sábado, 5 de novembro de 2011

Rm 11: A pedagogia doxológica de Paulo (?)

Puxa vida... Que raio de título é esse!? Pois é, outro dia eu disse que não escrevia para teólogos e agora uso um título que mal eles entendem. Mas vamos aproveitar para aprender um termo interessante, se ainda não conhecemos. E só o usei por que ele se encaixou muito bem, você verá.

O termo grego "doxa" significa glória, majestade, poder, esplendor. Talvez o título que a sua tradução da Bíblia dá a algumas conclusões das cartas do Novo Testamentou e/ou ao trecho de Rm 11.33-36 seja doxologia. Em termos simples, significa que aquele texto está exaltando a Deus, glorificando-o. É um texto de louvor a Deus.

Terminando a leitura do capítulo 11 de Romanos, chamou-me à atenção o que Paulo acabara de fazer. Como disse aqui, no texto sobre o capítulo 9, o trecho de 9-11 é usado pelo Apóstolo para falar sobre a relação Israel / gentios. Paulo explica que os judeus tiveram de fato a primazia da fé e da graça, mas tendo rejeitado a mensagem do evangelho, ele foi passado aos gentios. Mas ensina isso com o objetivo de valorizar ainda o papel de Israel na salvação da humanidade. Rm 11.12 deixa isso bem claro:


"Ora, se a sua queda é a riqueza do mundo, e a sua diminuição a riqueza dos gentios, quanto mais a sua plenitude!"


Paulo entendia que todos acabaram sendo beneficiados por que Israel rejeitou a Cristo, mas também entende que o próprio Israel será restaurado posteriormente, que o Senhor não o rejeitou de vez. O propósito divino no endurecimento deles é a plenitude da revelação de Deus aos gentios (11.25). Após isso, o Senhor salvará Israel, diz Paulo (11.26), os enxertará novamente na árvore da qual foram cortados (11.23).

Após explicar detalhada e perfeitamente tudo isso aos romanos, Paulo encerra o trecho com a sua doxologia:

"Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como da ciência de Deus!
Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!
Quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?
Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado?
Porque dele e por ele e para ele são todas as coisas. 
Glória, pois, a ele eternamente. Amém."


Como isso nos ensina! Com paciência e dedicação paulo instrui aqueles a quem escrevia. Os romanos são vistos por Paulo como discípulos, por mais que ele ainda não os conhecesse pessoalmente (falei disso também aqui, caso você não se lembre ou não tenha lido). O Apóstolo traduz estes princípios complexos de forma simples para os seus leitores, fazendo uso de uma pedagogia e retórica incríveis. Consegue lhes expor muito com pouco, traduz o profundo de forma acessível. E então encerra com o texto acima.

A forma como Paulo ensina a este povo, dando no final de tal exposição a devida glória a Deus nos traz alguns alertas. Primeiro, toda a grandeza de tal ensinamento não se deve à sabedoria ou conhecimento de Paulo, mas a Deus. Segundo, a pedagogia, o ensino de Paulo aponta para a soberania de Deus. Os questionamentos "quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi se conselheiro?" e a afirmação "porque dele e por ele e para ele são todas as coisas" nos deixam isso claro. E com isso tudo, entendemos (mais uma vez) que Paulo não tinha outro objetivo com seu ministério e também especificamente com esta carta, que não fosse ministrar o evangelho com sinceridade e transparência e glorificar o nome do Senhor.

A carta que mudou o rumo da história, que influenciou determinantemente de Agostinho a Lutero dentre outros, foi escrita por alguém que creditava todo o mérito da grande obra que fez a Deus. Que o Senhor nos ajude a servi-lo como Paulo o serviu. Quer ensinemos, sirvamos, ministremos, preguemos, façamos ou deixemos de fazer; que reconheçamos que o Senhor é soberano e que tudo veio dele é para ele. "Glória, pois, a ele eternamente".

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