terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Gl 3-4: O desafio da fé: abrir mão do mérito próprio

Acredito que muitos que leem este título não concordam que a proposta seja de fato um desafio. Assim como também não acredito que esses muitos entendam de fato o que é proposto. Se muitos de nós, cristãos, olharmos fundo para nossas práticas, identificaremos posturas que refletem uma grande confiança em nossos méritos próprios.

O texto de Gálatas 3, que é complementado por exemplos no capítulo 4, é uma dura repreensão àqueles que passaram da fé em Cristo à uma teologia baseada nos próprios méritos. Naquele caso, os méritos vinham pelo suposto cumprimento da lei de Moisés. A repreensão de Paulo inclui dizer que o Espírito Santo foi dado pela fé, pura e simplesmente, e que a observação total da lei é impossível. Sendo assim, ainda que o sistema de méritos pelo seu cumprimento fosse verdadeiro, ninguém seria capaz de alcançar nada por ele.

Podemos seguir a "Teologia da Galácia" de várias formas. Se condenar demais por cometer um erro, por exemplo, demonstra maior confiança na própria justiça do que fé sincera em Cristo. Sempre me lembro dos capítulos 7 e 8 de Romanos ao tratar desse tema do pecado e da justiça própria. Confira lá. No final do capítulo 7, Paulo diz que é um homem miserável por não conseguir fazer o bem que tanto quer, mas viver praticando o mal do qual quer se afastar. E no início do 8, diz que, agindo como ele age, não há condenação para qualquer que esteja em Cristo. Ou seja, se quero acertar com todas as minhas forças, assim como quero fugir do erro, e os meus deslizes são apenas devido ao pecado que habita em mim, não pela minha própria decisão e obstinação, não há condenação sobre mim. Cristo não nos condena, logo não nos cabe fazê-lo.

Outra forma de justiça própria nós podemos ver na prática errada dos dízimos e das ofertas. Vou ilustrar com uma história simples que li recentemente num livro de Timothy Keller.

A história diz que certo camponês, que vivia num reino de um rei muito justo e amado, colheu um milho tão bom e belo como nunca havia colhido e como sabia que não colheria novamente. Então, resolveu ofertá-lo ao seu rei, pois o amava. O rei, homem justo e bom, recompensou o camponês com um grande campo, onde ele poderia plantar e colher ainda mais, tendo um bom retorno disso para si. Um oficial do rei presenciou o fato e, sendo criador de cavalos, pensou quão melhor não seria visto pelo rei a oferta de um cavalo do que a de um milho. E levou o seu melhor cavalo ao rei, esperando que também fosse recompensado. Ao que o rei aceitou sua oferta e o dispensou de mãos vazias. Curioso pela não-retribuição, o rei lhe explicou que ele estava dando o cavalo a si mesmo, não ao rei.

Quantas vezes não agimos assim com nossos dízimos e ofertas? Ou quantos de nós podemos estar cultivando este tipo de comportamento, talvez incentivados por algum "teólogo" da prosperidade por aí? Se ofertamos algo ao rei, devemos fazê-lo por amor. O camponês poderia ter sido despedido sem ganhar nada material, pois a satisfação do rei lhe seria suficiente. Isso não era verdade para o oficial.

É claro que há outros exemplos que poderia citar, mas creio que o princípio já foi compreendido. O que recebemos de Deus, o recebemos de graça, pela fé. Não há débitos contados ou créditos somados. Não existe contabilidade no céu. Apenas graça.

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