quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Rm 9: A predestinação e o sentimento de Paulo

Penso conhecer um pouco do público para quem escrevo. Sei que apesar de alguns bons amigos teólogos lerem o blog, eu não escrevo para teólogos diretamente. Fui condenado, ao estudar Teologia, a não conseguir desprezá-la jamais em qualquer leitura simples do texto sagrado, mas não escrevo para este público somente. Escrevo para quem quer ler a Palavra de Deus de forma simples e sincera, entendê-la, praticá-la e ensiná-la também a outros. E neste grupo estão incluídos teólogos.

Portanto, não tratarei do tema da predestinação, que prefiro denominar como o tema da soberania divina, para ser mais fiel ao pensamento do querido reformador que mais o difundiu, neste texto. Vou deixar que o leitor entre e saia daqui com o mesmo pressuposto com o qual chegou. Talvez em outro momento o faça, mas por hora me aterei ao seguinte: está claríssimo neste capítulo que Paulo entende que o Senhor é soberano para escolher um vaso para honra e outro para desonra; que como diz o verso 16, "não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que se compadece". Ele é soberano.

Partindo daí, quero ressaltar um pouco o que ouvi na mensagem do Rev. Augustus Nicodemus Lopes (vale a pena conhecer esse homem) na Conferência da Fiel deste ano - que infelizmente só acompanhei pela internet. Por todo o capítulo 9 e ainda até o final do 11, Paulo traz como tema a relação do judeu com o evangelho, de forma mais específica, e a relação da incredulidade do homem com a graça divina, de maneira mais geral. Sendo o capítulo 9 especificamente o que mais trata do tema da soberania divina quanto à sua escolha.

Muitos olham para a doutrina da soberania divina ou da predestinação, se for mais fácil para você identificá-la assim, de forma errada. Pensam que todo o que acredita que Deus faz essas escolhas de alguma forma se isenta da responsabilidade de anunciar o evangelho, pois uma vez que depende de quem Deus chama ou não, o anúncio se faz inútil. Ou vê essa tarefa como um trabalho já de antemão frustrado, pois depende de Deus e não de nós. Mas, ainda que acreditemos em outra coisa, não é o Espírito Santo que continua o responsável pelo crédito e eficácia da nossa mensagem?

Paulo nos dá um exemplo fenomenal de alguém que entendia ser da escolha soberana de Deus quem seria ou não salvo, mas que se dedicava de corpo e alma à tarefa de anunciar o evangelho. A maneira como ele começa o capítulo e ainda o 10, grita isso aos nossos ouvidos. Isso vai estender um pouco o texto, mas quero transcrever esses versos aqui. Seguem:

"Em Cristo digo a verdade, não minto (dando-me testemunho a minha consciência no Espírito Santo): que tenho grande tristeza e contínua dor no meu coração. Pois eu mesmo desejaria ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus compatriotas, segundo a carne."
Rm 9.1-3

"Irmãos, o desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para que se salvem"
Rm 10.1

Paulo desejava que se fosse possível, ele mesmo fosse separado de Cristo para salvar seus compatriotas judeus. E diz desejar e orar pela salvação deles. E entendemos que Paulo tinha como doutrina cristalina a eleição e a soberania divina, mas isso não o isentava de envolvimento emocional com o anúncio do evangelho e sua aceitação por parte daqueles a quem amava.

Você pode, como disse, entrar e sair daqui com o mesmo pressuposto. Mas não pode deixar de ocupar seu coração com a reflexão sobre a postura de Paulo quanto à pregação do evangelho, que é exemplo para nós. Por mais que Deus é quem faça suas escolhas e ele é quem credita a nossa mensagem - e até mesmo por isso, devemos anunciar o evangelho com todas as nossas forças e paixão. Assim como Paulo.

Que o Senhor nos ajude a sermos bíblicos, coerentes e apaixonados pela sua palavra, amando aqueles que ainda não o conheceram. E a pregar o evangelho com tanto sentimento e dedicação como entendemos fazer Paulo neste texto.

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