais pacientes, o que já é um propósito nobre. Mas, assim como Paulo também fez com Silas em outro período na prisão, devemos tirar dela um louvor a Deus (At 16). Certamente a dificuldade sofrida por nós, que temos fé em Cristo, é capaz de produzir um testemunho de esperança àquele que ainda não o conhece.

Portanto, assim como Paulo, confiemos em Deus e tiremos da nossa dificuldade bons frutos. Se conseguirmos agradar a Deus enquanto passamos por momentos difíceis, quando não o conseguiremos fazer? Que o Senhor nos fortaleça e nos veja oferecer sempre algo de valor a ele, inclusive na nossa dificuldade.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Ef 2: O Evangelho Inclusivo, de fato

Não dá pra dizer que essa expressão, "evangelho inclusivo" ou "inclusivista" é nova. Podemos inferir que Paulo já usava o termo ou, no mínimo, já aplicava o seu significado no tempo em que escreveu suas cartas. E o segundo capítulo de Efésios gira justamente em torno disso: como Deus incluiu, através de Cristo, todos os homens na família de Deus. Isso começa com a ideia de que, antes de Cristo, nem todos estavam incluídos. Deus escolheu revelar-se à Israel e quem dele não fazia parte não tinha relacionamento com Deus. O verso 12 desse capítulo deixa isso bem claro:

"naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo."
Ef 2.12


Se ainda não está claro para você a diferença entre judeu e gentios e o porquê dela, espero que isso fique claro com esse texto. E que também entendamos em que sentido podemos falar de evangelho inclusivo. Pois há significados atribuídos a essa expressão hoje que não correspondem a nenhum sentido bíblico coerente.

Voltando ao último verso, vejam que quem não fazia parte de Israel era considerado "estranho" à comunhão que aquele povo tinha com Deus. Pelo fato de Deus ter chamado a Abraão e dado a Israel o pacto da circuncisão e a lei de Moisés, para os guiar, somente aquele povo tinha o acesso possível ao Senhor. Visto que o pecado imperava, somente através dos sacrifícios feitos em Israel se poderia ter uma expiação, perdão dos pecados. E todo esse processo de sacrifício, lei, circuncisão, etc., era chato até...

O Apóstolo Paulo entende, juntamente com os demais autores do Novo Testamento, que Jesus incluiu com seu sacrifício todos aqueles que não eram parte da aliança de Deus com Israel, os que são chamados gentios e dos quais nós fazemos parte  - a não ser que você, leitor, seja um judeu nascido em Israel e circuncidado ao oitavo dia (#difícil!).

Essa inclusão feita pelo sacrifício de Cristo tem algumas peculiaridades que o nosso texto de hoje trabalha bem. Veja os versos seguintes:

"Ele vos vivificou, estando vós ainda mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o  príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência (...). Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, (...) nos vivificou juntamente com Cristo."
Ef 2.1-2; 4-5

"Pois ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos (judeus e gentios) fez um, e destruiu a parede de separação, a barreira de inimizade que estava no meio, desfazendo na sua carne a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um só corpo, matando com ela a inimizade."
Ef 2.14-15


Fala-se em evangelho inclusivo hoje, dando a ele o significado de aceitar incondicionalmente qualquer pessoa em qualquer estado. E até aí tudo bem, pois Deus de fato aceita. O problema está no que foi exposto no penúltimo conjunto de versos acima: aqueles que foram incluídos andavam em seus delitos e pecados, não andam mais. O Senhor nos deu vida, pois estávamos mortos no pecado. Em Cristo, por graça e misericórdia, fomos aceitos, incluídos na aliança de Deus, e passamos a ter vida. A partir daí, somos chamados a viver de acordo com a santidade daquele que nos vivificou.

O Evangelho é biblicamente inclusivo ao respeitar o que diz o último conjunto de versos aqui citados. Ele nos inclui na comunhão da qual não fazíamos parte. E nos dá a responsabilidade de não vivermos mais sob o jugo do qual fomos libertos, o do pecado. Portanto, pensar num evangelho inclusivo que aceita o pecador com o seu pecado não é bíblico. Seja o pecado da prática homossexual, com o qual o termo tratado é mais usado, ou seja com o pecado da mentira, da fofoca, da inveja, que são erros tão comumente desprezados. O Senhor aceita a todos os pecadores, mas não os seus pecados.

Graças a Deus que nos incluiu em seus planos para a nossa salvação. E que nos trouxe uma mensagem suficientemente poderosa para nos tirar da escravidão, do jugo do pecado. Não podemos e não precisamos mais viver escravos do pecado, pois ele nos tirou dessa morte para uma vida plena com ele.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ef 1: Dois esclarecimentos sobre a predestinação

Falar de predestinação ou de livre arbítrio é assunto que causa interesse em alguns e que dói os ouvidos a outros. Confesso que meu grande interesse pelo dilema já passou pelo seu ponto mais fervoroso. Hoje estou tranquilo quanto à soberania de Deus, mas sem vigor para debater sobre o tema. Entendo, sem demagogias, que certas discussões em determinados meios mais têm a diminuir do que a acrescentar. Portanto, evito discutir sobre esse e outros pontos polêmicos da fé, a não ser em círculos teológicos.

Sobre o primeiro capítulo de Efésios, gostaria de ressaltar um ponto que pode servir de apoio a muitos que têm nesse dilema teológico um problema sério. Pelo menos até que esse sujeito se dedique a ler com calma a teologia dos reformadores, as obras de Santo Agostinho e de Tomás de Aquino que tocam no tema, as institutas de Calvino, etc.. Aliás, só recomendo ter certeza sobre esse ponto após um acesso relevante a pelo menos essas obras e alguns de seus comentários.

Nos primeiros versos do capítulo após a saudação clássica de Paulo, o tema da predestinação dos santos é abordado com clareza e liberdade. Recordem adiante:

"Pois [Deus] nos elegeu nele [em Cristo] antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele. Em amor nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo(...)"
Ef 1.4-5

"Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade (...)"
Ef. 1.11

Principalmente nos escritos de Paulo, entendemos que ele não tinha dificuldade em compreender que Deus já havia escolhido quem havia de se salvar na eternidade. Os pormenores disso, como já pretendia fazer, deixo para outro momento. Mas vemos clareza nesse ponto em seus escritos e inclusive nesses, de Ef 1.

Pouco mais adiante no capítulo e temos o seguinte verso:

"É também nele [Cristo] que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação. Tendo nele crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa, o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da propriedade de Deus, em louvor da sua glória."
Ef. 1.13-14

Escrevo este texto simples com uma intenção da mesma natureza: evitar que cometamos um erro grosseiro ao falar sobre predestinação. Este erro é pensar que, uma vez que a predestinação seja verdadeira, os princípios para a fé em Cristo e para a salvação, como fé, arrependimento, confissão e santidade/santificação são desprezados. Em momento algum a Bíblia nos diz isso. Se o pensamos, é culpa de uma lógica errada construída por nós mesmos.

Observem os últimos dois versos acima transcritos. Paulo continua falando àqueles que ele considera terem sido eleitos, predestinados. E diz que eles estão em Cristo, em quem creram após terem ouvido a palavra de Deus, e assim receberam o Espírito Santo, que é a garantia de que seremos resgatados na volta do Senhor. Dois princípios brevemente citados que nos previnem de errarmos: os eleitos precisaram ouvir e creram; após crerem, receberam o Espírito Santo.

Desses dois princípios, duas lições. Primeira, por mais que a eleição seja um fato, devemos pregar o evangelho. Os eleitos só são salvos quando ouvem e creem. E o Senhor nos comissionou à tal tarefa. Negá-la por causa da eleição é incoerente. Segunda lição, que por mais que acredite que seja eleito, predestinado desde a eternidade, não estou isento da responsabilidade de crer. E crer envolve mais do que simplesmente dar crédito de confiança a algo ensinado: envolve compreender a mensagem com clareza, prová-la em nossa mente e aceitá-la com segurança e certeza.

Sou predestinado ou creio que alguém o seja? Então, por isso mesmo, creio no Senhor e levo uma fé séria. Não se justifica uma vida desregrada sob a desculpa da eleição incondicional. Isso é mais um sinal de incompreensão da mensagem do que da soberania de Deus. E também agir de acordo com a fé nesse erro grosseiro mais demonstra a não-salvação de quem a toma por postura do que qualquer outra coisa.

Precisamos aprofundarmo-nos diariamente em conhecer ao Senhor. Isso atesta nossa salvação. E, se temos algum ponto da fé com o qual temos conflito ou dúvidas, é digno de nossa parte estudarmos até termos esclarecimento. Leia, peça ajuda, orientação. Apenas não fique na superficialidade, baseando-se em fundamentos incertos. Ainda que leve tempo, é melhor não ter certas definições, mas estar em sua busca, do que ter certezas apoiadas em nada. Que busquemos e entendamos. E que o Senhor, que quer fazê-lo, nos ajude a sermos coerentes.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Paulo aos Efésios: Da prisão, às igrejas da Ásia Menor

Começamos a ler e estudar um pouco a carta à Igreja de Éfeso. Essa é uma das cartas que Paulo escreveu estando preso. Efésios deve ter sido escrita e remetida, através de Tíquico, mensageiro de Paulo, juntamente com a carta aos Colossenses. Nesse momento, Paulo estava preso em Roma.

Não há dúvidas relevantes quanto à autoria da carta. Sua data é bem firmada no primeiro século, o que elimina fortemente a possibilidade de alguém ter escrito falsamente sob o nome de Paulo. O Apóstolo se identifica duas vezes no próprio texto como o autor da carta. Seu conteúdo é muito semelhante ao de Colossenses e encontra correspondências também em outros textos paulinos. E a aceitação da igreja primitiva sobre a autoria paulina não deixa dúvidas quanto à sua autenticidade.

Apesar de Éfeso batizar a carta, entende-se que essa cidade não foi seu único destinatário, apesar de ser potencialmente o principal. É sabido que a carta percorrera várias cidades da Ásia Menor, inclusive Colossos. Colossenses 4.16 faz referência a uma outra carta, que estava em Laodicéia e que deveria ser lida também pelos colossenses. Esta carta, possivelmente, era a carta aos Efésios.

Paulo conhecia seus destinatários principais. Atos cap. 20 nos diz que Paulo passou quase três anos com eles. O pastor daquela igreja é um velho conhecido: Timóteo, discípulo de Paulo, a quem ele escreveu duas cartas. A cidade em que esse jovem exerceu seu ministério foi também o local de seu túmulo.

Paulo havia confiado a igreja de Éfeso a Timóteo há algumas décadas. O Apóstolo já havia morrido há quase 30 anos, e Timóteo ainda cuidava daquela igreja. Em certa ocasião, com Timóteo já velho, sendo o Apóstolo João o último dos 12 ainda vivo, o respeitado pastor deparou-se com uma procissão idólatra que adorava a deusa Diana, muito reverenciada naquela cidade. Ao protestar contra a procissão, já velho, foi atingido na cabeça por um pedaço de pau, por um sacerdote de Diana. Toda a multidão o espancou e ele morreu poucos dias depois em decorrência de seus ferimentos.

A mensagem de Efésios é muito relevante para nós, pois traz alguns ensinamentos que lhe são exclusivos. As instruções quanto ao papel do homem e da mulher na família, além de recomendações a filhos, pais, escravos e senhores de escravos, presentes nos capítulos 5 e 6, são textos exclusivos dessa carta que formam bases de nossa doutrina. E a clareza com a qual Paulo trata do tema da unidade da igreja, expondo como Deus chamou a todos, judeus e gentios, também é muito importante.

O texto de Efésios ainda traz a única fala de Paulo sobre batalha espiritual. Um texto que merece ser analisado com calma, pois interpretações medonhas dele já foram e são feitas por aí. Ainda há outros temas tratados na carta, como predestinação, graça, reconciliação e união com Cristo, redenção.

Vamos juntos aprender com este texto precioso. Até a próxima semana, um texto por dia sobre cada um dos seis capítulos. Leia, comente, questione, participe. Entendamos a mensagem juntos, pois temos muito a aprender ali.