quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Gl 5.15-26: A guerra interior

Paulo acabou de tratar de um paradoxo entre a lei e a graça, entre o cumprimento dos mandamentos em busca de um mérito próprio, versus a aceitação e o recebimento da salvação e dos benefícios dessa através da graça de Deus em Cristo. Agora, ele desenvolve a partir daí outro paralelo: o da carne versus o Espírito. Diz que um deseja o que é contrário ao outro, guerreando para que vençam ao satisfazerem sua vontade.

Podemos exemplificar de forma simples o que cada um representa. A carne diz respeito a tudo o que queremos fazer. Minhas vontades, guiadas pelo meu desejo de realização dos prazeres. Tudo o que tenho vontade de fazer para me dar prazer momentâneo e imediato, para satisfazer a minha carne, representa a sua vontade.

O Espírito diz respeito à tudo o que devemos fazer. Sabemos que precisamos orar, vigiar, sermos santos, fugir do pecado, ajudar ao próximo, obedecer aos mandamentos do Senhor. E sabemos disso tudo justamente por causa do Espírito que em nós habita. Se cumprimos essas vontades que nos influenciam tão fortemente, cumprimos a vontade do Espírito. Porém se a nossa postura priorizar nossos prazeres e vontades próprias, estamos sendo carnais.

O texto ainda desenvolve dando uma explicação muito interessante. Diz que as obras da carne são conhecidas, e lista várias delas: "prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, pelejas, dissensões, facções, invejas, bebedices, orgias, e coisas semelhantes a essas". Paulo diz que os que praticam tais coisas não herdarão o reino de Deus. Atentar à vontade da nossa carne é viver pecando, e assim não é possível termos comunhão com o Senhor.

E também é dito sobre o fruto do Espírito. Reparem na distinção feita pelo texto bíblico: obras da carne, no plural, e fruto do Espírito, no singular, para uma lista de atributos. Esse fruto é: "amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio". Paulo diz que não há lei contra essas coisas. Vejam que há uma lista grande atribuída ao que acontece quando damos ouvidos à voz do Espírito em nós. Se ele domina sobre a vontade da nossa carne, temos todas essas características sendo desenvolvidas em nós e por nós praticadas. Reforço, todas.


Qualquer obra da carne que domine sobre nós atesta nossa derrota na batalha carne X Espírito. Mas não é a prática de qualquer um dos atributos do Espírito acima citados que também atesta vitória para ele. O Espírito vence se ele puder gerar em nós a prática de todo esse "pacote".

A vida no Espírito é contrária à vida na carne, e essa vida na carne é comparada à prática de uma religiosidade legalista. Não nos esqueçamos de qual é o tema principal que está sendo tratado pela carta de Paulo aqui, que é a prática da religião sincera, baseada na graça de Deus. Tanto que os últimos versos do capítulo dizem:

"Se vivemos no Espirito, andemos também no Espírito. Não nos tornemos convencidos, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros."


No último texto fiz questão de destacar a mensagem de que o legalismo nos leva ao sentimento de superioridade sobre o outro. Ele nos diz que somos melhores que aqueles que não andam conforme o conjunto de regras que pensamos ser o cerne da prática religiosa. Aqui, Paulo está encerrando o trecho falando também sobre isso. Se andamos no Espírito, a carne não acha lugar e nós não teremos motivos para nos acharmos superiores a ninguém. É coerente com o que foi dito no término do trecho anterior, em 5.14-15, que diz que a lei toda se cumpre no mandamento de amar ao próximo e que divisões e brigas não fazem parte dela.

Se quisermos agradar a Deus e termos uma religiosidade autêntica, precisamos ouvir a voz do Espírito e tamparmos nossos ouvidos para a nossa carne. O próprio Senhor é quem nos capacita para tal, tornando esse dever graciosamente prazeroso.

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