sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Gl 6: Semeando, se esforçando e colhendo.

Falar deste capítulo de Gálatas com o espaço limitado que opto por usar aqui é uma covardia. A impressão que o texto me dá é a de que Paulo queria escrever até o capítulo 20, mas teve que terminar no sexto. O conteúdo é tão grande para tão pouco espaço, que não me arriscarei nem a resumir o capítulo. Fiz uma opção por um trecho seu e o trataremos aqui. Noutra oportunidade conversaremos sobre o restante, ok?

O trecho escolhido é o de 6.7-9. É possível transcrevê-lo aqui:

"Não vos enganeis: Deus não se deixa escarnecer. Tudo o que o homem semear, isso também ceifará. O que semeia na carne, da carne ceifará a corrupção; o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna. E não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido."

Concordem comigo que só com esses 3 versos poderíamos escrever um livro. Para ficar ainda mais clara a abundância de temas e relevância da mensagem do capítulo, observe que os seguintes trechos carregam mensagens profundíssimas: 1-2; 3-5; 6; 7-9; 10-15; 16-18. Leia o capítulo observando os temas abordados por cada uma dessas divisões e faça uma breve reflexão. Estou certo de que será bem proveitoso.

Mas voltando ao nosso trecho, o Apóstolo está dizendo que colhemos o que plantamos, em termos gerais. E que Deus não faz vistas grossas à nossa semeadura, mas estabeleceu uma lógica certa, que diz que o que plantarmos colheremos. Quando é dito que Deus não se deixa escarnecer, entendo que o sentido da fala está bem claro. Ninguém dirá: fiz o que era indevido e me dei definitivamente bem. Nenhum prejuízo ou malefício me acometeu por meus maus atos. O texto sagrado nos adverte: Deus não é um carrasco, mas todas as opções que fazemos trazem consigo consequências. Boas para as boas escolhas, más para as más.

E vejam no verso 8 como isso é certo. Aquele que semeia na carne, que entendemos ser aquele que vive para satisfazer suas próprias vontades e prazeres, terá como fruto a corrupção. E quão coerente é isso! Se acostumo meu corpo e prazeres a ter o que quer, na hora que quer, semeando nele satisfação incondicional, me tornarei escravo dessa satisfação. Veja quem se viciou em pornografia, sexo, compras, drogas, por exemplo. Aquilo que antes era apenas um prazer, agora se tornou em fardo. A harmonia da vida foi corrompida por uma semeadura irresponsável; seu mau fruto não tardou em aparecer.

E o que semeia no Espírito, ou seja, o que investe seus recursos, esforço, tempo, dedicação em cumprir a vontade de Deus para sua vida, terá como resultado a vida eterna. Esse resultado já nos faz entender que o fim do que semeia na carne é o oposto disso, logo, a morte eterna. Mas fazendo a vontade de Deus, santificando-se, semeando no Espírito, viveremos bem e eternamente.

E o verso nove encerra com uma advertência velada: ceifará o bom fruto aquele que não desfalecer, não desanimar. O que semear e trabalhar pelo seu fruto até que esteja maduro, esse o colherá. Que triste é ver pessoas que dedicaram grande, às vezes a maior parte de suas vidas à Deus - ou entendendo que estavam fazendo isso - e desistiram no final. Semearam, semearam, mas não colheram. Precisamos nos dedicar e esforçar para que perseveremos até o fim.

Notemos que, se há tal advertência sobre a possibilidade de nos cansarmos dessa forma, é porque o cansaço e o desânimo sobrevirão sobre quem semeia o bem. No nosso mundo injusto, fazer o correto é muitas vezes doloroso. Podemos ser perseguidos, precisarmos de disciplina até o limite da nossa força, termos que lidar com situações de conflito e de desesperança, muitas vezes. Mas a Palavra de Deus nos adverte a resistirmos, firmarmos os pés e permanecermos vigorosos.

Quantas vezes e em quantas situações não nos vemos semeando coisas que não agradam a Deus? Discórdias, brigas, fofocas, intrigas, maus costumes, palavras torpes, atitudes impensadas, posturas egoístas, etc.. Tudo isso pode fazer-nos colher, em determinado momento, corrupção que nos levará à perdição. Ou que a atestará, somente. Portanto, esforcemo-nos e não nos cansemos de fazer o bem e de permanecermos fazendo-o. Aquele que nos deu a boa semente e que nos acompanha na semeadura há de nos abençoar para termos uma boa colheita.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Gl 5.15-26: A guerra interior

Paulo acabou de tratar de um paradoxo entre a lei e a graça, entre o cumprimento dos mandamentos em busca de um mérito próprio, versus a aceitação e o recebimento da salvação e dos benefícios dessa através da graça de Deus em Cristo. Agora, ele desenvolve a partir daí outro paralelo: o da carne versus o Espírito. Diz que um deseja o que é contrário ao outro, guerreando para que vençam ao satisfazerem sua vontade.

Podemos exemplificar de forma simples o que cada um representa. A carne diz respeito a tudo o que queremos fazer. Minhas vontades, guiadas pelo meu desejo de realização dos prazeres. Tudo o que tenho vontade de fazer para me dar prazer momentâneo e imediato, para satisfazer a minha carne, representa a sua vontade.

O Espírito diz respeito à tudo o que devemos fazer. Sabemos que precisamos orar, vigiar, sermos santos, fugir do pecado, ajudar ao próximo, obedecer aos mandamentos do Senhor. E sabemos disso tudo justamente por causa do Espírito que em nós habita. Se cumprimos essas vontades que nos influenciam tão fortemente, cumprimos a vontade do Espírito. Porém se a nossa postura priorizar nossos prazeres e vontades próprias, estamos sendo carnais.

O texto ainda desenvolve dando uma explicação muito interessante. Diz que as obras da carne são conhecidas, e lista várias delas: "prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, pelejas, dissensões, facções, invejas, bebedices, orgias, e coisas semelhantes a essas". Paulo diz que os que praticam tais coisas não herdarão o reino de Deus. Atentar à vontade da nossa carne é viver pecando, e assim não é possível termos comunhão com o Senhor.

E também é dito sobre o fruto do Espírito. Reparem na distinção feita pelo texto bíblico: obras da carne, no plural, e fruto do Espírito, no singular, para uma lista de atributos. Esse fruto é: "amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio". Paulo diz que não há lei contra essas coisas. Vejam que há uma lista grande atribuída ao que acontece quando damos ouvidos à voz do Espírito em nós. Se ele domina sobre a vontade da nossa carne, temos todas essas características sendo desenvolvidas em nós e por nós praticadas. Reforço, todas.


Qualquer obra da carne que domine sobre nós atesta nossa derrota na batalha carne X Espírito. Mas não é a prática de qualquer um dos atributos do Espírito acima citados que também atesta vitória para ele. O Espírito vence se ele puder gerar em nós a prática de todo esse "pacote".

A vida no Espírito é contrária à vida na carne, e essa vida na carne é comparada à prática de uma religiosidade legalista. Não nos esqueçamos de qual é o tema principal que está sendo tratado pela carta de Paulo aqui, que é a prática da religião sincera, baseada na graça de Deus. Tanto que os últimos versos do capítulo dizem:

"Se vivemos no Espirito, andemos também no Espírito. Não nos tornemos convencidos, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros."


No último texto fiz questão de destacar a mensagem de que o legalismo nos leva ao sentimento de superioridade sobre o outro. Ele nos diz que somos melhores que aqueles que não andam conforme o conjunto de regras que pensamos ser o cerne da prática religiosa. Aqui, Paulo está encerrando o trecho falando também sobre isso. Se andamos no Espírito, a carne não acha lugar e nós não teremos motivos para nos acharmos superiores a ninguém. É coerente com o que foi dito no término do trecho anterior, em 5.14-15, que diz que a lei toda se cumpre no mandamento de amar ao próximo e que divisões e brigas não fazem parte dela.

Se quisermos agradar a Deus e termos uma religiosidade autêntica, precisamos ouvir a voz do Espírito e tamparmos nossos ouvidos para a nossa carne. O próprio Senhor é quem nos capacita para tal, tornando esse dever graciosamente prazeroso.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Gl 5.1-15: Por uma fé coerente e baseada na graça

Uma das principais características da heresia legalista judaizante que assolava a igreja da Galácia dizia respeito à circuncisão. Alguns andavam pregando que, para se tornar cristão, era necessário primeiro circuncidar-se. Assim, supunha-se, passava-se a fazer parte da aliança de Deus com Israel para depois fazer parte da aliança de Cristo. Os três primeiros versos do capítulo 5 de Gálatas esclarecem isso:

"Cristo nos libertou para que sejamos de fato livres. Estai, pois, firmes e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da escravidão. Escutai! Eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. De novo testifico a todo homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei. "


O Apóstolo é duro em sua exortação. E nos traz com isso uma mensagem que clama por coerência na fé. Não podemos ter "áreas" na nossa vida em que nos portamos considerando a lei e outras nas quais consideramos a graça. E se temos uma fé bíblica, isso implica em ler todos os textos com o mesmo peso, método e pressupostos. Por exemplo, se creio que é pecado preocupar-me com minha aparência exterior ao ler I Pedro 3, devo também crer que sou obrigado a cortar minhas mãos ou furar meus olhos quando pecar por eles, ao ler Mateus 6. E ainda, que as mulheres devem ficar totalmente caladas na igreja, além de precisarem usar o véu, conforme diz I Co 11.

Um exemplo um pouco mais prático? Parte do que disse no post anterior: é incoerente apregoar que fui salvo pela graça e que todo os favores que recebo de Deus são imerecidos mesmo, e crer que posso comprar o favor de Deus com meus dízimos e ofertas, ou com qualquer outro ato, boa ação, etc.. Se sou salvo pela graça, é também por ela que Deus exerce seu cuidado comigo, não por qualquer merecimento ou atitude minha.

Paulo pega muito pesado com os que influenciavam os Gálatas nesse sentido. Ele chega a ser irônico (e talvez você já tenha lido esse texto e perdido a oportunidade de rir desse verso):

"Quanto aos que vos andam inquietando, oxalá se mutilassem."


Ou, na (minha) linguagem de hoje: "Quanto aos que dizem que se deve circuncidar, quem dera que cortassem fora seus genitais ao fazerem tal coisa".

Meu Deus! Como minha linguagem de hoje é gentil!

Uma fé legalista anula a graça. Uma fé legalista é pura religiosidade. Deus não se prende a métodos ou age por meio deles, mas é livre e soberano, não podendo ser convencido de nada ou manipulado por ninguém. Paulo diz que a fé legalista pára a caminhada cristã (5.7), anula a mensagem da cruz (5.10) e é carnal (5.13). Uma fé coerente e baseada na graça considera a essência verdadeira da lei, não seus pormenores irrelevantes: resume-se em amar ao próximo como a si mesmo (5.14).

Uma fé legalista nos isola do próximo, pois nos diz que somos melhores que os que não a seguem. Enquanto a fé baseada na graça nos aproxima deles, levando-nos a servi-lo com a mesma graça que recebemos.

Graças a Deus pela carta de Paulo aos Gálatas. A cada trecho, uma lição sobre graça e sobre a fé verdadeira. Sejamos sinceros  e livres, dedicando nossa obediência a Cristo por amor e fé, não por uma inútil obrigação da lei.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Gl 3-4: O desafio da fé: abrir mão do mérito próprio

Acredito que muitos que leem este título não concordam que a proposta seja de fato um desafio. Assim como também não acredito que esses muitos entendam de fato o que é proposto. Se muitos de nós, cristãos, olharmos fundo para nossas práticas, identificaremos posturas que refletem uma grande confiança em nossos méritos próprios.

O texto de Gálatas 3, que é complementado por exemplos no capítulo 4, é uma dura repreensão àqueles que passaram da fé em Cristo à uma teologia baseada nos próprios méritos. Naquele caso, os méritos vinham pelo suposto cumprimento da lei de Moisés. A repreensão de Paulo inclui dizer que o Espírito Santo foi dado pela fé, pura e simplesmente, e que a observação total da lei é impossível. Sendo assim, ainda que o sistema de méritos pelo seu cumprimento fosse verdadeiro, ninguém seria capaz de alcançar nada por ele.

Podemos seguir a "Teologia da Galácia" de várias formas. Se condenar demais por cometer um erro, por exemplo, demonstra maior confiança na própria justiça do que fé sincera em Cristo. Sempre me lembro dos capítulos 7 e 8 de Romanos ao tratar desse tema do pecado e da justiça própria. Confira lá. No final do capítulo 7, Paulo diz que é um homem miserável por não conseguir fazer o bem que tanto quer, mas viver praticando o mal do qual quer se afastar. E no início do 8, diz que, agindo como ele age, não há condenação para qualquer que esteja em Cristo. Ou seja, se quero acertar com todas as minhas forças, assim como quero fugir do erro, e os meus deslizes são apenas devido ao pecado que habita em mim, não pela minha própria decisão e obstinação, não há condenação sobre mim. Cristo não nos condena, logo não nos cabe fazê-lo.

Outra forma de justiça própria nós podemos ver na prática errada dos dízimos e das ofertas. Vou ilustrar com uma história simples que li recentemente num livro de Timothy Keller.

A história diz que certo camponês, que vivia num reino de um rei muito justo e amado, colheu um milho tão bom e belo como nunca havia colhido e como sabia que não colheria novamente. Então, resolveu ofertá-lo ao seu rei, pois o amava. O rei, homem justo e bom, recompensou o camponês com um grande campo, onde ele poderia plantar e colher ainda mais, tendo um bom retorno disso para si. Um oficial do rei presenciou o fato e, sendo criador de cavalos, pensou quão melhor não seria visto pelo rei a oferta de um cavalo do que a de um milho. E levou o seu melhor cavalo ao rei, esperando que também fosse recompensado. Ao que o rei aceitou sua oferta e o dispensou de mãos vazias. Curioso pela não-retribuição, o rei lhe explicou que ele estava dando o cavalo a si mesmo, não ao rei.

Quantas vezes não agimos assim com nossos dízimos e ofertas? Ou quantos de nós podemos estar cultivando este tipo de comportamento, talvez incentivados por algum "teólogo" da prosperidade por aí? Se ofertamos algo ao rei, devemos fazê-lo por amor. O camponês poderia ter sido despedido sem ganhar nada material, pois a satisfação do rei lhe seria suficiente. Isso não era verdade para o oficial.

É claro que há outros exemplos que poderia citar, mas creio que o princípio já foi compreendido. O que recebemos de Deus, o recebemos de graça, pela fé. Não há débitos contados ou créditos somados. Não existe contabilidade no céu. Apenas graça.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Gl 2.15-21: Como merecer o favor de Deus?

Impossível. Se o que você procurava era uma resposta objetiva, pode fechar a página e retomar a atividade anterior. Para entendermos melhor, seguem as próximas linhas.

Outro dia minha esposa, divagando (ou pode-se ler "viajando muito na maionese), disse: "não seria interessante se pudéssemos fazer algo para merecermos o amor de Deus?". A divagação (ou a viagem) continuou seu rumo natural por mais uns poucos segundos e ela percebeu o buraco teológico pelo qual descera. Se, para ganharmos o favor de Deus em qualquer situação, nós tivéssemos que conquistá-lo com o próprio esforço, estaríamos perdidos. Pois pecamos, somos manchados pelo pecado e incapazes de produzir qualquer coisa boa por nós mesmos.

A passagem bíblica à qual o título desse texto se refere diz que a justificação não é pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus. Ser justificado, numa definição muito simples, é ser feito justo aos olhos de quem nos poderia condenar. Deus poderia condenar-nos, pois ele é o juiz e contra ele nós pecamos. Mas, ao entregar seu filho para pagar o preço do pecado por nós, nos permitiu crer nele para sermos justificados pelo seu sangue.

Como Deus é santo, justo e bom, e nós, pecadores, injustos e maus, não poderíamos jamais agradá-lo. Porém, quando ele nos olha agora e vê a justiça imputada pelo seu filho na nossa vida, isso o agrada. E sermos assim justificados é o princípio da fé cristã. Sem tal justificação, não haveria uma oração respondida - ou sequer genuinamente feita. Portanto, como dependemos totalmente de Cristo para nos achegarmos a Deus, jamais poderíamos fazer algo bom o suficiente para agradá-lo. Pois qualquer coisa que possa sair de nós e ser por ele aprovada, só é possível por causa de seu Filho, Jesus Cristo.

O texto bíblico refere-se às leis judaicas para dizer que pelas obras da lei ninguém é justificado. Ou seja, ninguém é capaz de cumprir cabalmente a lei  a ponto de ser tido por Deus como justo o suficiente. Apenas Cristo o foi, e morreu injustamente, para nos fazer justos pelo sua morte. Isso me remete a pensar uma prática teológica que às vezes assimilamos sem perceber, e que parte do mesmo buraco que citei no início do texto. Como o irmão mais velho do filho pródigo (Lc 15), achamos que por obedecermos a Deus, ou fazermos de tudo para isso, passamos a ter direitos, a merecermos algo de suas mãos.

Não fosse pela graça de Deus, não fosse seu favor que agiu por nós independente de nosso mérito, estaríamos perdidos. Rubem Alves fala disso de uma forma muito clara, também usando o exemplo do filho pródigo e de seu irmão. Ele diz que quando o filho gastão voltou para casa e quis o perdão do pai, foi como se o pai lhe dissesse: "filho, eu não contabilizo débitos. Está tudo bem!". E do mesmo modo, quando o filho mais velho questiona o fato de o pai nunca ter lhe dado uma festa semelhante à do filho mais moço por causa de sua severa obediência, sua fala seria: "filho, eu não somo créditos".


O que o Senhor fez e faz por nós, é por amor incondicional e inestimável. Não há preço que pague, não há como merecê-lo de forma alguma. Por isso, é graça. E por isso, jamais mereceremos a sua bênção. Não é por entregar o dízimo e as ofertas. Isso deveria ser apenas uma manifestação de gratidão, não uma moeda de troca. Não é por sermos bons cristãos, isso deveria apenas em reconhecimento de tão grande favor. É somente por crermos no sacrifício de Jesus, que nos comprou tal favor do Pai. Graças a Deus!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Gl 1 - 2: Exercendo o ministério com segurança

Comece a leitura de Gálatas e repare como o texto de Paulo é organizado.Primeiro a saudação e destinação comuns às cartas da época. Depois, o cumprimento de Paulo que se tornou obrigação no meio cristão: "graça de Deus e paz do Senhor" (Veja sobre isso aqui). No quarto e quinto versos, o Senhor é caracterizado como aquele que se entregou segundo a vontade do Pai por causa do nosso pecado. E até aqui, o Apóstolo já fez um esboço de toda a carta: nela, ele defende o seu ministério apostólico, fala sobre a verdadeira mensagem do evangelho e combate uma postura legalista, além de fazer recomendações para a vida cristã correta, que implicam em afastar-se da carne e do mundo, abraçando a vida no Espírito que traz a santidade.

O primeiro ponto a ser tratado na carta é justamente a autoridade apostólica de Paulo. Como de costume, ele começou a carta afirmando que seu chamado não veio da parte de homem algum, mas da parte de Jesus, que o chamou. E então faz uma exposição que inclui detalhes do que há em seu coração sobre o seu propósito ministerial e sobre o seu chamado, vindo de Cristo, para pregar o evangelho aos gentios. Alguns versos específicos demonstram claramente como Paulo era seguro do que dizia, como de fato cria no que pregava. Veja:

"Paulo, apóstolo (não da parte de homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos)" - 1.1

"Não recebi (o evangelho que prego), nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo" - 1.12

"(...) Aprouve a Deus, que desde o ventre da minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça, revelar seu filho em mim, para que o pregasse entre os gentios (...)" - 1.15-16

"Pois Deus, que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão, operou também em mim com eficácia para com os gentios" - 2.8

Paulo tinha certeza de que era o Senhor quem o tinha chamado. E se olharmos para os versos acima, na ordem mesmo em que estão dispostos, vemos um pouco do que dava razão à essa segurança do Apóstolo. Ele sabia que era Deus quem o havia chamado e que sua mensagem não veio de ninguém menos que do próprio Senhor. Sabia também que seu chamado fora especificamente para o grupo para o qual pregava, tendo a segurança de fazer o certo da melhor maneira. E o fazia com excelência e dedicação, o que aumentava sua segurança.

Vejo aqui um padrão que nos serve de referência. Baseados nessa segurança de Paulo, podemos formular questões sobre nosso exercício ministerial cujas respostas nos darão a razão de nossa segurança ou da falta dela. Perguntas como:

Tenho certeza de que faço o que o Senhor tem pra mim, ou estou no ministério por conveniência, apenas por  que me envolvi com alguém dele ou outro motivo qualquer?

O que faço, é especificamente o que Deus tem pra mim? Nesse exercício ministerial, o que tenho de melhor é colocado em uso para o crescimento do reino?

Estou certo de que estou fazendo o que faço para o Senhor, não pela igreja ou pelo pastor que me pediu para fazê-lo?

O evangelho de Cristo foi de fato eficaz na minha vida? Estou firmado com Jesus a ponto de não cogitar voltar atrás? E eu entendi de fato a mensagem, de forma a poder pregá-la com excelência e suficiência a todos?

Paulo tinha uma resposta positiva a cada uma dessas questões. Sua autoridade e segurança eram tão grandes, que nos versos 2.11-14, o vemos censurando a Pedro, a quem ele mesmo reconheceu como coluna da igreja (2.9), por ter um comportamento dissimulado. E ainda, o fato de Paulo ter se entregado totalmente, com a sua vida mesmo, ao evangelho, lhe aumentava a segurança. Um dito famoso seu está aqui no capítulo 2:

"Estou crucificado com Cristo, e já não vivo, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim" - 2.20

Como andar seguro no ministério? Tendo a certeza de ter sido comissionado por Deus, como o Apóstolo, e dando o seu melhor, seu tudo, como ele também o fez. Daremos passos firmes e seguros agindo assim. Se não tivermos clareza quanto a esses pontos, busquemos ao Senhor, que certamente nos responderá. Deus não nos chamou apenas para sermos membros de uma igreja. Ele nos chamou para servi-lo e nos direcionará a fazê-lo da melhor forma.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Paulo aos Gálatas: o evangelho verdadeiro

A carta aos Gálatas pode ter sido a primeira a ser escrita por Paulo, das que passaram a compor o Novo Testamento. Foi escrita em torno do ano 48-49, tendo como propósito principal esclarecer aos Gálatas sobre a verdadeira mensagem do evangelho, dado o assédio de falsos mestres àquele rebanho. Concordo com o comentário Vida Nova quando diz que o principal verso da carta pode ser o 2.16:

"O homem não é justificado pelas obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus"


Aos gálatas estava sendo pregado um evangelho judaizante, que intencionava levar seus seguidores por um caminho de auto-justificação. A eles foi ensinado, por exemplo, que o cristão gentio que se convertesse deveria passar primeiro pela circuncisão para depois batizar-se. Esse ensinamento super-valorizava o judaísmo frente ao cristianismo e implicava numa obra para a salvação, o que Paulo combate.

Especula-se a possibilidade da carta tratar dos temas referentes às decisões do concílio de Jerusalém, relatado em Atos 15. Mas a abrangência um pouco incompleta e por demais indireta nos leva a eliminar uma relação tão próxima.

Além do tema apologético central, compõem a carta uma defesa do ministério de Paulo e ainda recomendações sobre a fé cristã.

Gálatas nos ajuda a ler o evangelho simples. Nos faz correr do legalismo e abraçar uma fé baseada na graça. Devemos ser gratos a Deus por termos tão precioso ensino compondo as Escrituras. Lembre-se que para termos o esclarecimento presente em Gálatas, uma igreja teve que enfrentar problemas doutrinários e Paulo teve que se dar ao trabalho de combatê-los.

Como sempre, temos a oportunidade de aprendermos muito com este livro sagrado. Leiamos e estudemos juntos. Inclusive, quero dar liberdade a todos os que seguirem a leitura e os devocionais a publicarem nos comentários possíveis dúvidas. As que não souber responder, percorro o caminho junto com vocês.

Que o Senhor nos instrua, mais uma vez.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

II Cor 13: Conclusão da segunda carta mais difícil de Paulo

Terminou a segunda carta mais difícil que entendo ter Paulo escrito. A primeira, na minha opinião, também foi aos coríntios, e é a carta mais dura que ele escreveu, certamente. Sua leitura causou tristeza nos destinatários, tal era o rigor das advertências ali contidas (II Cor 7). A segunda, escrita principalmente para defender o seu ministério, não deve ter sido agradável de se escrever.

Paulo encerra retomando os principais pontos da carta. Reforça que não deixaria de visitar os irmãos coríntios e que trataria do pecado de alguns impenitentes com autoridade, a mesma que ele teve que reivindicar em seu texto. Incentiva os irmãos a examinarem-se e tomarem conhecimento se estão, de fato, perseverantes na fé. Inclusive, acho que essa instrução é única no Novo Testamento, achando um possível paralelo apenas no texto sobre a Ceia do Senhor. Devemos provar a nossa própria fé de tempos em tempos, e a partir do resultado dessa prova agirmos em favor dela.

No verso 11, antepenúltimo da carta,, o Apóstolo faz breves recomendações:

"Quanto ao mais, irmãos, deus. Regozijai-vos, sede perfeitos, sede consolados, sede de um mesmo parecer, vivei em paz. E o Deus de amor e de paz será convosco."


Os próximos dois e últimos versos encerram com uma recomendação para uma saudação calorosa entre os irmãos, reforçando a comunhão, unidade e carinho entre eles, e a bênção que ficou conhecida como bênção apostólica.

As recomendações do verso 13.11 e a consequência de sua observação são uma bela mensagem para um desfecho de carta. Os irmãos são incentivados a se alegrarem, buscarem a perfeição, a consolação - do Espírito Santo, inclusive através dos irmãos, terem um pensamento comum e viverem em paz. Como consequência dessas observâncias, o Deus de amor e de paz seria com eles.

Pense na contramão dessas observações, para as entendermos mais facilmente. Se andarmos entristecidos, reprovados, sem a consolação do Espírito, cheios de discórdia e contenda com os irmãos, o Deus de amor e de paz não estará conosco. Perceba que duas características de Deus têm aqui sua presença em nós vinculadas à uma atitude nossa. Caso ajamos da forma recomendada, teremos o Deus amoroso e cheio de paz conosco. Não é muito verdade que se tivermos uma postura coerente com essas características o próprio Senhor não se agradará e manifestará esses atributos em nossas vidas?

Assim como o "reclamão" parece não conhecer a Deus, pois anula a esperança e a fé com suas murmurações, o que está alegre e confiante testemunha um Deus que tudo pode. Nessa lógica, a postura que temos reflete o Deus que servimos e adoramos. Somos assim chamados à responsabilidade de demonstrarmos a nossa fé através da conduta pessoal, pois também assim o evangelho será pregado.

E dessa forma se encerra a Segunda Carta aos Coríntios. Paulo escreveu esta carta estando ao fim de sua terceira viagem missionária, período estimado entre 55-57 d.C.. O Apóstolo teve no máximo mais 10-12 anos de vida. Pouco tempo depois de escrever esse texto escreveu Romanos, talvez quando presente em Corinto, cumprindo a promessa de sua visita. Também foram compostas depois dessa carta as de Efésios, Colossenses, Filemon e Filipenses, possivelmente nessa ordem.

Foi um texto difícil para o Apóstolo, mas muito precioso para nós. Além de trazer ensinamentos preciosos sobre a vida na igreja, relacionamentos, ministério, a mensagem restauradora de Cristo, trouxe-nos detalhes da vida de Paulo que não saberíamos por outros livros. Graças a Deus por sua palavra e por termos podido ler com calma este livro. Agora, vamos ao próximo: Gálatas. A introdução será publicada no próximo post. Boa leitura para nós!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

II Cor 12.11-21: Mais um exemplo de Paulo sobre dedicação ministerial

Após contar sobre uma experiência sobrenatural que viveu - forçado pelos questionamentos de seus opositores, Paulo fala sobre uma terceira visita que planejava fazer aos coríntios e sobre sua motivação para com eles. O verso 12.15, central dessa passagem, diz:

"Agora estou pronto para ir ter convosco pela terceira vez, e não vos serei pesado, porque não busco o que é vosso, mas sim a avós. Afinal de contas, não devem os filhos entesourar para os pais, mas os pais para os filhos. Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado."


Este é o penúltimo capítulo da carta e quando vemos Paulo derramar sua frustração para com os coríntios devido aos questionamentos a respeito de sua autoridade apostólica. O Apóstolo foi questionado e acusado, mas uma postura sua lhe servia de argumento sólido: não havia brecha alguma para que ele fosse justamente acusado de se aproveitar financeiramente da igreja, pois ele mesmo foi quem bancou os custos de seu ministério. Como os versos acima disseram, Paulo não buscou o que era da igreja, mas a própria igreja.

Eu fico indignado com a postura contrária de líderes de hoje? Sim. É verdade que não tenho ideia de onde eles julgam achar base bíblica coerente para cometerem seus abusos? É. Porque o exemplo de Paulo nas Escrituras é o mais claro a esse respeito, e caminha justamente na via contrária. I Cor 9.13-15 também reforça esse exemplo. Diz:

"Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que de contínuo servem ao altar, participam do altar? Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho (até aqui você já deve ter ouvido pregações a respeito). Mas eu de nenhuma destas coisas usei. E não escrevi isto para que assim se faça comigo. Melhor me fora morrer, do que alguém fazer vã esta minha glória."


Leu bem a última frase? Paulo preferia a morte à vergonha de não ter servido voluntariamente, inclusive com seus próprios recursos financeiros. E muitos hoje não tem vergonha de abusar financeiramente de suas ovelhas.

Confesso estar um pouco cansado de tratar sobre esse tema, pois considero o abuso daqueles que protagonizam a via contrária de Paulo tão grande, que dispensa acusações. Eles próprios as tecem, com seus testemunhos. Assim como o testemunho de Paulo gritava, o deles também o faz. Mas esses gritam uma mensagem digna de vergonha. O de Paulo, uma digna de orgulho. Inclusive, sobre esse exemplo de Paulo eu também falei em outro post.

O Apóstolo inclui na temática do capítulo 12 o fato de poder ter sido até injusto com suas ovelhas, não as deixando participar financeiramente de seu ministério. Mas a imaturidade daquele povo e a legalidade que agora tinha Paulo para lhes fazer tais advertências fazia valer o preço.

O Senhor te chamou para servi-lo de alguma forma? Faça-o despretensiosamente. Ainda que da forma mais simples, principalmente no início, mas faça-o sem querer nada em troca, a não ser agradar o Senhor. Com atitudes simples, como só receber o que lhe for oferecido para custear o que for realmente necessário. Considere seu trabalho voluntário uma oferta ao Senhor, pois ele é digno e servi-lo já é um privilégio. Nossa geração carece de pessoas dedicadas, sinceras e com aspirações mais espirituais do que materiais. Que o Senhor nos ajude a somarmos para tapar essa lacuna.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

II Co 11.1-12.10: O pedido de Paulo que Jesus não respondeu

Ler alguns capítulos das duas cartas de Paulo aos Coríntios é muito difícil. O 11 é um deles. O Apóstolo precisa, novamente, justificar-se e reafirmar as bases sólidas de seu ministério, uma vez que alguns se levantaram contra ele. Sabendo hoje quem é Paulo e conhecendo o seu trabalho, é comum ficarmos indignados. Mas também devemos aceitar que Paulo estava em plena atividade e que, como em qualquer caso, sujeito a levantes de homens gananciosos, invejosos e de más intenções em geral. Por causa deles, lemos estes textos difíceis.

Para resumir bem o capítulo 11, Paulo defende-se das acusações de ser um falso apóstolo, ao que responde que em nada foi inferior aos mais excelentes apóstolos (11.5). Lembra aos coríntios que lhes pregou o evangelho despretensiosamente, não sendo financeiramente sustentado por eles na empreitada missionária, mas por outros irmãos e igrejas (11.8-9). Seus opositores, porém, o acusaram de não receber dos coríntios dinheiro algum porque sua consciência não lhe permitia, pois sabia que não era um apóstolo verdadeiro (pode???). O trecho de 7-21 nos dá um bom panorama de toda essa situação, portanto não detalharei aqui. Até o verso 33, vemos ainda Paulo falando sobre seus sofrimentos e como esses atestam a autenticidade de seu ministério.

No capítulo 12, nos 10 primeiros versos, temos uma fala de Paulo que desemboca num texto muito conhecido, o do "espinho na carne". E aqui, me atenho para a nossa reflexão.

Devido a outra acusação sofrida por Paulo, ele conta o que está escrito nos versos 12.1-6. Era dito que os apóstolos recebiam "revelações especiais" da parte de Deus. Paulo foi tão duramente questionado, que o vemos contando a experiência que teve nesses versos, ainda que contra a sua vontade. Ele não tinha intenção de se gloriar em nenhuma "experiência especial", mas diz preferir gloriar-se na sua fraqueza e ser conhecido apenas por aquilo que os irmãos vêem nele, que é a sua preocupação com a igreja - o que ele vai detalhar a partir do verso 12.11.

Finalmente, chegamos ao texto do espinho na carne. Com todas as experiências que teve, todos os frutos que produziu, toda a conduta que cultivou quando do seu tempo no judaísmo e a excelência que marcou tanto sua vida judaica quanto a cristã, Paulo tinha motivos suficientes para ser tentado a se ensoberbecer. E então, vemos o Apóstolo falar sobre um pedido feito por ele a Deus e que não foi respondido.

Não se sabe o que era o espinho na carne de Paulo, e prefiro nos privar aqui de uma série de especulações.  Fiquemos satisfeitos em interpretá-lo como um problema, ao menos por agora. Paulo diz que orou três vezes ao Senhor, pedindo que o tirasse dele. Nas suas próprias palavras, esse espinho servia como "um mensageiro de Satanás" a esbofeteá-lo, para que não se exaltasse. E o Senhor recusa-se a retirar esse fardo de Paulo, dizendo ao seu servo: "A minha graça te basta, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza".

Quando leio este trecho tenho vontade de interromper a leitura, pois fico com vergonha de mim mesmo. O Apóstolo Paulo pediu ao Senhor que o livrasse de um incômodo, um problema, e a resposta do Senhor é que aquele problema lhe servia de fortalecimento. Paulo entende bem e diz que sente "prazer nas fraquezas, injúrias, necessidades, perseguições, angústias por amor de Cristo". Ele diz que quando está fraco, então é que está forte. Por isso, prefere gloriar-se nas fraquezas do que nas experiências ou seja no que for. Pois são as fraquezas e dificuldades que o mantêm na linha e o fortalecem.

Minha vontade de parar a leitura agora converte-se numa vontade de parar de escrever. Paulo cultivava seus tormentos, fortalecendo-se neles. Sua fé era forte, pois ele diz que orou três vezes, apenas três, e teve certeza de que não seria livre daquilo. Ele não passou dias, semanas ou seja lá quanto tempo for orando. Ele pediu, insistiu e o fez novamente, aceitando o não como resposta.

Como me sinto pequeno diante disso! Questiono o que tenho feito diante dos meus problemas. E concluo que, se eu estiver cumprindo a vontade de Deus para mim, de forma que possa afirmar com segurança que ele é meu Senhor e dono, governador da minha vida, assim como Paulo o fazia, mesmo as adversidades são aliadas desse propósito divino para mim.

Quem disse tudo isso e quando disse faz toda a diferença: Paulo, respondendo a questionamentos quanto à honestidade e autenticidade de seu ministério. E sua principal testemunha não é cada uma de suas experiências espirituais ou vitórias, mas as dificuldades que o cercavam.

Concluo que devemos cumprir a vontade do Senhor. Ele não abre mão do controle das nossas vidas e, estando com ele, até os adversários cooperam para o seu objetivo. Que o Senhor me perdoe e a cada um que se encontrar na mesma situação, por olhar para as adversidades com olhos tão maus. Sirvamos e confiemos nele. Tenhamos na consciência a certeza de estar cumprindo nosso dever e andaremos seguros.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

II Cor 10: A segurança do líder que age corretamente

Sabe quando um texto se revela muito mais precioso do que você imaginava? Confesso que li esse capítulo umas 5 vezes e precisei consultar algumas outras bibliografias antes de entendê-lo como o fiz agora, mas com todo esse processo, ele se tornou muito valioso. Nem é um texto tão difícil de se entender, essencialmente, mas me deparei com algumas dificuldades na interpretação que acabaram por torná-lo mais prático no final.

Paulo retoma a temática acerca de seu ministério nesse capítulo, mas agora com um novo tom: o Apóstolo está bem mais duro que nos capítulos anteriores. Alguns irmãos, que eram líderes e ministros em Corinto, começaram a difamar a imagem de Paulo. Acusaram-no de ser carnal (10.2) e de ter um relacionamento com Cristo mais superficial do que o de seus acusadores (10.6-9). Disseram ainda que Paulo era falso, pois fazia-se de rígido nas suas cartas, mas quando estava fisicamente presente, não trazia a mesma autoridade e ousadia, tendo sua presença classificada como "desprezível" por aqueles que o acusavam.

Levantaram contra Paulo uma série de calúnias. Talvez por motivos gananciosos, talvez por inveja ou ambição da sua autoridade sobre aquela igreja, não sei ao certo. Mas buscaram manchar a sua imagem e denegrir seu ministério. Pessoas de má intenção se levantaram contra ele para o derrubar.

Paulo era um obreiro irrepreensível. Entendo que ele, pessoalmente, já era alguém excelente. Em muitas referências ele mesmo diz como era rigoroso ao observar as leis judaicas quando fariseu (At 26.5; Gl 1.14; Fp 3.5-6). Paulo sabia hebraico, aramaico e grego, e seus estudos lhe garantiram uma excelente oratória e retórica. Sua postura era a de alguém que sabia fazer as coisas da melhor maneira. Era um sujeito dedicado, responsável, esforçado por si só. E sua postura ministerial não era diferente. Tanto que ele foi fundador de várias igrejas na sua época, inclusive a de Corinto; escreveu mais da metade do Novo Testamento, 13 cartas; e fez 3 viagens missionárias que demandaram o trabalho de uma vida. Paulo sabia fazer com excelência o que lhe estava proposto.

Quando inimigos do ministério de Paulo se levantam, sua postura continua exemplar e a vemos com clareza nesse capítulo. Ele usa de um tom mais severo para tratar do assunto, tal é o absurdo que se tornou digno de menção na carta, e que inclusive foi uma das motivações para que fosse escrita. Mas notem o que ele diz nos versos 12-18. Paulo não se rebaixa ao ponto de comparar seu ministério com o de seus acusadores, pois a segurança de sua consciência não o permite fazer isso.

Paulo havia fundado aquela igreja, como já disse. E aquilo que os outros faziam em Corinto e do que se gloriavam, só era possível porque Paulo havia feito ali o seu trabalho. Todo esforço ministerial de qualquer um naquele lugar era como uma construção lançada sobre o fundamento que Paulo lançou. E ele, seguro disso, não responde aos seus acusadores. Ele reforça que foi ele mesmo que lançou tais fundamentos sobre os quais outros intentavam construir, diz que não tem motivos para agradar a outros que não o próprio Senhor, e fecha este trecho.

Podemos seguir o exemplo de Paulo. Na excelência, primeiramente. Devemos dar o nosso melhor no serviço ao Senhor, pois isso o agradará e também nos trará segurança. E devemos ter sabedoria, como o Apóstolo, que não se rebaixou a ponto de levantar uma discussão, polêmica, etc. Paulo não postou sua discussão com esses líderes em seu site e não gastou horários na TV respondendo aos seus acusadores, pois tinha objetivos e preocupações mais nobres: edificar a igreja e continuar pregando o Evangelho.

Se agirmos como Paulo, teremos um trabalho excelente e uma mente segura. Não nos daremos ao trabalho de responder àquilo que nossa própria obra e o Senhor já falam por nós. E nossos esforços continuarão no rumo certo. Que Deus tenha misericórdia e nos ajude. A nós, a nossos líderes, aos pastores do Brasil que têm certo reconhecimento. Trabalhemos em prol do Evangelho de Cristo, nada mais.

domingo, 11 de dezembro de 2011

II Cor 9: O nosso dinheiro na igreja, parte II

Após falar sobre alguns aspectos da contribuição financeira na igreja e dizer que estava enviando Tito e outros irmãos para colherem uma oferta em Corinto para os necessitados de Jerusalém, Paulo começa a dar alguns estímulos para a contribuição daqueles irmãos. Esses, apesar de serem bem simples, são profundos e verdadeiros.

O Apóstolo diz que a oferta do povo deveria expressar generosidade, não avareza (9.5). E entendo perfeitamente que esse ato pode levar consigo as duas mensagens, pois alguns podem contribuir só por que são compelidos a tal, sem terem o coração generoso de fato. Continua fazendo uma comparação com um agricultor; dizendo que aquele que semeia/oferta pouco, assim também colherá pouco, e o que muito, colherá muito (9.6).

Lendo apenas esse último verso, alguém pode pensar que o gazofilácio (só eu acho esse nome horrível?) é o melhor investimento do mundo. Pois se deposito muito ali e colho muito, sem nenhuma vírgula usada por Paulo para dizer isso, é um investimento 100% seguro e potencialmente com 100% de retorno! Mas o próximo verso ajuda a interpretar esse corretamente: diz que a contribuição deve ser feita com alegria e de acordo com a disposição do coração, não sendo por tristeza ou por necessidade. Qualquer motivação que não voluntária e espontânea não é válida. Uma contribuição pragmática não faz sentido.

Os versos de 8-11 são realmente dos mais animadores e com uma lição preciosa. Dizem que Deus abençoa aquele que contribui para que ele possa fazê-lo ainda mais, de forma que tendo abundância em tudo, também abunde em boas obras. O verso 10 diz que "dá semente ao que semeia", continuando com a analogia, e ele aumentará a sementeira deste para que semeie ainda mais e seus frutos apareçam. Por fim, o verso 11 diz que somos enriquecidos em tudo com o propósito de sermos generosos, o que faz com que pessoas abençoadas por nossa generosidade deem graças a Deus.

O capítulo termina com os últimos versos nos ensinando que a oferta colhida supriria a necessidade dos santos e seria motivo para Deus ser glorificado, pois através da provisão feita por ela, muitas orações e graças seriam prestadas a Deus.

O que mais me chama a atenção nos dois capítulos que tratam desse tema, além da importância que a generosidade tem no reino de Deus, é a simplicidade com a qual é tratada, de forma muito diferente de hoje. Não há mística envolvida, fórmulas loucas para se conseguir prosperidade, a contribuição não é motivada pela ganância de receber mais de volta, etc.. Contribuir, nesse ensinamento, é dispor recursos e coração para abençoar outros e fazer crescer o reino de Deus. E nada mais.

Entendo a razão de muitas pessoas terem preconceito com a contribuição na igreja, principalmente na evangélica pentecostal / neo-pentecostal brasileira. Há mesmo muitos abusos. Mas mesmo ao fazer isso, a postura ali escondida é uma super-valorização da vida financeira, pois ela é assim distinta das demais áreas da nossa vida, se é posso "separar" nossa vida em áreas. Tão simples quanto a nossa entrega de tempo, esforço, dedicação, é a nossa entrega financeira. O Senhor não vê a nossa vida compartimentada, mas o nosso coração como um todo. Qualquer simples atitude nossa revela o que está em nosso coração, seja em que "área" for.

Vejamos com simplicidade o ato de contribuir financeiramente para o crescimento do reino de Deus e para abençoar os que precisam em nosso meio. O Senhor se agrada disso, e permitirá que sempre o façamos, como de fato promete sua palavra.

sábado, 10 de dezembro de 2011

II Cor 8: Nosso dinheiro na igreja, parte I

Eu poderia trazer aqui tantas reflexões, vindas de tantos ângulos diferentes, sobre esse texto, que fica difícil fazer uma opção. Mas preciso arriscar uma, para não ser superficial demais, então aqui vai.

Os capítulos 8 e 9 dessa carta são unicamente dedicados a tratar sobre a oferta que Paulo, através de Tito e de outros cooperadores, recolheriam na igreja de Corinto para enviar aos irmãos necessitados de Jerusalém. Quando lemos o livro de Atos, vemos que os irmãos de Jerusalém eram bastante liberais financeiramente, pois vendiam suas posses e repartiam tudo o que tinham com quem tivesse necessidade. Mas uma fome assolou aquela região, e mesmo aqueles que ainda tinham algo se viram empobrecidos. Então agora, as demais igrejas prestavam assistência à essa que tinha necessidade.

E neste capítulo Paulo orienta sobre como deveria ser essa contribuição. Reparem que nos versos 1-4 o Apóstolo louva a contribuição sacrificial, custosa, e voluntária. Os versos 5-9 nos mostram que nossa vida financeira não é separada da nossa devoção espiritual, pois os coríntios são incentivados a, assim como têm abundância na fé, na palavra, na ciência, no zelo e no amor, tenham também na contribuição financeira. Os versos 10-15 nos ensinam dois princípios: a contribuição é segundo a condição de cada um, não sendo valorizada a quantia, mas a liberalidade dentro das próprias possibilidades. E uma segunda muito preciosa, que permeia os dois capítulos desse tema: a contribuição visava a igualdade. Paulo diz que a abundância de um supria a falta de outro e, como as coisas sempre mudam, em outro momento a abundância daquele que naquele momento tinha falta, poderia vir a suprir a necessidade de quem ali gozava de fartura.

Por último, para focarmos num trecho mais específico, o restante do capítulo 8, de 16-24, vemos como a administração da oferta era feita de forma responsável. Paulo mesmo não se envolveria diretamente com o dinheiro, mas confiou irmãos dignos de tal tarefa para fazê-lo. Os versos 17-18, 22-23 nos mostram claramente a responsabilidade e crédito que precediam a fama dos irmãos encarregados de tal tarefa.

Enfim, eis aí um dos principais textos do Novo Testamento sobre a contribuição financeira na igreja. Você notou a existência, de alguma forma, de uma obrigatoriedade? Está estipulado um valor mínimo/máximo ou trata-se de uma contribuição feita com base e em coerência com uma devoção pessoal? Foi prometido algo em troca àqueles que ofertariam? Não é justo interpretar esse texto sem o capítulo 9, pois ele nos traz alguns incentivos de Paulo para que os irmãos contribuíssem e um deles é o fato de o Senhor se agradar disso e aumentar os recursos de quem é abençoador para que o faça ainda mais. Mas isso não é visto como uma negociação, mas como graça de Deus sobre uma ação voluntária e sincera.

Como é tudo tão diferente desse modelo ideal! Se você ligar a TV e assistir alguns programas de instituições que se dizem igrejas cristãs, verá uma choradeira só por contribuições. E por outro lado, se você abrir os jornais de vez em quando, verá que aqueles que tem administrado essas contribuições encontram-se em situações constrangedoras... Em muitos desses casos, o dinheiro não é usado para a igualdade, para abençoar o necessitado ou para qualquer motivação válida como as da igreja primitiva. Antes, é voltado para a manutenção de um império religioso que cresce diariamente às custas de sacrifícios pessoais de pessoas inocentes e sinceras. Características diferentes de muitos de seus incentivadores, julgo com temor.

Aprendamos com o bom exemplo e deixemos o mau de lado. Contribuamos sim, uma vez que estejamos num lugar onde essas contribuições são justamente aplicadas. Sim, te incentivo a contribuir somente se souber que essa contribuição é bem usada onde é depositada. Caso contrário, procure outro lugar para semear. Se você não confia no seu pastor, por exemplo, busque a fundo. Converse com ele pessoalmente, tire suas dúvidas, esclareça e tenha certeza e segurança. Mas não deixe de contribuir, pois aprendemos aqui que faz parte da nossa entrega e devoção a Deus esse ato.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

II Co 7: A boa tristeza dos coríntios

No capítulo 7 desta carta,, Paulo está encerrando um bloco que começou em 2.12, e que tratou de seu ministério, especificamente. O Apóstolo expôs um pouco de sua história com os coríntios, compartilhou de seus sofrimentos, falou sobre o caráter de sua pregação e como as dificuldades validavam a mesma, etc. Agora, ele fecha esse bloco para falar de outro assunto nos capítulos 8-9 e depois falar novamente e de forma mais direta de seu ministério no cap. 10. Lembrando que a defesa de seu ministério é um dos principais motivos para ele ter escrito esta carta.

O capítulo que tratamos aqui é muito importante para esta carta. Paulo diz como reagiu aos sentimentos do povo de Corinto quando foram repreendidos por outra carta sua. Ele diz que a tristeza neles gerada produziu bons frutos. Tal tristeza chegou pesar-lhe no coração, mas ele diz que logo foi consolado, pois entendeu que esse sentimento produziu algo bom naquele povo, que foi o arrependimento. Paulo trata esse sentimento como uma "tristeza segundo Deus", que produz arrependimento para a salvação. E diz que ela é diferente da tristeza do mundo, que produz a morte.

Essa tristeza vinda de Deus é uma tristeza boa. Quando nos entristecemos por situações cotidianas, por decepções, frustrações ou por causa de algum percalço, também temos oportunidade de crescimento, claro. Lembro-me do provérbio bíblico que diz que há mais proveito num velório do que numa festa, pois no velório os homens refletem sobre seus caminhos. Mas essa tristeza não tem proveito certo; a tristeza segundo Deus, sim.

O problema é que estamos acostumados nos entristecermos por qualquer coisa, mas não entristecermos por alguma coisa que valha a pena. Ficamos tristes porque nos decepcionamos com atitudes de amigos. Por frustrações no trabalho, por não conseguirmos alguma coisa que queríamos, etc. Geralmente, situações em que outros sentimentos seriam mais válidos e produtivos, como a perseverança, a fé, a confiança no outro a despeito da decepção, dentre outros. E naquelas situações em que a tristeza nos cairia bem, não a sentimos.

Se pecamos, a tristeza merece lugar em nosso coração. Se, ao invés dela, temos qualquer outro sentimento, podemos ficar preocupados. Devemos inclusive pedir ao Espírito Santo que essa tristeza nunca se afaste de nós. Se chegarmos a um ponto no qual "frustramos a vontade de Deus" (com "aspas" até em negrito) para nós e não nos incomodamos com isso, o temor do nosso coração estará comprometido. Podemos e devemos orar a Deus para nos restaurar esse temor.

Fiquemos preocupados em nos entristecermos pelos nossos pecados. Pelas injustiças que presenciamos na nossa sociedade, por quando vemos tantas pessoas buscando tantas coisas que não as levarão a lugar nenhum. Como os coríntios, nos entristeçamos pelos nossos pecados e dos nossos companheiros, pois devemos buscar agradar ao Senhor a qualquer custo. E valorizemos esse sentimento, pois ele produzirá em nós crescente santificação, o que nos levará a agradarmos mais ao Senhor.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

II Co 6: O famoso jugo desigual

"Não vos prendais a um jugo desigual com os incrédulos; pois que sociedade tem a justiça com a injustiça? ou que comunhão tem a luz com as trevas? Que harmonia há entre Cristo e Belial? ou que parte tem o crente com o incrédulo? E que consenso tem o santuário de Deus com ídolos? Pois nós somos santuário de Deus vivo, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.
Pelo que, saí vós do meio deles e separai-vos, diz o Senhor; e não toqueis coisa imunda, e eu vos receberei; e eu serei para vós Pai, e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso."


Quem é cristão já ouviu muito a expressão título deste texto e presente no texto bíblico acima transcrito. E você sabe o que é um jugo? É a parte do carro do boi que prende um boi ao outro. Imaginou? Aquele pedaço de madeira que, juntando os dois bois a si, é ligado também ao carro, para que seja puxado por eles. Estar associado às trevas é comparado a submeter-se a um jugo de bois desigual. A consequência é uma força maior para puxar o carro, tornando a tarefa quase impossível. O carro de bois com o jugo desigual teria o efeito semelhante a um carro desalinhado, mas com consequências mais desastrosas.

Uma vez entendida a analogia, não há mais nenhum segredo no texto, não é mesmo? Ele é muito claro. Apenas para refletirmos sobre mais um detalhe, você já pensou sobre o que seria associar-se? Entendo associação como estabelecimento de aliança ou contrato. Uma relação na qual se compartilha objetivos e divide-se ganhos e perdas. Relacionamentos, sociedades em empresas, amizades verdadeiras. Associações.

No texto, da mesma forma que não há comunhão entre luz e trevas, não deve haver tentativas de associação entre os que são da luz e os que não são. E percebamos bem, que o texto não diz ser difícil associar-se com alguém que não partilha de valores cristãos, ela diz que é impossível, tanto quanto misturar luz e escuridão. Qualquer tentativa de fazê-lo seria frustrada.

Pense numa amizade, por exemplo. Podemos pensar ser possível ser verdadeiramente amigo de alguém não cristão, e talvez até o sejamos. Eu mesmo tenho amigos preciosos que não professam a mesma fé que eu. Mas o nível de comunhão, a associação plena que me é possível com amigos cristãos não é atingível com os que não são. Um amigo não-cristão não poderá orar por mim num momento de aflição, por exemplo. Outro exemplo claro, se me associo num negócio com alguém de valores diferentes, jamais vou conseguir fazer com que meu negócio faça investimentos missionários. A associação, mais uma vez, não seria completa.

Se de fato somos da luz, não nos associamos às trevas. Isso não quer dizer separatismo, discriminação de um ou outro grupo, ou qualquer sentimento de superioridade. O próprio Jesus disse, em João 17, que nós não somos do mundo, mas estamos nele e não nos é possível sermos dele tirados. Somos enviados ao mundo para sermos sal e luz, para levarmos sabor àqueles que precisam, não para nos tornarmos como ele.

Vejo uma linha muito tênue entre a consciência da missão no mundo e também a consciência de que não somos superiores, mas servos daqueles que precisam ser alcançados pelo evangelho. Não confundamos a orientação para não nos associarmos com a ideia errada de não nos misturarmos. Façamos a diferença onde ela é necessária, no mundo. E preservemo-nos puros nele.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

II Co 5: Para entender mais a salvação: reconciliação

O texto deste capítulo fala tanto conosco, que minha vontade é copiá-lo, colá-lo aqui e nem comentá-lo. Apenas para nos situar: Paulo está escrevendo tendo como um dos principais objetivos justificar e defender a integridade de sua pregação e ministério, devido a alguns levantes contra ele na igreja que ele fundara em Corinto. No quinto capítulo, ele começa falando sobre a esperança do cristão, que está na volta de Cristo e na nova vida que teremos com ele. Essa exposição ocupa os versos 1-10.

Em seguida, o Apóstolo fala sobre o objetivo de seu ministério - e da pregação cristã, de forma geral. Paulo está pregando a reconciliação com Deus, que através de Cristo reconciliou consigo todo o mundo. O verso 5.19 diz que Deus estava em Cristo promovendo esta reconciliação, não imputando aos homens os seus pecados. E que a partir de então, a "palavra da reconciliação", que é o evangelho de Cristo, estava sendo pregado.

De toda a exposição de Paulo nesse capítulo, saltam aos meus olhos os seguintes versos:

"Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou" - 5.14-15

"Portanto, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram, tudo se fez novo." - 5.17

"Aquele que não conheceu pecado, ele o fez por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus" 5.21

Vimos no capítulo anterior que, andando com Cristo, temos uma vida plena, que caminha acima das adversidades. E essa é uma parte maravilhosa do caminho. Agora, Paulo está nos dizendo qual o sentido de decidirmos viver com e para Cristo, que é o fato de termos recebido sua graça sobre nós, a despeito do nosso pecado. Os versos destacados acima nos esclarecem que a entrega de Cristo requer como resposta uma entrega nossa. Ele morreu por nós, nós vivemos para ele. Não há mais nenhuma acusação ou peso do passado, pois ele assumiu nossos pecados na cruz, sendo justo e indigno de condenação, mas o fez em nosso lugar, para que fôssemos vistos como justos por Deus.

Gasto este texto para fazer essa explicação simples, que fala tanto ao meu coração, por entender a necessidade de compreendermos bem o processo da nossa salvação. O evangelho que muitos pregam hoje é tão carregado de promessas de Deus, garantias de prosperidade e bênçãos disso ou daquilo, que muitos estão na igreja sem sequer entenderem o real sentido que esse ato deveria ter. Se "ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou", está claro que a entrega de Cristo por nós precisa ser completamente compreendida, pois ela exige uma resposta à altura. Ninguém é capaz de entregar a própria vida sem ter certeza do que faz, não é mesmo?

Compreendamos, conheçamos e entreguemos nossa vida, esforços, gratidão, devoção, trabalho, suor e tudo o mais que puder ser agradável a Deus e útil para o crescimento do seu Reino. Pois com o sangue de Cristo fomos considerados justos o suficiente para fazermos parte dele. Graças a Deus!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

II Co 4: A vida abundante não é para todos

O texto de II Co 4 é um texto animador. Alguém que esteja fraco, cansado, desanimado e leia algum de seus trechos, certamente se sentirá melhor, uma vez que a Bíblia lhe seja um bom referencial. Veja este texto, por exemplo:


"Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desesperados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossos corpos"
II Cor 4.8-9

Este é Paulo, autor da carta, falando sobre a sua postura/reação diante das adversidades que lhe acometiam. E podemos e devemos olhar para este texto como um bom referencial, sim. Como outros também, por exemplo, o sermão da montanha.Quando o Senhor diz para olharmos para os pássaros e para as plantas, vermos como o Pai lhes provê tudo com toda a suficiência sem que eles se preocupem com tal, ele nos anima a confiarmos em sua provisão e não nos desesperarmos. Graças a Deus, que nos conhece, anima e provê. Graças a Deus!

Porém, há um fato para o qual precisamos atentar. Qual razão leva o Apóstolo Paulo a ter tal ânimo e tamanha confiança segura em Deus? Não é o fato de sua consciência ter total segurança de que todo o seu empenho, trabalho, esforço, dedicação, devoção, estarem voltados para o Senhor Jesus? Ele não se baseia na sua própria justiça, mas caminhar como o Senhor nos orienta, nos dá a segurança do seu cuidado.

Da mesma forma, as promessas que vemos no sermão do monte, exemplo citado acima. Jesus falava para os seus, para aqueles que estão ao seu serviço, aos quais ele conhece e que estão envolvidos com a sua causa. Já disse isso aqui no blog em algum outro momento, mas reforço que as promessas de Deus são para os discípulos, não para a multidão. Pregar as bem aventuranças, promessas e palavras de ânimo a qualquer que ouça a pregação ou que leia a Bíblia descompromissadamente é injusto.

Uma grande injustiça neopentecostal, principalmente, é buscar cativar seguidores a partir destes benefícios, que são destinados aos que já estão com Cristo. Os benefícios da salvação vêem como consequência da caminhada, mas não são o caminho.

Uma proposta para nós? Dedicarmo-nos ao máximo ao Senhor. Como Paulo, que pôde escrever com propriedade:

"Pois nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal. De modo que em nós opera a morte, mas em vós a vida.
Pois tudo é por amor de vós, para que a graça, multiplicada por meio de muitos, faça abundar a ação de graças para glória de Deus. Por isso não desfalecemos; mas ainda que o nosso homem exterior se esteja consumindo, o interior, contudo, se renova de dia em dia."
II Cor 4.10-11; 15-16

A dedicação de Paulo aos seus era feita sem reservas. Seus esforços eram todos voltados para aqueles que eram o alvo de seu ministério. Por isso, como diz o verso 4.16, seu interior era renovado diariamente, como pode ser o nosso. Dediquemo-nos e experimentemos o cuidado que o Pai tem com os seus filhos.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Futebol: por que (muitas vezes) torcer é irracional

Hoje o Cruzeiro jogou contra o Galo, tendo a vitória como preço da permanência na primeira divisão do futebol brasileiro. Os dois times tiveram uma campanha ruim no campeonato, mas o Cruzeiro foi pior e hoje a decisão foi tensa. Enfim, estou longe de ser comentarista de futebol. O Cruzeiro ganhou o jogo e permaneceu na primeira divisão. Meu ponto é outro.

Hoje, depois do jogo, foi difícil ter que encarar trânsito voltando para casa. Quando saí da porta da igreja, vi um carro com jovens gritando palavrões que raramente se encontram na mesma frase a outros jovens em outro carro. E nem eram torcedores rivais, tratava-se apenas um pequeno desentendimento sobre a preferência num cruzamento. Passaram os dois carros e uma Chevrolet Blazer da Polícia Militar dobrou a esquina a alta velocidade. O trânsito estava cheio de pessoas buzinando o tempo todo, correspondendo gritos, berros e outras manifestações a qualquer que as iniciavam. Estava insuportável, para quem gosta e para quem não gosta de futebol.

Não torço para nenhum time de forma relevante. Já fui um cruzeirense mais devoto, mas há alguns anos isso perdeu a graça. O que digo aqui, entretanto, digo respeitando o sentimento que antes tinha pelo time para o qual torcia, não escrevo totalmente alheio ao contexto.

O poder que o futebol tem na vida de muitos é impressionante. Costuma falar mais alto que o amor à família, o carinho com o cônjuge, o trabalho, as amizades, a política da boa vizinhança. Conheço poucos fenômenos capazes de tamanha alienação como futebol. E ver toda a euforia e loucura de hoje me fez questionar alguns pontos que resolvi compartilhar aqui. Vou expô-los de forma sistemática, apenas para facilitar minha redação. Seguem.

Para começar, você é cristão? Então imagino que não lhe seja comum ofender a outros, principalmente sem propósito algum. Mas, tratando-se de futebol, é permitido chamar os torcedores adversários de "marias", "cachorrada", tachá-los de homossexuais com termos que prefiro não exemplificar, etc. Aquilo que de forma alguma seria dito numa situação normal em um ambiente familiar ou cristão, como na igreja, na hora do futebol se torna conveniente. Perdi a conta de quantas ofensas sem sentido li pelos tweets e posts no Facebook de muitos essa semana. E pessoas doces, agradáveis, mas transformadas por esse fenômeno estranho.

Este tópico não é para todos, mas você costuma falar palavrões? E na hora que o seu time perde aquele gol importante e/ou definitivo?

Uma das coisas mais importantes que temos na vida são as amizades. Você já perdeu alguma por causa do futebol?

Àqueles que usam redes sociais, deem uma olhada na sua timeline. Quais foram as últimas coisas que te fizeram postar algo com o mesmo sentimento de intensidade que a vitória ou derrota do seu time? E o futebol é assim, de fato, tão importante quanto essas outras?

Nas reuniões de família, quanto tempo se gasta discutindo sobre futebol? E aqueles debates ridículos, que mesmo eu, um não-torcedor informado, já decorei, sobre quantos títulos cada um tem ou deixa de ter?

Você já se indignou por que um colega de trabalho, talvez com as mesmas atribuições e responsabilidades suas, ganhava um pouco a mais do que você? Em torno de R$ 200,00, por exemplo? E quanto ao salário dos jogadores, que nunca é questionado? Para não falar diretamente de você, possivelmente seus pais trabalharam inúmeras vezes mais do que algum jogador milionário que joga futebol há poucos anos. E o que promove esse mercado desleal com o restante da sociedade não é a sua "paixão" pelo time?

Inclusive, pessoas com boa consciência política e social também torcem fortemente pelos "seus" - que de "seus" mesmo não têm nada - times. E como não se importam com o fato de a indústria do futebol remunerar com enormes cifras alguns poucos, enquanto o Brasil se gaba de ter tido um crescimento de 7,5% em 2010, o que leva a média de patrimônio de cada brasileiro a pouco mais de R$ 19.000,00? Isso não é alienação?

Eu não vou citar mais tópicos, pois sei que caso o faça, poucos lerão o texto devido ao seu tamanho. Afinal, aqui não está sendo comentado o jogo de hoje, é apenas uma reflexão pessoal de menor importância.

E aí você, torcedor que ama o time, que aprendeu a fazê-lo desde pequeno, justifica sua devoção com outra máxima também aprendida há muito: "futebol, religião e política não se discute". Mas encerro lembrando que uma boa discussão política é potencial transformadora da sociedade em que vivemos. E que a religião, que deve sim ser debatida e discutida, para se concluir qual o seu melhor caminho e forma, é capaz de determinar muitos aspectos da sua vida pessoal e caráter, além do lugar em que você passará a eternidade. Já a validade da discussão sobre o futebol... Se houver algum proveito numa disputa de ego baseada em méritos que os que discutem não possuem, as próximas linhas deste texto podem ser para você completá-lo.
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II Co 3: A letra mata

Ler e escrever sobre esse texto me remete a um tempo do início da minha caminhada cristã. Um tempo em que  eu aprendia muito mais do que aprendo hoje, pois tudo era novidade. Inclusive, tenho a impressão de que quanto mais se aprende, menos se aprende. Entenderam, né? Como antes era tudo novo, todo dia aprendia com facilidade alguma coisa. Hoje, não que saiba muito, porque não sei, mas para achar algo novo é preciso ir mais fundo.

À época que me remeto, lembro-me que acreditava de bom coração na maioria das coisas que ouvia do altar sem questionar. Seja o altar da minha igreja ou de outra, mas principalmente no início da minha conversão, a figura do pastor era quase digna de crédito ilimitado. Tempos bons, confesso. Mas o senso crítico teve que ganhar espaço em mim, o que trouxe benefícios e problemas, alívios e fardos. Mas é uma das melhores coisas que nos podem acontecer: questionar, para então ter certeza.

Lembro-me dessa época e dou essa volta para começar o assunto do texto bíblico por causa de uma passagem desse capítulo que, ouvindo-a isoladamente, entendia ser uma coisa, mas que na verdade era outra. É o verso 3.6, especialmente a segunda parte dele:

"Ele nos fez também capazes de ser ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica."


E eu tinha plena certeza, por ter ouvido uma interpretação manca desse texto uma vez, que a letra era a leitura simples da Bíblia, que não podia ser feita sem a ajuda do Espírito Santo, que dava vida àquelas palavras. Bonitinho, não é mesmo? Mas não é o que o texto diz. Esse princípio gera algo perigoso, inclusive, que é desmotivar o estudo e exame das Escrituras, pregando uma interpretação suficiente através do Espírito, que vivifica a letra.

Hoje, sabemos que não é disso que se trata o verso ou o capítulo 3 de II Co, como um todo. O que ele está dizendo é que a lei, "gravada com letras em pedras" (3.7), serviu para a nossa condenação, uma vez que não fomos capazes de cumpri-la. Esse "ministério da condenação", pela lei, é muito inferior ao "ministério do Espírito e da justiça" (3.8-9), pelo Espírito Santo, através da graça de Deus, que nos torna justos perante a lei. Pelo sangue de Cristo, somos justificados. Por que a lei nos condenava, trazendo a morte, mas agora, por causa de Jesus, o Espirito nos traz vida. E dessa forma sim, entendemos que letra/lei mata, mas o Espírito/graça vivifica.

O texto desse capítulo está dizendo que, se o ministério que trouxe a morte foi capaz de fazer com o que o rosto de Moisés brilhasse de tal forma, que os israelitas sequer podiam olhá-lo diretamente, muito mais fará o ministério da justiça por meio de Cristo. Paulo está explicando a superioridade da graça de Cristo para a nossa salvação em detrimento da lei, que nos condenava. Graças a Deus, Jesus foi justo, cumprindo toda a lei. E, como justo, morreu no lugar de injustos, como nós.

Então hoje, quando me lembro daquele tempo, vejo como é importante interpretarmos as Escrituras de forma correta, com temor e critério. Pois aquele mesmo exemplo poderia ter gerado morte em mim, uma vez que não entenderia as Escrituras, que são para nós mensagem de vida. Graças a Deus também, porque a Bíblia nos diz que a lei mata, mas o Espírito que nos dá vida está conosco para nos ensinar o que precisamos aprender, e através das Escrituras. Que, aliás, nos trazem vida.

sábado, 3 de dezembro de 2011

II Co 2.5-11: Manifestando a graça com o perdão

Um sujeito havia cometido alguma falta grave na igreja. Sendo em Corinto, quando o texto não deixa claro qual é o seu pecado, fica difícil especular. O pecado mais comum para ser tratado nessa segunda carta é o de rebelião contra o ministério de Paulo, mas não sabemos se é o caso. Já fora tratado ali por Paulo adultério, incesto, individualismo, heresias, dentre muitos outros. Então, o Apóstolo agora orienta aos coríntios sobre como agir com o homem que havia vacilado.

Primeiro, ele diz que o pecado de tal homem causou tristeza a ele, bem como a toda a congregação. E reconhece que já havia tristeza no coração do pecador pelo erro cometido, e que a repreensão que fora feita pela maioria (dos que tomaram conhecimento quando ele cometeu o erro, entendo) já era suficiente, não necessitando que ele, Paulo, nesse caso, intervisse novamente. E recomenda que a igreja deveria perdoar o pecador, consolá-lo e lhe confirmar o amor que tinham para com ele. Alguém disse que seria fácil?

Para ser necessário abordar o tema na carta e também a recomendação de perdão e amor, o erro tinha que ser grave. A orientação de Paulo aos seus é tão difícil quanto coerente. Suponhamos que esse homem tenha levantado um motim contra o ministério de Paulo. Ele já não tinha o exemplo de Pedro, que apesar de ter negado a Jesus no momento mais crucial, era líder da igreja? Sendo um pecado sexual, o Senhor Jesus também não tinha perdoado a adúltera pega em flagrante, e não a condenado?

O perdão é um ensino abundante nas Escrituras e principalmente no exemplo de Jesus. Não houvesse um perdão incondicional da parte de Deus, certamente você não estaria lendo este texto assim como eu não o teria escrito. O perdão é uma das maiores expressões da graça de Deus, pois o ofendemos gravemente com nossos pecados e ainda assim fomos aceitos, perdoados e reconciliados.

Se Paulo precisou citar o pecado desse homem, sua gravidade está atestada. E o fato de ele precisar recomendar amor e perdão, diz o quê? Que a igreja agiria como a maioria de nós hoje, acredito. Seu curso natural seria outro que não o perdão e o amor. Você consegue perceber que falta graça nas nossas atitudes? Mais condenamos que aceitamos, mais falamos mal do que encerramos polêmicas, mais acusamos do que reconciliamos. E o que Cristo fez conosco foi exatamente o contrário.

Philip Yancey, no livro "Maravilhosa Graça", conta que conheceu uma prostituta que vendia seu bebê de colo para favores sexuais. Sua reação foi um misto de sentimentos. Mas ousou fazer uma pergunta simples, que trouxe uma resposta chocante. Perguntou à mulher se ela já havia procurado uma igreja. Ela respondeu questionando uma motivação para isso, pois sua expectativa era de que estando lá, as pessoas a fariam se sentir pior do que ela já era.

Paulo encerra essa recomendação dizendo que, por ser ela muito dura, seria uma prova da obediência fiel daquele povo. E que, agindo ele e a congregação com demonstração sincera de perdão ao ofensor, eles não seriam vencidos por Satanás. Se quisermos viver saudável e plenamente na igreja e com Cristo, o perdão e amor que recebemos deve ser manifestado. A graça ineficaz é a obra prima de uma religião vazia. Mas a graça genuína faz nascer um coração sincero, devoto e perdoador.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

II Co 1: Sendo abençoados com propósito

É interessante como o molde do primeiro capítulo parece nortear toda a carta. Paulo inicia seu texto identificando-se como apóstolo de Cristo por vontade de Deus (já reparou que todas as cartas ele começa assim, praticamente?), ministrando a paz de Deus e de Cristo aos corações de seus leitores. Então, leva um ensinamento, sobre a consolação de Deus, enquanto transmite uma mensagem a eles. E encerra o capítulo justificando uma postura sua, reconhecendo nela a soberania e a bênção de Deus sobre suas atitudes e ministério em geral. Temos ali ministração de bênçãos, doxologia (google it!), ensinamento e reforço da sua autoridade apostólica, que é o principal motivo pelo qual a carta foi escrita.

Uma vez que alguns andavam dizendo em Corinto que Paulo agia de forma incoerente, havendo prometido ver os Coríntios, mas demorando a fazê-lo, Paulo precisa justificar sua postura, e o faz com excelência nos versos 1.12-24. Sua saudação encontra-se em 1.1-2 e o trecho ao qual gostaria que nos prendêssemos um pouco mais, está entre 1.3-11, onde Paulo fala sobre a consolação de Deus.

Paulo e seus companheiros, como Timóteo, Barnabé, Silas e outros, tiveram uma vida nada fácil. Sofreram perseguições e resistências do povo por pregarem o evangelho; sofreram perseguições políticas e de autoridades locais; padeceram açoites e prisões, sobreviveram a naufrágios, Paulo foi picado por uma cobra e sobreviveu. Sua caminhada era rica em resultados, mas a equação que conduzia a eles... Não era nada fácil.

Paulo vai dizer que Deus é quem os consola em suas tribulações, que na mesma medida que as aflições de Jesus lhes transbordam, através de Jesus também transborda a consolação. E diz que se ele e seus companheiros sofrem tribulação é para que aqueles que são por eles cuidados recebam consolo e salvação. Enfim, os sofrimentos de Paulo e dos seus companheiros de caminhada finaliza em bênçãos para o seu rebanho. Mais uma vez, vemos um exemplo do que é ser um pastor verdadeiro, alguém que coloca-se à frente de qualquer pelo seu rebanho, que preocupa-se em servi-lo, muito mais do que ser servido por ele.

E o ponto principal que reflito aqui com vocês: Paulo diz que essa consolação, que tão graciosamente se manifesta a ele e aos seus, tem um propósito: fazer com que aqueles que são consolados na tribulação tornem-se capazes de consolar a outros, com a mesma consolação que tem recebido. Isso não revela um padrão interessante?

A vida cristã é vida em comunidade. Vemos as Escrituras gritando isso para nós em todo o tempo e de várias formas. Para citar um único e grande exemplo, o próprio Deus já existe em comunidade: mesmo sendo um, é três pessoas distintas, que se relacionam. E esse exemplo de comunidade estende-se a toda a fé cristã. O propósito das bênçãos que recebemos cumprir-se ao abençoar outros, como no caso dessa consolação da qual o Apóstolo fala, reforça essa lógica.

Somos consolados para que consolemos, abençoados para que abençoemos, acrescentados de qualquer forma para que possamos também acrescentar a outros. Deus nos ama sem medida, mas não faz nada por nós isoladamente; tudo sempre abençoará a todo o corpo de Cristo, toda a igreja. Buscar bênçãos que terminam em nós mesmos não é parte do ensinamento bíblico. Antes, é egoísmo e falta de conhecimento dos princípios de Deus, que nos vê como parte do seu corpo.

O povo de Corinto sofria juntamente com Paulo, seu pai na fé, suas aflições. E Paulo diz que sua esperança está em que também eles participem da consolação, que lhes é tão ricamente ministrada. Essa mensagem e reflexão tão simples, faz-nos questionar o que temos feito com o que recebemos de Deus. Talvez tenhamos recebido privilégios - ou coisas que pensamos ser privilégios - e não fizemos nada pelo nosso próximo com isso. Podemos ter a dádiva de uma situação financeira confortável, por exemplo, mas não ministrarmos esse conforto a ninguém. Termos recebido uma maturidade na alma, da parte de Deus, de não sofrermos tanto com problemas severos, mas não consolarmos os nossos irmãos da mesma forma que somos.

O Senhor sempre nos abençoará. Mas esse princípio de unidade visto nas suas bênçãos nos traz a responsabilidade de sermos abençoadores à medida que somos abençoados. Deus é tão bom, que nos permite trabalhar junto com ele como instrumentos de sua consolação àqueles que dela precisam. Glória a Deus por isso. E que o Senhor ache em nós corações gratos e gratos na prática, de forma que ofereçamos e transmitamos a outros o que tão graciosamente dele recebemos.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

II Co: Introdução

Então, Paulo finalizou a carta mais dura e difícil do Novo Testamento. Exortou, repreendeu, encorajou, demonstrou ira e amor, etc. E agora na segunda carta que o Apóstolo escreve à igreja naquela cidade, o tom pode ser um pouco mais ameno, graças à boa resposta que teve da dura carta que escrevera anteriormente.

Estando na Macedônia, Paulo encontrou-se com Tito, que viera de Corinto e comunicara-lhe sobre como os coríntios receberam a dura carta que ele escrevera. O texto de II Co 7.5-11 nos mostra com clareza:

"Pois mesmo quando chegamos à Macedônia, a nossa carne não teve repouso algum, mas em tudo fomos atribulados: por fora combates; por dentro, temores. Mas Deus, que consola os abatidos, consolou-nos com a vinda de Tito, e não somente com a sua vinda, mas também pela consolação com que foi consolado de vós, contando-nos as vossas saudades, o vosso choro, o vosso zelo por mim, de maneira que muito me regozijei. Ainda que vos tenha entristecido com a minha carta, não me arrependo, embora já me tivesse arrependido por ver que aquela carta vos entristeceu, ainda que por pouco tempo. Agora folgo, não porque fostes entristecido, mas porque fostes entristecidos para o arrependimento. Pois fostes entristecidos segundo Deus, de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma. A tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, o qual não traz pesar, mas a tristeza do mundo opera a morte"

O povo coríntio recebeu bem a carta de Paulo, apesar de terem se entristecido num momento por sua dureza. Mas responderam prontamente, e o que se sabe é que eles corrigiram muitas das suas posturas erradas.

Estima-se que Paulo escrevera a segunda carta em torno de um ano após a primeira, mas não é algo exato. Entre uma e outra, sabe-se que houve esse encontro de Tito com Paulo, que Paulo passou por outras cidades, dentre elas Éfeso, que esteve na Macedônia, pregando e levantando ofertas para a igreja de Jerusalém. Ao receber o relatório de Tito dito acima, ele escreve a segunda carta. Após escrever a segunda carta, ele passa uns bons meses em Corinto, como nos diz At 20.2-3, onde escreve Romanos.

II Coríntios é a carta mais pessoal do Novo Testamento, consequentemente a carta mais pessoal que se conhece do Apóstolo Paulo. Essa carta traz muitas referências sobre a biografia de Paulo, informações que só temos acesso por ela. Por isso se torna uma das mais importantes cartas do NT, num sentido histórico.

A motivação de Paulo ao escrever se dá, principalmente, por alguns que pregavam contra seu ministério naquela cidade, corrompendo os irmãos dali. Diziam de Paulo que ele havia tido uma conduta dúbia, pois retardara sua visita à cidade. Então o Apóstolo diz que o fez para que não os tratasse tão duramente como faria naquele momento, que havia resolvido não vê-los com tristeza no coração, mas preferia aguardar o melhor momento. E assim o fez.

Toda a carta está permeada por defesas do Apóstolo ao seu ministério. Há também uma grande seção dedicada à coleta de ofertas para a igreja em Jerusalém, para a qual Paulo empreendia grande esforço em abençoar. Vê-se também grande amor do Apóstolo pelos daquela cidade, também presente na primeira carta e demonstrado através tanto de suas repreensões como por encorajamentos, e por sua dedicação em estar com eles.

Enfim, II Coríntios é a continuação da boa história de um pastor dedicado cuidando de ovelhas que, a duras penas e sob muitos ataques e adversidades, buscam seguir ao Senhor e seguir as orientações de seu Mestre. Se você, assim como eu, identifica-se com esse povo, aprendamos com eles lendo esse texto tão precioso. Começa hoje e são apenas 13 capítulos, com um devocional postado aqui a cada dia. Que Deus nos oriente!