terça-feira, 29 de novembro de 2011

I Co 16 - Dois bons exemplos: o pastor e o rebanho

Terminou a primeira carta à igreja mais "complicada" do Novo Testamento. O Apóstolo Paulo encerra seu texto solicitando aos irmãos que separem uma oferta, que ele levaria à igreja de Jerusalém. E ele pede para que o façam com excelência, inclusive, orientando que cada um separasse o que pudesse no primeiro dia de semana, para que ele já encontrasse tudo pronto em sua visita. Então, faz alguns pedidos pessoais, que envolviam receber bem um irmão, enviar (financeiramente) outro para se encontrar com ele, e se despede. Uma despedida sucinta, bem diferente da de Romanos.

A pessoalidade da carta, o envolvimento emocional e relacional de Paulo com seus discípulos de Corinto, a dureza com a qual trata dos seus problemas e o amor demonstrado em todo o texto e em sua despedida, revela um ministério pastoral, de cuidado, extremamente maduro. Paulo tinha liberdade suficiente para exortar, chamar à atenção, elogiar, repreender, e tudo de forma que continuava a ser respeitado e querido pelos seus.

Faço duas reflexões ao terminar a leitura dessa carta tão dura e com tanto zelo demonstrado. Primeira, qual seria a minha reação se eu fosse uma ovelha/discípulo de Paulo, e fosse tão duramente repreendido? Já vi pessoas para quem bastou uma única repreensão do pastor para abandonarem o rebanho. A Bíblia condena duramente o homem que, repreendido, não cede. Diz que em determinado momento, esse homem será quebrantado sem que haja cura (Pv 29.1). Ovelhas de verdade sabem ser cuidadas, e a repreensão só existe onde há cuidado.

A segunda reflexão é sobre o papel do pastor. Se eu fosse pastor da igreja de Corinto, como reagiria ao seu comportamento? Se tomasse conhecimento de um relacionamento sexual abusivo de um jovem com a sua madrasta? Se o individualismo demonstrado no convívio comunitário anulasse a mensagem de amor do evangelho, como acontecia com eles na ceia? Se a igreja questionasse, sem razões plausíveis, meu ministério, dando ouvidos a qualquer outro que lhe contasse heresias? Possivelmente as ovelhas de Paulo lhe davam ouvidos por que ele sabia ser um bom pastor. A despeito de tantos problemas e desvios, Paulo os pastoreou com amor e paciência.

A carta desse pastor exemplar às suas ovelhas em tratamento termina com Paulo ministrando seu amor aos coríntios. "O meu amor seja com todos vós em Cristo Jesus", ele diz. E tudo termina mesmo bem, tanto que Paulo ainda escreve uma outra carta posteriormente, a qual começaremos a ler e aprender sobre no próximo post. Que sigamos os dois bons ensinamentos aqui: de sabermos ser cuidados e de sermos cuidadores / pastores responsáveis e dedicados.

domingo, 27 de novembro de 2011

I Co 15: A importância da doutrina correta

Praticamente o último assunto da primeira carta de Paulo a esta igreja. Após isso, ele apenas pede uma oferta para a igreja de Jerusalém e se despede. Aqui, ele trata de uma problema doutrinário que havia surgido em Corinto, quanto à ressurreição dos mortos e, consequentemente, da ressurreição de Cristo. Querendo aliar a doutrina cristã à filosofia grega, que negava ser possível que mortos ressuscitassem, os coríntios queriam acreditar que somente Jesus havia ressuscitado, mas que o mesmo não aconteceria conosco.

Paulo resiste a eles duramente. A mesma dureza no discurso que encerrou o capítulo 14 prevalece aqui, e não é sem motivo. Paulo argumenta logicamente que, se Jesus ressuscitou é por que existe ressurreição e pronto. Se quisessem apegar-se à filosofia grega, que se apegassem então à lógica aristotélica, que tornaria incoerente o pensamento excepcional sobre a ressurreição de Cristo.

A argumentação de Paulo é claríssima e diz que se Cristo não ressuscitou dos mortos a nossa fé é vã. E ainda que nós também ressuscitaremos, pois o corpo manchado pela corrupção do pecado não pode herdar a eternidade, que é incorruptível. Portanto, na ressurreição receberemos um novo corpo, sem mancha do pecado, para herdarmos a vida eterna com Deus. Os demais detalhes, exemplos e argumentos são mesmo claros no texto, dispensando maiores detalhes aqui. Mas quero ater-nos a outro ponto.

Este é o maior capítulo da carta. Nenhum outro assunto tomou tanto a atenção de Paulo, mesmo tendo ele tratado de questões graves e importantes também anteriormente. O caso do homem que abusou sexualmente da mulher de seu pai no capítulo 5, por exemplo, é um caso grave. A doutrina e os conselhos sobre o casamento no capítulo 7 e as orientações sobre as coisas sacrificadas aos ídolos nos capítulos 7 e 10, muito importantes. Mas nenhuma dessas questões foi tão tratada pelo Apóstolo quanto o problema da ressurreição.

Entendo que Paulo tinha em mente a gravidade de se ter uma doutrina corrompida de qualquer forma. Ele dedica tanto argumento e espaço no seu texto a esse problema por ele se tornar chave para a fé dos coríntios, pois caso eles cressem erroneamente, sua fé teria sido inútil. Uma fé verdadeira é baseada também numa compreensão correta da doutrina cristã, entende-se (15.14; 17). E aqui teço uma crítica a nós.

Como está o nosso conhecimento bíblico e doutrinário? Imaginei um gráfico outro dia e sei que o resultado surpreenderia a muitos. Qual a relação entre o seu tempo de conversão e o seu conhecimento bíblico/doutrinário? Ou entre o tempo que você frequenta alguma igreja e o seu conhecimento? Pois entendo pelo que posso ver das nossas igrejas hoje, que a doutrina não é tão valorizada quanto no exemplo de Paulo com a igreja de Corinto e no restante do Novo Testamento. Na primeira carta de João, por exemplo, um dos três pré-requisitos para se reconhecer a salvação na vida do crente é uma compreensão correta da pessoa de Cristo. E como está essa nossa compreensão?

Já disse isso aqui em outra ocasião, mas reforço: podemos estar sendo mais crentes do que cristãos, por nos faltar uma boa doutrina. Lembre-se das últimas mensagens que você ouviu ou ministrou, e identifique o que havia de doutrinário nelas. Se a resposta te for repreensível, repense seus valores  e referenciais, e avalie melhor o que você tem ouvido. Pois uma mensagem dita cristã vazia de doutrina não é uma mensagem cristã. Pode chamá-la de qualquer outra coisa, como auto-ajuda, confissão positiva, etc. Mas não mensagem cristã.

Quer uma fé madura e firme? Doutrine-se. Leia a Bíblia e a valorize. Não perca tempo com falatórios, mas ocupe-se da verdade de Cristo, como fazia Paulo. E que o Senhor nos acrescente a cada dia.

sábado, 26 de novembro de 2011

I Co 14: Por um culto melhor na igreja

Após tratar dos dons espirituais de forma ampla e dizer que o amor é superior a qualquer dom e ainda que valida qualquer boa prática que façamos, Paulo agora explica a razão de o dom de profecias ser superior ao de línguas, e fala sobre como estes dons devem ser usados na igreja para promover edificação em um culto organizado.

No verso 12.28 Paulo fez uma exposição de alguns dons. Entendemos que ele os classificou por ordem de importância. Leiam:

"A uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro lugar mestres, depois operadores de milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas."


A ideia de que eles estão dispostos em ordem de importância é reforçada pelo fato de começar com o ministério apostólico, que é o responsável por iniciar as igrejas e terminar no dom de línguas, que é o único que tem o objetivo de edificação pessoal. A lista começa no coletivo e depois caminha para exercícios de menor coletividade até que chega no pessoal. Experimente fazer uma análise do alcance coletivo de cada dom citado acima e você verá que os grupos alcançados vão diminuindo, até que a lista finaliza em governos/lideranças e no dom de línguas. Entendo que essas lideranças eram as exercidas já no seio da igreja.

E no capítulo 14, Paulo dedica os primeiros 25 versos a defender a superioridade do dom de profecia sobre o de línguas. Ele diz que através da profecia, o incrédulo pode testemunhar da grandeza de Deus (14.24-25), enquanto através do dom de línguas, ele apenas acharia que haviam loucos reunidos na igreja (14.23). Nos últimos versos, então, Paulo fala sobre como esses dons deveriam ser praticados no culto, o que podemos resumir da seguinte forma, para quem gosta de ser sistemático:


  • O dom de línguas só deve ser praticado na igreja se houver quem interprete o que está sendo dito. Caso contrário, aquele que possui o dom deve ficar calado ou falar somente entre ele e Deus. Não é permitido que todos falem em línguas ao mesmo tempo, mas que o façam no máximo dois ou três irmãos simultaneamente, ainda com intérprete. É, isso acaba com muitos cultos que conhecemos ou participamos por aí.
  • Sobre a profecia, também deve ser praticada ordenadamente. Devem falar no culto no máximo dois ou três profetas também, mas não ao mesmo tempo. E nem é válido alguém mais "radical" (nem era a melhor palavra) dizer que "não dá pra controlar quando Deus manda dizer alguma coisa". Os versos 14.31-32 dizem que os profetas devem falar e uns após os outros e que seus espíritos lhes são sujeitos, sendo possível sim, haver ordem.
Enfim, são essas as instruções bíblicas para o uso desses dons no culto. É claro que muitos, de maneira bem descarada, discordam do que está no texto. No texto bíblico, não no meu. Quantos evangélicos não criticaram os católicos noutro tempo, por apegarem-se à religião de seus pais e resistirem a uma mudança, mas agora apegam-se tanto às tradições pentecostais que aprenderam, que não conseguem se imaginar dando ouvidos a tais palavras do texto bíblico? Não conseguem, muitas vezes, imaginar seu culto sem os elementos que aqui são censurados, pois criaram uma "espiritualidade viciada".

Sei que muitos que não concordam com isso buscarão outras referências - que nem consigo imaginar quais seriam coerentes para se usar - e argumentarão de diversas formas. Para esses, entendo, Paulo escreveu os últimos 4 versos do capítulo:

"Saiu dentre vós a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós? Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor. Mas, se alguém ignora isto, será ignorado. Portanto, irmãos, procurai, com zelo, profetizar e não proibais o falar em línguas. Mas faça-se tudo com decência e ordem."

Paulo condena muito qualquer que se portar contra essas ordenanças. E reparem que o falar em línguas recebe uma ênfase no final dizendo para não proibir sua prática, mas permitir desde que seja praticado com ordem. Deve-se procurar profetizar, mas o falar em línguas é considerado como uma permissão. Lembremo-nos do que disse o verso 12.31: "(...) procurai com zelo os melhores dons (...)".

Que o Senhor nos dê prazer em obedecer a sua Palavra. Não nos apeguemos mais a um costume, por mais que seja comum, do que às suas ordenanças para nós. Não ignoremos sua Palavra, mas busquemos obedecê-la, mesmo que isso implique em rever práticas, conceitos e valores.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

I Co13: O capítulo sobre o qual eu não queria escrever

Sinceramente não queria mesmo escrever sobre este capítulo. Isso por que não me acho digno de fazê-lo. Tantas mentes brilhantes já lançaram seus olhos, coração e mente sobre este texto, que só de tentar já me parece ser um bocado arrogante. Portanto, o que escrevo aqui são apenas impressões que tentam, com muito custo, extrair e expor algo não-óbvio deste texto tão conhecido, profundo e explorado.

Gosto da divisão que Paulo faz do capítulo. Nos três primeiros versos, ele fala sobre algumas coisas muito nobres que poderiam ser feitas por ele, mas que se fossem feitas sem amor não teriam a mínima nobreza. Entendo com isso que a falta de amor pode fazer muitas coisas, mas que não valerão nada. Porém, o sujeito que ama de verdade não está desobrigado de agir, pelo contrário. O que ama se esforçará para ser entendido pelos homens e pelos anjos. O que ama buscará conhecer os mistérios e a ciência, e ainda uma fé relevante. O que ama terá os seus bens não como posses intocáveis, mas como instrumentos abençoadores em suas mãos. A presença do amor não anula a responsabilidade de agir, mas valida a ação.

Os próximos três versos, de 4 a 7, o Apóstolo fala sobre como é o amor. Você já buscou os antônimos das características do amor neste texto? Pois aí vão, como evidência da falta de amor na vida de alguém: impaciência, maldade, ciúmes, auto-estima supervalorizada, soberba, inconveniência (não é legal esse?), egoísmo, fácil irritaç ão, fácil chateação por causa do erro do outro (ou do mal cometido por outro), conformidade com a injustiça. Ainda, incredulidade, ausência de esperança e pouca capacidade de apoiar. Quantas características dessa longa lista fazem parte do nosso comportamento e/ou consequente do nosso caráter? Elas atestam que falta um bocado de amor em nós.

Nos últimos seis versos - quase a metade do capítulo, Paulo argumenta que o amor durará mesmo após as coisas que podemos considerar mais fascinantes. Imagine como era novo e importante para os cristãos daquele tempo (especialmente os de Corinto) os dons de línguas e de profecia. E ainda como era valorizado o conhecimento, pois Corinto era extremamente influenciada pela filosofia grega. E Paulo diz que tudo isso passará, mas ainda permanecerá o amor.

E conclui dizendo que permanecem na nossa vida três coisas: fé, esperança e amor. Não sem intenção, são as três últimas características que ele disse fazer parte do amor. Confira lá no final do verso 7 e no penúltimo parágrafo acima. Essas três coisas importantes e fundamentais têm uma que carrega maior importância, que é o amor. A fé, um dia, alcançará o seu propósito. Pois não está a nossa fé no Filho de Deus, e no fato de que viveremos com ele eternamente? Pois um dia isso se cumprirá e a fé não mais será necessária. Não precisamos esperar com paciência até que esse dia chegue, suportando as dificuldades do nosso tempo e fortalecendo diariamente nossa esperança? pois um ela será satisfeita, também quanto estivermos com ele, e não precisaremos mais esperar por nada.

Mas o amor, ainda que tudo se cumpra, continuará sendo a base do nosso relacionamento com Deus, da nossa vida eterna, do nosso relacionamento com os irmãos que também viverão eternamente conosco. É o amor que nos conduzirá à eternidade, e esse amor será demonstrado até aquele dia através do nosso amor para com os irmãos. O amor motivou o sacrifício de Cristo e nos motiva a perseverar na caminhada. O amor dá sentido à nossa vida, pois se não amarmos ninguém nos tornaremos pessoas amargas. O amor é o vínculo, o elo da perfeição: sem ele jamais seremos perfeitos.

Viver uma vida de amor nada mais é do que reconhecer e buscar retribuir com esse sentimento - que começa com uma decisão racional de escolha, o que Deus fez por nós. Amemos de verdade!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

I Co 12: Sobre os dons espirituais

Outro capítulo tão prático e tão cheio de orientações que fica difícil comentá-lo. Vou fazer uma opção um tanto rara e sistematizar alguns princípios que aprendo nele. 

1 - 12.1: A ação do Espírito começa quando ele encontra liberdade para dirigir a vida do crente. Ninguém receberá dons espirituais antes que o Espírito tenha domínio á sobre a nossa vontade carnal.

2 - 12.2-3: Ainda antes dos dons espirituais, o Espírito leva-nos a reconhecer o senhorio de Cristo e nos conduz a adorá-lo por isso. Se temos em nós a capacidade para as duas atitudes citadas, ela vem do Espírito Santo.

3 - 12.4-7: Os dons espirituais são distribuídos de diferentes formas, de maneira não-lógica, conforme a vontade do Espírito. Ele os distribui conforme sua vontade e para o uso na edificação da igreja; cada um recebe o dom que lhe puder ser útil nesse objetivo.

4 - 12.8-11: Há dons diversos, todos concedidos pelo mesmo Espírito. No texto em referência, entendemos que Paulo os coloca, inclusive em ordem de importância. Uma passagem mais adiante, que também será citada, e o capítulo 14, dentre outras referências fora de I Coríntios, nos fazem entender isso.

5 - 12.12-26: O Espírito unifica a igreja, fazendo de cada membro parte do corpo de Cristo, significando que todos têm sua importância em sua devida função. O exercício dos dons reflete também a funcionalidade de cada parte do corpo nessa analogia de Paulo. Cada cristão deve entender que pertence ao corpo de Cristo, sendo co-responsável pela saúde e integridade de todo o corpo, independente de qual membro represente nesse conjunto.

6 - 12.27-31: É esta a passagem que se refere à importância dos dons espirituais. No capítulo 14, Paulo falará especificamente da superioridade do dom de profecia em relação ao dom de línguas. E aqui ele nos orienta no verso 12.31 a buscarmos cuidadosamente os melhores dons. A ordem de importância parece ser determinada de acordo com a intensidade com a qual o dom beneficia o próximo: a lista começa com o apostolado (dom encerrado, visto que biblicamente não podemos ordenar/consagrar/chamar a nenhum outro assim), passando pela profecia e pelo dom de ensino, até chegar no dom de línguas e de interpretação dessas, os quais Paulo colocará em posição de menor importância logo a frente.

A razão de tão longa e detalhada explicação era mais um problema coríntio: uso desordenado dos dons na igreja, em especial na hora do culto. Isso será tratado com detalhes adiante, mas aqui Paulo faz uma introdução ao tema com tais explicações.

Observemos que uma característica importantíssima permeia toda a explicação paulina: o Espírito promove a unidade, como fez em Pentecostes, unificando as línguas (At 2), e edifica a igreja através da atividade de cada membro. E os dons são distribuídos de acordo com o interesse do Espírito em usar a cada um para cumprir estes propósitos. Não há ou não deve haver vaidade no exercício dos dons espirituais, pelo contrário. Cada um é usado por Deus ao praticá-los, estando apenas no papel de servo ao fazê-lo..

Como orientou o Apóstolo, busquemos com zelo os melhores dons. Eles são recursos de Deus para nós o servirmos e à igreja de forma mais excelente. Mais interessado, certamente, é o Senhor em nos conceder tais dons do que somos genuinamente interessados em obtê-los. Que o Senhor ache liberdade em nós para conceder-nos tais dons e usar-nos conforme sua soberania.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

I Co 11: Por que a Ceia do Senhor estava errada?

Se você é cristão evangélico, principalmente, já viu seu pastor lendo o texto de I Co 11, a partir do verso 17 ou do 24 no dia da Ceia do Senhor. É texto áureo para este ritual, e é interessante saber que ele foi escrito para dar forma à uma exortação. A igreja de Corinto estava errando ao celebrar essa ocasião, pois havia algumas práticas estranhas no meio deles.

Primeiramente, Paulo já faz uma crítica dura no verso 20. Ele diz que quando os coríntios se reúnem "não é para celebrar a Ceia do Senhor, pois quando comem, cada um se apressa a tomar a sua própria ceia. Assim um tem fome e outro se embriaga".

A Ceia era celebrada diferentemente de como o fazemos hoje. Cada um levava um alimento e todos deveriam repartir do que levavam, confraternizando-se. Porém, como havia naquela igreja muitas pessoas de classes sociais diferentes, acontecia de uma pessoa com maiores recursos levar uma quantidade mais generosa de alimento, enquanto outra com menos levava pouco ou nada. Então, cada um comia o que havia levado, havendo quem se fartasse e quem voltasse para casa com fome. A repreensão se Paulo nos versos seguintes é dura.

As desigualdades sociais, infelizmente, sempre existirão. Jesus mesmo disse que sempre teríamos os pobres conosco, sempre haveria a quem pudéssemos ajudar. E vemos como isso é verdadeiro. Mas no momento da ceia, e podemos até entender que no contexto geral de convivência da igreja, essas desigualdades não deveriam se sobressair. Assim como todos somos iguais aos olhos do Senhor, deveríamos ser também perante a congregação e perante os que olham para dentro da igreja. A primeira carta de João diz que seríamos reconhecidos como filhos de Deus por causa do amor que temos uns pelos outros. E se os de fora virem em nós ao invés de amor, discriminações na nossa própria liturgia?

O livro de Atos diz que a igreja daquela época, nesse caso especificamente a de Jerusalém, tinha todas as coisas em comum, de forma que ninguém considerava propriamente sua coisa alguma. E não havia necessitados no meio da igreja (At 4.32-37). Esse deve ser um objetivo para alcançarmos em comunidade. Há poucos dias celebramos a Ceia do Senhor na Missão Getsêmani Pedro Leopoldo. Eu sabia que havia uma família passando necessidades, que havia chegado à congregação há pouco. Oramos, mantendo a discrição, durante a própria ceia por aquela família. E o auxílio para ela já estava sendo providenciado.

A nossa congregação - aqui no sentido mais literal do termo, não pode promover a desigualdade em sua prática. O mundo já faz esse papel com excelência, não precisa de reforços. O problema é que não estamos, na maioria das vezes, dispostos a abrir mão do que consideramos nosso. E aí está a nossa diferença daquela igreja que, até aquele momento na narrativa, era mostrada como uma igreja padrão (At 1-4). Consideramos sim, por direito, cada conquista material, cada centavo suado, nosso por direito. E que ninguém diga o contrário, pois "foi o Senhor quem deu"!

A ceia na igreja de Corinto foi reprovada por promover a desigualdade. O modelo ideal, portanto, deve promover o contrário. O modelo ideal é aquele que, ao celebrar o corpo e o sangue de Cristo, faz lembrar que na cruz ele pagou pelos pecados de todos, colocando-nos, sem exceções no mesmo lugar: de pecadores carentes de graça e alvos de seu imerecido amor.

Que nossa ceia, nossos cultos, reuniões de oração e toda a nossa liturgia e prática de vida anuncie o contrário do que o mundo anuncia. Aceite esse desafio como um objetivo de vida. Se a Bíblia nos orienta a tal, o Senhor se agradará e estará conosco. Anuncie com sua própria vida, entrega e desapego o que o Senhor comprou com sangue na cruz. Que promovamos seu amor na prática.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

I Co 10.22-33: A soberania de Cristo, a liberdade e a mística

O texto citado no título retoma o tema do capítulo 8, no qual Paulo falou sobre comer ou não comer carne, devido ao possível escândalo de algum irmão. Aqui, porém, um princípio está mais claro: toda a terra e todas as coisas são do Senhor.

Muitos, como diria um pastor amigo, acabam dando muita coisa ao Diabo sem que ele mereça. Há algum tempo disseram que o Diabo era o pai do Rock'n Roll. Aqueles que evangelizaram o Brasil, num primeiro momento, demonizaram também a nossa música, o que nos fez pensar por muito tempo que o simples fato de tocar alguma percussão, como o atabaque ou o bongô, já era pecado por si só.

Este texto do capítulo 10 de I Coríntios afirma nossa liberdade. O verso 10.26 diz que "a terra é do Senhor, e toda a sua plenitude". E ainda incentiva todos a, quando forem ao mercado, nada perguntarem sobre a carne ser ou não sacrificada aos ídolos, mas comprar calado e fazer bom proveito daquilo, a não ser que tal atitude possa prejudicar a fé do irmão. Como Paulo já disse no capítulo 8, o ídolo nada é e aquilo que é consagrado a ele muito menos.

Outro dia disse a um irmão que não tinha problema algum comer os doces oferecidos no dia de São Cosme e Damião, por exemplo, pois Satanás não havia comprado as fábricas de doces para si. Ainda é possível seguir as Escrituras e receber tal alimento com ação de graças, e certamente toda maldição será definitivamente quebrada ao consagrarmos aquilo ao Senhor.

Essa teologia que demoniza tudo, creio eu, está em busca de um vilão para culpar por nossos problemas, e o pobre do Diabo sofre nas mãos de crentes... Muitas vezes o acusamos de fazer algo, mas ele poderia nem saber do que se trata.

Somos chamados à liberdade. Contaram-me recentemente sobre uma carta que alguém mandou para o Missionário R. R. Soares, perguntando se era pecado tocar tambores na igreja. Ele disse que não, que se fosse assim, não poderíamos também comer nenhuma galinha preta, já que também é usada no espiritismo. Reforçando, toda a Terra é do Senhor. E nós somos seus herdeiros, filhos e servos. Podemos usufruir de tudo o que ele criou, sem medo.

Precisamos desmistificar alguns pontos da nossa fé. O Diabo acaba levando crédito pelo o que não merece e nós, criando empecilhos para quem quer ter uma fé simples e genuína. Que o Senhor nos dê discernimento e que pautemos nossa prática na sua Palavra, não em qualquer tradição infundada ou "achismos".

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

I Co 9: Dedicação integral ao ministério - o exemplo de Paulo

Este capítulo de I Coríntios contém uma das advertências mais difíceis que Paulo precisou fazer, na minha opinião. Devido a alguns questionamentos surgidos na igreja, Paulo precisa lembrar às suas ovelhas sobre o direito que ele e os demais apóstolos tinham por viverem em dedicação total ao ministério. É como um pai que precisa lembrar ao filho quem manda em casa, como se isso não fosse óbvio. E o Apóstolo não precisou fazer isso uma única vez. Em outras cartas ele tem que reforçar também sua autoridade e direitos. E estamos falando do Apóstolo Paulo...

Podemos dividir o capítulo em 3 partes: na primeira, ele expõe quais são os direitos dos apóstolos (9.1-11); na segunda, fala sobre sua postura em relação a esses direitos (9.12-17) e na terceira, sobre sua determinação, disciplina, responsabilidade e entendido dever de pregar o Evangelho.

O ponto que mais me chama a atenção é o segundo. Conseguiria imaginar facilmente muitos ministros de hoje reproduzindo a primeira parte do discurso e talvez a terceira, mas a segunda seria algo muito inusitado. O exemplo de Paulo é o de alguém que, tendo muitos direitos por exercer o ministério que exercia, abria mão de todos. Conscientizava sua comunidade desses direitos, pois outras pessoas seriamente dedicadas usufruíam deles, mas não fazia uso dos mesmos. Veja o que dizem os versos 8.14-15:

"Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho. Mas eu de nenhuma dessas coisas usei. E não escrevi isto para que assim se faça comigo. Melhor me fora morrer, do que alguém fazer vã esta minha glória."


O que vemos hoje são pessoas que fazem muita questão desse direito e que, as vezes, até têm por objetivo ministerial alcançar legalidade para usá-lo. Vejo isso acontecer, por exemplo, com os que muitos chamam de "ministros de louvor", o que sinceramente, no caso que cito aqui, não reconheço como tais. Posso chamá-los de artistas do mercado evangélico, mas não mais isso. Ou você consegue achar justo que alguém receba, no Brasil, uma "oferta" de R$ 25.000,00 por uma "ministração" de louvor? Num contexto de desigualdade social como o nosso, o ministro não deveria colaborar com essa situação, mas sim lutar para erradicá-la.

O nosso país se orgulha de ter atingido em 2010 um PIB per capita de US$ 10.000,00 (anuais). E sabemos que isso não reflete a renda da maioria da população, pois trata-se de uma média do país todo. Mas parece que os ministros foram, em algum momento da história, cegados para a consciência de que a igualdade de direitos deve ser objetivada e propagada, mesmo num contexto capitalista. Mas vejo que é querer demais, por algum motivo que desconheço ou que prefiro não reconhecer.

Paulo trabalhava com as próprias mãos para sustentar seu ministério. Ele fabricava tendas e com isso não era financeiramente pesado para igreja alguma. E eu não acredito que essa postura prejudicou sua dedicação. Paulo viajou naquela época, pregando o evangelho, mais do que a maioria de nós hoje, com muito mais facilidades de transporte, viajaremos em toda a vida. A diferença é que Paulo tinha a pregação do evangelho como total prioridade, para a qual não deveria limitar nenhum recurso ou esforço.

Se queremos nos dedicar ministerialmente, por que não tomamos como exemplo o ministério de Paulo? Que o Senhor nos ajude a, assim como o Apóstolo, sermos dedicados, sinceros, coerentes e honestos.

domingo, 20 de novembro de 2011

I Co 8: Conhecimento, liberdade de consciência e a fé do próximo

Paulo começa este capítulo com uma fala que merece destaque, antes de aprofundarmos no tema geral do texto. Diz:

"Ora, no tocante às coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que todos temos ciência. A ciência incha, mas o amor edifica."


Ora, Paulo vai tratar sobre a postura que os coríntios deveriam ter a respeito de um tipo de alimento que alguns consideravam impuro. Ele começa dizendo que a todos sabiam do que era correto, mas que só isso não bastava. A ciência, o conhecimento, incham, mas só o amor edifica. E o que é um inchaço no corpo? É uma retenção anormal de líquido entre os vasos sanguíneos e o tecido da pele/células, que dá ao local atingido um volume que ele normalmente não tem. Nesse sentido, entendo, Paulo usa essa analogia: o conhecimento faz alguém parecer ter importância, se destacar, ser maior que os demais. Mas não passa de um inchaço... Só o amor constrói algo relevante, verdadeiro.

Continuando com o tema do texto...

Na época que Paulo escreveu esta carta, era comum os açougues venderem carnes que eram refugos dos templos pagãos. Os animais eram sacrificados nos cultos e as carnes que ainda poderiam ser consumidas eram repassadas à população. Em I Co 10.22-33 o Apóstolo retoma esse tema e diz que deveria se comer de tudo o que era vendido no açougue sem questionar a sua origem, para não contaminar a consciência (10.25).

No capítulo 8, Paulo reconhece que está escrevendo para pessoas que ele entende terem uma consciência e fé maduras, que entendem que o ídolo não é nada no mundo (8.4). E que diferença faz um ídolo? Um de madeira, por exemplo, é somente um pedaço de madeira, sem poder espiritual, relevância para a fé ou poder de influência algum. Não é nada. Mas nem todos tinham esse conhecimento (8.7), e ao lidarem com as coisas que antes foram sacrificadas aos ídolos contaminavam sua consciência.

A recomendação do Apóstolo, então, é que a liberdade de quem tem o conhecimento e a consciência tranquila para comer de tudo não fira a fé de quem não tem. Não é a primeira e nem a última vez que ele faz uma recomendação como essa. Paulo tinha a inabalável certeza de que fazer tropeçar a fé do seu próximo era desagradar diretamente a Deus (8.12). Ele termina o texto dizendo que se comer carne fizer tropeçar o seu irmão, ele nunca mais comeria.

Conseguimos aplicar essa situação muito facilmente ao nosso contexto. Quantas vezes eu não vi pessoas que julgavam ter um conhecimento maior que outro e por isso, ao invés de submeter-se à fé do mais fraco (ou daquele a quem o sujeito julgava ser mais fraco que ele), subjugava-o? Alguns consideram diferentemente questões como guardar um dia específico da semana para o Senhor, ouvir determinadas músicas, comer alimentos específicos, fazer ou não fazer isso ou aquilo.

Percebem que, perto da importância que tem uma fé sincera e uma entrega verdadeira a Cristo, qualquer questão de "pode ou não pode" ou deve-se ou não fazer alguma coisa, é muito pequena? Não passam, na maioria das vezes, de um fútil legalismo, cujo fim é dizer que quem faz ou deixa de fazer tal coisa é melhor ou pior do que outro. E Cristo nos faz todos iguais, por causa de sua graça, e o somos também por causa do nosso pecado. Portanto, criar padrões de comportamento que acabam nos diferindo dos demais é anular a graça de Deus e reconhecer um mérito que não temos. Ô, legalismo problemático!

Submetemo-nos a Deus e tenhamos uma fé sincera, que considera a fé do próximo em alta estima. Essa é baseada no amor que edifica e não no conhecimento que incha. E certamente agrada a Deus.

sábado, 19 de novembro de 2011

I Co 7: O valor e as potencialidades do casamento

Este capítulo é tão profundo e completo, que fazer opção por falar apenas sobre um trecho é ser muito injusto com o texto. Para não cometer tal pecado interpretativo, resumo o texto e três pontos principais, que o abraçam todo:

1 - 1.8: O casamento é o instrumento de Deus para que nossa sexualidade permaneça no eixo. A sexualidade do casal deve ser exercitada constantemente, sem que qualquer das partes prive a outra do sexo. Nenhum dos cônjuges é mais, após o casamento, senhor do próprio corpo, mas agora servem ao parceiro com ele.

2 - 9.-23: O casamento não deve ser dissolvido. Uma exceção mostrada aqui é o caso do abandono do cônjuge cristão por parte não cristã. Neste caso, o cristão não está preso ao outro mais. Paulo também recomenda que cada um deve permanecer em Cristo como foi chamado: se converteu-se casado, continue casado, se solteiro, da mesma forma. Mas isso não é mandamento universal, mas recomendação pessoal de Paulo - e do Senhor, claro.

3 - 24-40: O casamento é bênção de Deus para o homem, mas exige dedicação tal que divide aquele que serve a Cristo entre a atenção ao casamento/cônjuge e o cuidado da obra de Deus. O casamento requer uma dedicação tão grande e é tão importante, que Paulo entende que o casado deve "cuidar das coisas do mundo, de como agradar à esposa/marido" (33-34, recorte).

Percebam que o casamento é de tal forma valorizado pelas Escrituras que é a única exceção que nos tira da entrega total à obra de Deus. A Palavra de Deus prevê que o sujeito deve entregar-se ao casamento para fazer o cônjuge feliz, mais do que cuidar das coisas de Deus. Não é uma valorização muito grande da parte do Senhor?

Isso por que a família não tem preço para Deus. O Senhor começou a criação formando uma família: Adão e Eva eram marido e mulher e tiveram filhos que passaram também a relacionar-se com o Senhor e todos conhecem o restante da história. Para ilustrar a relação e o amor de Cristo para com a igreja, o Senhor compara Jesus com o noivo e a igreja com a noiva. Hoje, os dois estariam em clima de casamento, aguardando ansiosamente a oportunidade de se encontrarem e unirem-se definitivamente.

Tendo tudo isso em mente quero propor uma reflexão simples. Quantos nunca havíamos levado a sério o casamento e passamos a fazê-lo ao conhecer a Cristo verdadeiramente? Se isso não aconteceu ainda com alguém, deve ser motivo de preocupação, pois o casamento é uma bênção de Deus. Mas gostaria que observássemos alguns princípios, que vou expor excepcionalmente de forma sistemática para ser mais sucinto:

1 - O casamento é a ferramenta de Deus para colocar limite na nossa sexualidade. Ele é a vazão que encontramos para nossos desejos, sendo o casal responsável pela satisfação sexual mútua. Um casamento sexualmente sadio santifica os cônjuges, pois os limites da sexualidade são ali satisfatórios a ambos.

2 - O casamento, uma vez consumado, não é passível de ser revogado. Casa-se uma vez e dedica-se à tal união durante toda a vida. Por isso, antes de qualquer um realizar o sonho de se casar, deve priorizar o sonho - ou criá-lo - de ser feliz e de completar algum outro. Uma união baseada na auto-satisfação está fadada ao fracasso. Cada cônjuge vive em prol do outro.

3 - Não devemos desprezar que a Bíblia nos antecipa que o casamento nos trará "tribulações", como trata o último trecho do capítulo. E que Paulo nos recomenda a não nos casarmos para dedicarmo-nos ao Senhor. Como nunca conheci alguém que tenha recebido tal dom (esse ninguém busca, né?), entendamos que ao casar, o sujeito aceita as consequências, limitações e problemas que o casamento o trará.

4  e último: Agora, falo um pouco mais pessoalmente. Um casamento construído debaixo dos padrões de Deus é o maior instrumento que eu já vi para fazer alguém realizado, feliz e completo. Assim como a única exceção dada pelas Escrituras que seja digna de dividir a nossa dedicação ao Senhor, vejo que o que o casamento pode proporcionar ao homem também só é comparado ao que o Senhor é capaz de realizar em nós. Tamanha satisfação e completude só encontra semelhança em Cristo.

Valorizemos o casamento como o Senhor o valoriza. Busquemos construí-lo com temor de Deus, sabedoria, paciência e dedicação. Um casamento saudável gera saúde também nos cônjuges. Mas, ainda falando pessoalmente, nunca vi um sujeito mal casado ser feliz. Mas o marido/esposa que achou um cônjuge fiel e ajudador, é mais feliz e completo, e acha forças no outro para passarem juntos por qualquer coisa.

Meu amigo, não despreze o casamento. Não se apresse em construí-lo, mas faça-o com cuidado e cautela. Está namorando e não tem certeza se será capaz de ser feliz e de levar felicidade ao outro? Na dúvida, não se case. Você será mais feliz com a dúvida do que com um casamento ruim. Busque ao Senhor, o que é solteiro, para começar bem. E o casado, como eu, para conservar a saúde do casamento - ou para trazê-la ao relacionamento. O Senhor é o maior e primeiro interessado nisso, e certamente ajudará a cada um.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

I Co 6.13-20: O cristão e o desejo sexual

Paulo trata na segunda parte de I Co 6, dos versos 13-20, sobre a incompatibilidade que há entre o cristão e uma vida sexual impura. Entende-se como vida sexual correta aos olhos de Deus aquela que é mantida entre cônjuges oficialmente unidos, ou seja, através do casamento. Nestes versos, o Apóstolo diz que não devemos unir os nossos corpos ao de uma prostituta, mas unir o nosso espírito ao do Senhor. Pois ou seremos um com Deus ou com aquele a quem nos entregamos sexualmente de forma indevida (6.15-17).

A forma mais íntima que podemos nos relacionar com alguém é a sexual. E infelizmente, é também a mais banalizada. Nem preciso lembrar aqui como a sexualidade é exposta e trabalhada pela mídia afim de conquistar o gosto dos consumidores para determinado produto ou mesmo de movimentar a indústria pornográfica, que gira milhões por ano.

Para fazer um pequeno "parênteses", você já percebeu como é cruel o uso da sensualidade pela mídia? Quando vemos uma imagem sensual temos o nosso instinto mais forte e primitivo despertado por ela. ao associar este tipo de imagem a um determinado produto anunciado, a intenção é de que inconscientemente façamos uma ligação entre o quase-incontrolável desejo sexual e aquele produto, para que passemos a desejá-lo com tanta intensidade como desejamos satisfazer aquele desejo.

O Senhor e Paulo reconhecem que não é fácil controlarmos nossos impulsos sexuais. Tanto que ao começar este trecho do texto, Paulo faz uma analogia entre o corpo e a prostituição com o estômago e a fome. Tanto desejamos o sexo como desejamos comer, trocando em miúdos. Mas Deus, que nos comprou por alto preço em Cristo, que nos fez santuários do Espírito Santo, é o primeiro interessado em nos fortalecer para vencermos as tentações do sexo.

Já fui preso à pornografia antes de conhecer a Cristo. Fui liberto, com muito custo, quando tomei atitudes radicais que me afastassem desse pecado e decidi buscar a Deus, jejuando incansavelmente até que tivesse certeza de não mais estar preso a essa cadeia. E o Senhor me ajudou nisso com excelência. Continuei a caminhada cristã, conheci minha esposa e nos casamos virgens, já aos 26 anos. Não tenho a arrogância de ver mérito meu ou dela nesse fato, mas do Senhor que nos deu forças e preservou.

O nosso corpo é para o Senhor e devemos glorificá-lo com ele (6.19-20). Na hora certa, o sexo nos trará um prazer puro e bom, sem o "brinde" da culpa. Na hora certa, não satisfaremos apenas um desejo carnal, mas haverá uma completude de corpo e alma, envolvendo a satisfação sexual e emocional, e com a aprovação de Deus, que sabe o que é melhor para nós e assim nos orienta para nosso próprio bem.

Se você que lê este texto tem alguma dificuldade nessa área, saiba que não está sozinho. Enquanto escrevo essas palavras oro por você, para que encontre força no Senhor e consiga ser liberto por ele. Seja radical na sua decisão de não se contaminar, não se prostituir, não se envolver com a pornografia, a masturbação, a sensualidade. E o Senhor demonstrará o seu favor aliado à tua determinação. Que Deus nos abençoe e santifique. Que preservemos puro o Templo do Espírito Santo, que é o nosso corpo.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

I Co 6: Um mandamento louco: sofrer prejuízo

Uma coisa que a Bíblia consegue fazer com facilidade, ao meu ver, é nos orientar a ter posturas loucas. E os exemplos são muitos e clássicos, como amar os inimigos, dar para receber, ser o menor para ser o maior, servir ao invés de ser servido, preferir honrar o outro que a si mesmo, etc. E o capítulo 6 de Coríntios dá outra orientação louca dessas: sofrer a injustiça.

O capítulo começa criticando os coríntios por buscarem tribunais comuns, fora da igreja, para resolverem qualquer questão de litígio entre si. Paulo os critica duramente e questiona se não há sequer um sábio entre eles capaz de julgar as coisas dessa vida sem que seja necessário levar tudo perante um juiz secular. De acordo com o Apóstolo, essa prática não é recomendável. Ele não esclarece o motivo, mas podemos inferir que seja um mau testemunho para os de fora. Além de ser uma atitude que dá valor em excesso às "questões dessa vida", como diz o verso 6.3.

A orientação "estranha" de Paulo está no verso 7. Vale a pena transcrevê-lo:

"Na verdade já é realmente uma falta entre vós, terdes demandas uns contra os outros. Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sofreis antes o dano?"


É melhor, segundo o texto, que soframos um prejuízo de algum irmão do que levemos qualquer questão para fora da igreja e assim corramos o risco de envergonhar o nome do Senhor. É óbvio que este texto deve ser lido e deve orientar a prática daquele que já sofreu algum prejuízo e nunca daquele que causou. O que causou o prejuízo, claro, deve fazer de tudo para ressarcir, recompensar aquele que sofreu.

Aliás, é outra crítica presente no texto: ao invés de os irmãos sofrerem a injustiça, eles próprios a cometiam. E então a situação era ainda pior. Paulo diz tudo isso e termina a primeira parte do capítulo 6 dizendo que os injustos e outros tantos tipos de transgressores não herdarão o reino de Deus. E lembra aos coríntios que muitos deles eram tais tipo de transgressores, mas que agora havia sido lavados por Jesus.

Nenhum de nós tem prazer na prática ditada pelo texto. Ou alguém aí gosta de sofrer prejuízo? Mas devemos saber o que é prioridade para o Senhor ao resolvermos nossas questões. É melhor que quem seja lesado? Eu, ou o nome do Senhor? Portanto, que o texto sagrado, mais uma vez, guie nossa vida. Contemos com Deus para nos auxiliar, pelo seu Espírito, a agirmos conforme lhe agrada.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

I Co 5: O pecado não pode ser tolerado

Os treze versos do quinto capítulo de I Coríntios ensinam-nos sem a mínima necessidade de explicação ou interpretação criteriosa, ao menos para nos passar o principal. O texto é muito simples e direto, dada a seriedade do assunto que Paulo trata ali.

Ele escreve recomendando à igreja que expulse de seu meio um irmão imoral, que havia abusado sexualmente da mulher de seu próprio pai. Paulo diz que tal sujeito deveria ser "entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito se salvasse no dia do Senhor Jesus".  O que não poderia ser de maneira alguma tolerada era a soberba dos Coríntios, que aparentemente estavam considerando a si mesmos uma igreja madura, mas que provava o contrário tolerando pecado em tal nível.

Paulo justifica a dureza de sua recomendação (ou ordem) dizendo que um pouco de fermento seria suficiente para levedar a massa toda, portanto, para não contaminar o restante da igreja, o irmão de comportamento indevido deveria ser retirado do convívio da comunidade. A dureza de Paulo é totalmente compreensível. Ele não estava sendo duro com alguém que cometeu um pecado por acidente, mas sim contra alguém que, voluntariamente, deu lugar a carne a ponto de abrir mão de seus principais princípios, valores e família. Contra alguém para quem nada mais importava, mas ainda assim insistia em ser tratado na igreja como um igual.

Já quase no final do capítulo, o Apóstolo ainda complementa sua observação, dizendo que os irmãos não deveriam associar-se com aqueles que, dizendo-se da fé, fossem devassos, avarentos, idólatras, maldizentes, beberrões ou ladrões. Paulo diz que com esses não devemos sequer fazer uma refeição. E temos que concordar, pois aquele que se julga cristão, representante da verdade do Evangelho e adepto de uma prática baseada nos mandamentos de Deus, deve demonstrar isso principalmente com suas atitudes.

Paulo demonstra um misto de dois sentimentos: cuidado pela igreja e intolerância ao pecado. O irmão seria retirado para preservar o restante do corpo, como se faz com uma fruta podre na caixa. E mesmo sua exclusão tinha o objetivo de salva-lo no final, ou seja, não era punitiva, mas corretiva em último grau. Esta atitude de Paulo é a mais grave demonstrada no Novo Testamento para reagir ao pecado de um um membro da igreja. Assim, a exclusão deste irmão demonstrava o cuidado de Paulo com a igreja, inclusive com o irmão. E tudo se daria dessa forma por que o pecado não pode ser tolerado, tanto em nossa vida pessoal como no seio da igreja.

É muito comum muitos de nós agirmos ao contrário do que Paulo recomendou e, ao invés de mortificarmos nossa carne para o pecado, ficarmos como zumbis espirituais dentro da igreja: não estamos mortos (para o pecado) e nem vivos para Cristo. Não decidimos de verdade entre o caminho perfeito e de santidade pregado por Jesus e a satisfação das nossas vontades. Queremos ser salvos no último dia? Matemos a nossa carne. Crucifiquemo-nos com Cristo, e assim com ele também viveremos. Que nosso zelo com a igreja, exemplar em Paulo, comece com o zelo pela nossa santificação e salvação.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

I Co 4: Apóstolos de verdade X Apóstolos de hoje

O título deste texto já anuncia uma fala um tanto ácida, eu sei. E tendo em vista o que foi tratado ontem também no devocional sobre a matéria da Record a respeito do pentecostalismo, já fico vigilante para que os textos aqui não sejam muito críticos, mas mais devocionais mesmo. O de hoje traz também uma crítica devido à clareza e objetividade do texto bíblico a respeito deste tema, mas isso não se tornará regra para nossa leitura aqui, ok? Nosso objetivo é outro.

No terceiro capítulo Paulo fala sobre as divisões que surgiam na igreja por grupos que eram parciais às posições de diferentes de líderes. Também afirma qual era de fato o papel de cada um desses pregadores, que é o de construir sobre o firme fundamento já posto, Cristo. No capítulo quatro, então, Paulo fala sobre o que é exigido dos apóstolos, ainda mais um pouco sobre seu papel e da relação da igreja de Corinto com eles, aplicando principalmente essa relação a Paulo, que era apóstolo, e a Apolo, seu ajudador.

Os apóstolos devem ser considerados como aqueles encarregados de entregar a revelação de Deus em Cristo aos homens, e devem ser achados fiéis nesse exercício (4.1-2). O julgamento de seu trabalho bem como a recompensa por ele não cabe a ninguém, nem mesmo a eles próprios, diz Paulo, mas a Deus e no momento certo (4.3-5). Então, o Apóstolo fala sobre a posição em que se encontravam os apóstolos em relação à igreja de Cristo e à de Corinto, especificamente.

Paulo diz que eles foram colocados por Deus como que por último em questão de prioridade, que foram postos como que condenados à morte por amor e cuidado da igreja de Cristo. Os versos 9-13 deixam isso bem claro. Paulo, que havia fundado a igreja de Corinto e se considera pai deles na fé, diz que ele mesmo é posto como desprezível, enquanto a igreja é considerada ilustre, como louco e eles sábios, como fraco e eles fortes. Diz que os apóstolos eram, ainda pelo zelo com a igreja, injuriados, perseguidos, difamados, vítimas de sofrimento, tratados como lixo e escória do mundo. E de fato, eles eram considerados loucos, levantadores de motins e pregadores de uma falsa religião por muitos. Tanto que todos morreram como mártires, com exceção de João, que sofreu morte natural - enquanto estava preso.

Eu imagino a expressão no rosto de qualquer cristão sincero daquela época, quando o assunto era a vida de qualquer dos 12 apóstolos. Sabe aquela cara de dor que se faz, quando se lembra de alguém que está sofrendo demais? Imagino essa mesma. Ser um apóstolo, ao mesmo tempo que era um privilégio dado a poucos, era também sinônimo de sofrimento, abnegação e entrega. Falar de um apóstolo era falar de alguém que tinha deixado de lado sua própria vida pela causa de Cristo e que por isso era alvo de constantes orações por parte da igreja. Como Paulo disse, as igrejas estavam em posição privilegiada em relação à deles, pois esses sofriam para que ela gozasse de um pouco de conforto.

Se você prestou atenção no que foi escrito até aqui, acho que nem precisava concluir o texto, certo? A diferença entre os Apóstolos que o Senhor instituiu e esses que hoje se dizem portadores do mesmo título, está na lógica inversa em relação à posição deles. Hoje, enquanto a maioria da igreja é pobre, passa necessidades e colabora financeiramente com muito do pouco que tem, aqueles que se dizem apóstolos gozam de privilégios restritos a uma minoria da população não só evangélica, mas brasileira. Enquanto os apóstolos verdadeiros entregavam-se ao sofrimento pela causa, esses gozam do luxo e do conforto proporcionado pelas suas posições.

Um apóstolo genuíno é alguém que caminhou com o Senhor encarnado ou no mínimo esteve em contato com o Cristo ressurreto, no nível que Paulo teve (At 9). Os "apóstolos" contemporâneos não têm base bíblica para se intitularem dessa forma, e aqui só não vou questionar se de fato alguns tiveram um encontro com verdadeiro com Cristo para me guardar da própria advertência de Paulo sobre o julgamento.

Se entregar-se ao Evangelho é viver uma vida luxuosa como a que essa "entrega" proporciona a determinados sujeitos, tenho que achar um outro livro sagrado que desminta o que chegou em minhas mãos. Pois esse me mostra um Jesus sofredor que compartilhou desse sofrimento com seus seguidores. Me mostra líderes que deram sua vida pelo rebanho como Cristo deu a sua, e não que viviam às custas do rebanho. Me mostra um Apóstolo Paulo, que escreveu mais da metade do Novo Testamento, fez três viagens missionárias por grande parte do mundo conhecido da época - o trabalho de uma vida inteira, foi preso, açoitado e por fim decapitado por amor de Cristo e da igreja.

A Bíblia nos mostra líderes que abriram mão de sua vida terrena para ganharem a eterna, e cujo exemplo nos incentiva a fazermos o mesmo. A esses apóstolos eu quero copiar, pois prefiro a recompensa que vem do Senhor que aquela que posso garantir aqui a preço do suor de muitos e da minha própria dignidade. É nesse capítulo da Carta aos Coríntios, no verso 16, que Paulo diz que a igreja deveria ser sua imitadora. Em todos os sofrimentos, angústia e entrega, mas também em receber toda a consolação do Espírito Santo.

Que Deus nos ajude, pois a caminhada da fé genuína é desafiadora, muito diferente da que vemos em tantos "exemplos" do nosso tempo. Que imitemos a fé genuína dos apóstolos genuínos.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

I Co 3: Espiritualidade imatura = carnalidade (#VergonhaRecord)

"Eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei, e não com alimento sólido, pois ainda não estáveis prontos para isso. Com efeito, ainda agora não estais prontos. Ainda sois carnais. Pois havendo entre vós inveja e contendas, não sois carnais, e não andai segundo os homens?"
I Co 3.1-3

O texto acima é o início do tema que Paulo desenvolve neste capítulo para falar da imaturidade dos Coríntios em relação ao papel dos pregadores/pastores/evangelistas da época. A igreja estava cheia da contendas e divisões, cada qual apegando-se mais a um determinado ministro ou outros, julgando ter razão ou superioridade em relação a outros.

Paulo escreve dizendo que este comportamento é carnal, e a carne anda no sentido contrário ao do Espírito. Se somos cristãos carnais, estamos buscando em Cristo ou, ainda que caminhando com Cristo, satisfazer nossos próprios prazeres, não a vontade daquele que nos chamou. Se no nosso meio há contendas e invejas, não há por que estamos priorizando nossa razão, ponto de vista, vontades, etc? Afinal, o objetivo de servirmos unidos deveria ser maior que o de defendermos algum ponto de vista, apegarmo-nos a algum lider, etc.

Hoje, 14 de novembro de 2011, está nos Trending Topics Brasil a hashtag #VergonhaRecord. A emissora transmitiu ontem, domingo, uma matéria de quase quarenta minutos, falando sobre a prática pentecostal de "cair no Espírito". Falando, claro, de forma negativa, mostrando a prática como injustificada e alheia à espiritualidade cristã genuína. Se você não viu a matéria e quer ter esse dessabor, clique aqui.

Vou comentar num primeiro momento considerando que a própria IURD é pentecostal: seu comportamento dá um tiro no próprio pé, ao pregar que a mesma base doutrinária que sustenta seus cultos, sua teologia da batalha espiritual e da vitória financeira é fajuta. O Edir Macedo torna-se (ou quer fazê-lo) um pentecostal "fora da caixa", mas não nos sentido positivo dessa expressão. Ele quer, ainda que seja denominado como neopentecostal, participar ativamente desse movimento sem que seja identificado como parte dele, acredito.

Agora, comento considerando o que realmente acho da IURD. Calvino e Lutero concordam, ao definirem o que é uma igreja, que é uma reunião de irmãos onde há a pregação e o aprendizado corretos da Palavra de Deus e a ministração dos sacramentos - batismo e ceia - de forma também certa. Eu não vejo isso na IURD, assim como não vejo outra bandeira mais forte nela do que a de que Deus pode resolver os seus problemas. Como se Jesus tivesse morrido na cruz para resolver nossos problemas pessoais. O sacrifício de Cristo foi para nossa salvação! Não pela nossa prosperidade. Isso é muita pobreza doutrinária.

Uma vez que não consigo sequer considerar a IURD como uma igreja, ao menos não como uma igreja genuinamente cristã, confesso que não me decepcionei com ela. Não tenho expectativas positivas em relação ao Macedo e seu grupo, pois o melhor conceito que consigo ter deles é o seguinte: começaram errado, no início de seu movimento, mas com boas intenções. Hoje, só sei que estão errados. As intenções...

Eu não concordo com a maioria das práticas que a reportagem mostrou. Mas usar da força midiática que possui para fazer uma apologia do próprio ego em detrimento da fé sincera de muita gente simples é demais. Como o texto de I Co diz, se há invejas e contendas, brigas, entre nós, é por que ainda somos carnais. A espiritualidade "universal" é essa que vimos demonstrada ontem na reportagem: se manifesta denegrindo o outro ao invés de suportá-lo. É uma "espiritualidade carnal".

Confesso com tristeza que, se considerasse a IURD cristã, como considero muitos pentecostais com os quais não concordo, me esforçaria para ser um com eles. Assim como me esforço para com os pentecostais. Como não é o caso, que Deus tenha misericórdia do Macedo e de sua trupe. Pois os escândalos certamente viriam, mas "ai daqueles por meio de quem vierem" (Lucas 17.1)

domingo, 13 de novembro de 2011

I Cor 2: Sábio ou sabedor?

"Todavia, falamos sabedoria entre os perfeitos, mas não a sabedoria deste mundo, nem dos poderosos deste mundo, que se aniquilam. Não, falamos a sabedoria de Deus oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória. Nenhum dos poderosos deste mundo a conheceu, pois se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória."
I Co 2.6-8

Os três versos acima resumem para nós o conteúdo do segundo capítulo desta carta que estudamos. Paulo está falando sobre a essência da mensagem com a qual ele evangelizou os coríntios e sobre a diferença entre a sabedoria do mundo e a sabedoria de Deus. A do mundo, como diz o verso 6, chega a ser auto-destrutiva para o homem. Já a sabedoria de Deus, revela e confirma em nosso coração que Jesus é o Senhor e que sua graça manifesta-se no seu sacrifício (2.6, 12).

Lendo estes versos, lembro-me dos que se encontram em situação de cegueira espiritual. Olham para Jesus e dizem que ele é sim, Deus, filho de Deus, que tem poder e soberania. Mas ainda são escravos do pecado e não conseguem entender isso com seu coração e integral e praticamente em suas vidas. E ainda olho para os que já conhecem, entendem e vivem o senhorio de Cristo, e percebo o quanto não somos responsáveis ou possuímos mérito algum sobre nossa fé: ela nos é dada pelo Espírito de Deus e é ele quem nos dá olhos e entendimento espirituais para compreendermos essas verdades.

Tudo isso diz pelo menos duas coisas a nós: primeira, que aqueles que ainda não vivem de forma a considerarem a soberania de Deus em suas vidas, precisam da ação do Espírito Santo para fazê-lo. Estes podem ter conhecimento largo da Palavra de Deus, mas não passa de um conhecimento como de quem conhece um texto qualquer. A Bíblia é o único livro que carrega essa propriedade: ela pode ser lida e entendida por qualquer um, ao menos as informações históricas e intenções básicas dos escritores, mas só pode ser vivida  por aquele que o buscar com a ajuda do Espírito de Deus. É o único livro que não pode ser compreendido sem a ajuda e a presença do seu autor.

A segunda, que nós não temos mérito algum em nossa fé. Se é o Espírito Santo quem gera em nós o conhecimento de Cristo e o reconhecimento de seu sacrifício; se é ele quem nos revela o "mistério" da salvação (2.7), que estava em Deus desde o princípio, não temos do que nos orgulhar, mas apenas a agradecer a Deus. Pois aqueles que conhecem a Cristo de verdade não apenas são sabedores do texto sagrado, mas o interpretam espiritualmente, como ele deve ser interpretado (2.14-15). Os que conhecem e entendem a mensagem do Evangelho, são sábios diante e por causa de Deus.

Portanto, devemos assimilar essas verdades para que elas possam nortear nossa pregação e também nosso estudo da Palavra de Deus. Na pregação, devemos estar cientes da nossa total dependência do Espírito Santo para que a mensagem pregada encontre lugar e seja compreendida por quem ouve. E para nós, devemos também ter ciência de que se o Senhor tirasse de nós o Santo Espírito, a Bíblia Sagrada e outra literatura qualquer não teriam diferença alguma. Ler um bom jornal seria, nesse caso, até mais proveitoso.

Mas glória a Deus por sua graça para com todos. Lembremo-nos do que diz Tito 2.11: "a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens". Tenhamos em mente que o Senhor quer revelar-se a todos, e assim como usou a Paulo para levar essa excelente mensagem aos coríntios, quer nos usar para fazê-lo com os que estiverem ao nosso alcance. E para isso, como o Apóstolo, devemos reconhecer nossa dependência dele bem como sua graça sobre nós. Vivamos e preguemos a mensagem do Evangelho, com a ajuda do seu melhor intérprete e professor: o Espírito de Deus.

sábado, 12 de novembro de 2011

I Co 1: Alguns problemas só mudam de século!

O primeiro capítulo desta carta trata de dois temas principais: as divisões que surgiram na igreja de Corinto e a "loucura da cruz", a forma como Deus escolheu uma forma que aos olhos do mundo é estranha, polêmica e aparentemente ineficiente para revelar seu Filho e salvar o homem. Logo após a apresentação e as primeiras saudações, Paulo começa a falar sobre as divisões que ali havia.

Essas divisões eram geradas por alguns grupos que se identificavam exageradamente com aqueles que lhes pregaram o Evangelho, chegando ao ponto de Paulo ter que dizer que não foi ele ou qualquer outro crucificado no lugar dos coríntios, mas Cristo. O verso central e que demonstra claramente esse problema na igreja é o seguinte:

"A respeito de vós, irmãos meus, me foi comunicado pelos da família de Cloé que há contendas entre vós. Quero dizer que cada um de vós diz: Eu sou de Paulo, e eu de Apolo, e eu de Cefas, e eu de Cristo. Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado por vós? Ou foste vós batizados em nome de Paulo?"
I Cor 1.11-12

Não é incrível como certas coisas não mudam ou, também impressionante, como certas coisas parecem existir desde sempre? Eu não consigo ler este texto sem pensar no nosso denominacionalismo e a forma como algumas pessoas insistentemente apegam-se a isso. E apegam-se erroneamente, como os de Corinto faziam com seus pais na fé, valorizando alguma doutrina, costume, método, etc. mais do que ao próprio Evangelho.

Percebemos esse problema podemos tecer tal crítica olhando para a realidade evangélica brasileira como um todo. Mas ainda podemos observar o mesmo em nossas igrejas. Quando há qualquer esboço de confusão nas igrejas e a possibilidade de algum líder/pastor abandonar a congregação surge, quantos de nós nos apressamos para tomar partido e dizer: "eu estou com Fulano!". Contra tudo isso, Paulo escreveu o verso que antecede os que foram transcritos acima:

"Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos a mesma coisa, e que não haja entre vós divisões, para que sejais unidos no mesmo sentido e no mesmo parecer."
I Cor 1.10

A unidade e a comunhão de objetivos (unidos no mesmo sentido e parecer) são colocados do lado contrário das divisões. Se como corpo de Cristo, igreja realmente madura, irmãos com senso de responsabilidade mútua, conseguirmos olhar sempre para o objetivo comum de sermos e formarmos uma igreja que, no último dia, se apresentará para o Senhor irrepreensível (I Co 1.8), na hora das potenciais divisões, saberemos plantar a unidade.

Se fizéssemos isso realmente em nossa prática, não teríamos sequer a possibilidade de escolhermos lados nas possíveis contendas (que nem deveriam existir) e de super-valorizarmos qualquer outra coisa que não seja a nossa caminhada em unidade. Antes, saberíamos lidar com as diferenças para que pudéssemos conviver juntos. O problema é que nossa prática diz algo vergonhoso: o que eu acho, penso, acredito, busco, quero, almejo, tudo isso ou qualquer desses, é mais importante que a unidade da igreja.

Infelizmente, é o que a prática de muitas (talvez a maioria) das igrejas que conheço e de muitos dos irmãos - inclusive muitos com os quais convivo em minha congregação, diz. Revisemos nossa postura e dediquemo-nos a mudar essa realidade, por amor ao Evangelho verdadeiro. Começando, é claro, por nós.

"Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor."
I Co 1.9

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

I Coríntios: Uma mensagem pura para os impuros


A cidade de Corinto, para a qual Paulo escreve esta carta, era muito importante para o Império Romano, pois sua localização fazia dela um ponto comercial estratégico. Corinto era conhecida como a “ponte dos mares”, pois os navios atracavam a oeste da cidade e descarregavam suas mercadorias que, caso tivessem outro destino que não Corinto, eram transportadas até o porto no extremo leste da cidade, para então seguir viagem. Transportar dessa forma era mais seguro, rápido e menos custoso, o que fazia dessa cidade destino certo de muitos trabalhadores e comerciantes.

Isso fazia com que houvesse muitas pessoas de diferentes culturas em Corinto o tempo todo. E a igreja que ali havia também era formada por uma infinidade de pessoas e culturas: judeus e gentios de várias regiões. E todos tinham algo em comum: vinham e viviam entre toda a depravação característica de Corinto.

A ponte dos mares era também um caminho de perversão, prostituição e valores corrompidos. A miscigenação cultural e religiosa fazia da vida em Corinto um caminho guiado pelos próprios prazeres e satisfação pessoal, independente de valores religiosos ou quaisquer outros. O termo “corintiar” chegou a ser criado para caracterizar o levar uma vida imoral.

Os Coríntios tinham dois deuses principais: Poseidon, deus dos mares, e Afrodite, deusa do amor. A cidade se gabava de ter um templo à deusa Afrodite no qual havia prostitutas à disposição daqueles que quisessem ali “cultuar” à deusa.

Paulo escreve para a igreja que fora fundada por ele mesmo nessa cidade. Seus membros eram vindos desse contexto sujo, e agora entendiam que foram chamados para serem santos, como Paulo diz já na introdução da carta. Mas os desafios do Apóstolo dos gentios não é pequeno... Ele trata na carta de problemas diversos, como costumes imorais, falsos ensinos, legalismo, comportamento inadequado na ceia, dentre outros.

Você já ouviu alguém dizer que deveríamos voltar a ser como a igreja primitiva? Se essa fosse a de Corinto, particularmente, eu não seria seu frequentador. A maior beleza desta carta, em minha opinião, está justamente no amor de Paulo às suas ovelhas mais complicadas. Diante de tantos desafios e até da inobservância de seus ensinos mais simples, o Apóstolo porta-se de forma exemplar diante de uma igreja realmente problemática. Atitude diferente de muitos cristãos hoje, pois ao se depararem com problemas na igreja, passam a agir contra ela.

Além dos problemas – e até por causa deles, Paulo também faz a mais completa exposição bíblica sobre dons espirituais e ainda fala sobre a ressurreição também de forma excepcional. A carta aos Coríntios também nos ensina muito doutrinariamente.

Aprendamos juntos lendo, refletindo e lutando para praticar tudo o que este texto tem a nos dizer. Talvez alguns que aqui leem tem lutado há muito contra determinados pecados. Nesta carta, vemos um dos mais zelosos pastores da história atentando para um povo cheio de pecados e dizendo a eles que há um caminho para eles junto a Cristo. A santidade é ensinada ao pecador, a pureza ao impuro, o ideal para o que tem insistido no erro. Ou mesmo alguns podem estar levando uma vida “coríntia” e aqui podem também achar libertação.

Começamos amanhã com o primeiro capítulo. Que o Senhor fale conosco o que precisamos ouvir também através deste livro. Uma boa leitura, aprendizado e prática para nós!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Rm 16: Uma lição até no "tchau" de Paulo

Muitos que lerão este post acharão que estou exagerando em algum ponto. Também, tirar lição do "tchau" de Paulo no final da carta é querer demais, né? Parece, mas não é. Vejamos algo bem diferente na despedida de Paulo aos romanos.

O Apóstolo começa o capítulo 16 recomendando que os irmãos de Roma recebam a Febe, irmã cooperadora na Cencréia, cuja fama de boa hospitalidade a precede. Então, a partir do verso 3, Paulo começa a citar nomes de irmãos específicos, falar algo sobre eles e mandar-lhes saudações. Se você está lendo a carta do princípio e não só ela, mas algum comentário bíblico (que seja bom) e/ou os posts daqui do blog, você já leu que Paulo não conhecia a igreja dos Romanos. Falei isso no primeiro post sobre a carta. Então, como ele saúda tanta gente?

Interessante também que Romanos e Colossenses são as únicas duas cartas que possuem saudações pessoais neste nível. Nas outras onze escritas por Paulo, as saudações são muito mais gerais, do tipo "todos os irmãos vos saúdam (...). A graça do Senhor Jesus Cristo seja convosco. O meu amor seja com todos vós em Cristo Jesus. Amém" (I Co 16.20; 23-24). O que há de comum entre as duas cartas que possuem saudações pessoais é que são as únicas duas igrejas que Paulo não conhecia pessoalmente. Estranho, né?

Mas há uma lógica tão simples nisso, que nos surpreende. Conseguimos imaginar que se Paulo tivesse escrito a uma igreja conhecida, como Éfeso, por exemplo, na qual passou mais de dois anos, e tivesse citado nomes de irmãos como o faz aqui, haveria um potencial risco de ciúmes. Alguns poderiam reclamar que não tinham sido citados ou lembrados pelo Apóstolo e um problema poderia surgir. Pessoas poderiam ficar chateadas com Paulo. É, naquela época já tinha gente chata e imatura assim, não é novidade!

Como Roma era o centro do Império, lugar ao qual todas as estradas conduziam, é comum se esperar que o Apóstolo conhecesse muitos irmãos de lá, que poderiam estar de passagem por outras cidades nas quais ele esteve. Ele cita 26 nomes e 5 famílias, para quem envia saudações. Apesar de ser uma lista grande, não poderia abranger todos os conhecidos de determinada cidade na qual ele teria passado um tempo, certamente. Na Carta aos Colossenses, o número é bem menor, mas ainda assim é a única que acompanha Romanos nesse sentido.

Percebem a preocupação de Paulo, nos mínimos detalhes, para abençoar e manter a saúde da igreja? Se ele escrevesse saudações assim à uma igreja conhecida, poderia haver contendas. Mas, escrevendo para um público que não conhecia pessoalmente, quem seria louco o suficiente para ficar enciumado? Nem naquela época havia gente tão maluca! As saudações poderiam tranquilamente ser enviadas àqueles que ele conhecera fora do contexto da cidade, que isso só teria a acrescentar.

Graças a Deus pelo sábio exemplo de Paulo, aqui e em todos os seus escritos. Graças a Deus pela maravilhosa carta aos Romanos, que terminamos de acompanhar hoje. Se conseguirmos levar a cabo tudo o que lemos e aprendemos nesse texto, seremos cristãos excelentes. Que o Senhor nos abençoe e que, como aconteceu comigo nesta leitura, que a cada vez que voltarmos a este texto ele seja um velho conhecido que sempre nos traz coisas novas. Mais uma vez, graças a Deus!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Rm 15: Sendo Jesus para o meu próximo

Lembra-se de Paulo dizer que somos cartas vivas de Deus, que levamos a mensagem de Cristo que está escrita no nosso coração (II Co 3.3)? E de Jesus dizer que somos o sal da terra e a luz do mundo, que sem nós o mundo está no escuro e sem sabor (Mt 5.13-16)? Pois muitos dos que não são cristãos têm uma única oportunidade de "lerem" a mensagem do Evangelho: olhando para nós, cristãos - que significa "pequenos Cristos", lembra?

O capítulo 15 de Romanos continua a mensagem do anterior, onde Paulo falou sobre nos preocuparmos com a nossa postura de forma a cooperarmos com a fé do nosso irmão. Agora, ele usa o exemplo do que Cristo fez em nós como norte para sabermos o que devemos fazer ao nosso próximo. Ele cita dois pontos diretos sobre isso. Leia abaixo (e leia o capítulo todo na sua Bíblia também, claro!):

"Mas nós, que somos fortes, devemos suportar as fraquezas dos fracos, e não agradar a nós mesmos. Portanto, cada um de nós agrade ao seu próximo no que é bom para a edificação. Pois também Cristo não agradou a si mesmo mas, como está escrito: Sobre mim caíram as injúrias dos que me injuriavam."
Rm 15.1-3

"Portanto, recebei-vos uns aos outros, como também Cristo nos recebeu para a glória de Deus"
Rm 15.7

Não devemos concordar totalmente com o Apóstolo? Refletir a mensagem que de Cristo recebemos é provar que de fato recebemos e entendemos a graça dele em nossa vida. Assim como o próprio Paulo disse em relação ao ensino da ceia do Senhor: "eu recebi do Senhor o que também vos ensinei..." (I Co 11.23); e ainda o que Jesus disse em Mt 10.8: "Curai os enfermos, limpais os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai".


Comunicar o que Jesus fez em nós, fazendo com o próximo. Quer uma maneira melhor do que essa de evangelizar? Difícil. Se de fato recebemos a Jesus e temos consciência de tudo o que ele fez por nós, seremos capazes de retribuir um pouco ao nosso irmão ou àquele que ainda não conhece o Senhor, esse favor. Como disse o Apóstolo João, se eu não amo ao meu irmão, que vejo, como amarei a Deus, a quem não vejo (I Jo 4.20)?

Jesus nos perdoou, lógico, devemos estar prontos a perdoar os que "pecam" contra nós. Usou e ainda usa de muita misericórdia e paciência conosco, por causa dos nossos pecados. É bondoso, levando em conta mais a intenção do nosso coração do que a nossa capacidade de acertar. Fez, faz e ainda fará coisas boas por nós. Demonstrou-nos o amor em seu último grau, oferecendo-se em sacrifício no nosso lugar. E o que disso tudo temos de fato demonstrado na vida do nosso próximo?

Os capítulos 14 e 15 de Romanos nos trazem esse bom confronto: devemos praticar a nossa fé olhando para o próximo assim como Jesus olhou para nós. Se não formos capazes de fazer isso, devemos rever nossa experiência - se é que ele aconteceu - com Cristo. Pois se fomos amados de forma tão graciosa, seremos capazes de demonstrar isso a quem se apresentar carente do amor de Deus. Muitas vezes nós é que seremos o "Jesus" do nosso próximo. Que Deus nos use com liberdade, uma vez que tenhamos de fato o recebido.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Rm 14: A fé do meu próximo: preocupação minha

Como manifestar o amor com os irmãos na fé? O capítulo 14 de Romanos nos conta. Aqui, Paulo toca em dois pontos problemáticos daquela época para os cristãos: o comer ou não de tudo, pelo risco de o vendedor estar vendendo algo consagrado a ídolos; e a observância ou não de dias especiais, como o sábado do judeu.

Havendo divergências entre os cristãos da época sobre qual postura seria a ideal, o Apóstolo tece o seu texto. As carnes que eram vendidas nos açougues comuns eram, muitas vezes, refugos de templos pagãos. Os animais eram sacrificados a outros deuses quaisquer e sua carne era vendida aos açougues, posteriormente. Então, por acharem que não era lícito comer tal tipo de coisa, alguns chegavam a adotar uma dieta vegetariana. Também outro grupo entendia que deveria observar datas como sábado. Para outros ainda, todos os dias eram consagrados ao Senhor, não distinguindo entre um e outro. Então vem a orientação paulina.

Interessante que o Apóstolo não orienta a comunidade a sentar-se e debater as questões até que haja um ponto comum, mas manda que essas questões - menores - sejam deixadas de lado, e que cada um aja da forma como entender ser melhor, desde que não sirva de escândalo (ver texto) para outro. E aqui está o ponto  mais importante do texto: que a manutenção da fé do meu irmão seja tão importante ao meu ver, que se torne capaz de nortear e mudar, se necessário, a minha prática. Minha fé, então, gira em torno da fé do meu irmão. E não é exagero!

Uma sequência de versos deste capítulo, para nos orientar:

"Ora, quanto ao que é fraco na fé, recebei-o, mas não para condená-lo em questões discutíveis"
14.1

"Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz. E quem come, para o Senhor come, poios dá graças a Deus; e o que não come, para o Senhor não come, e dá graças a Deus"
14.6

"Portanto, não nos julguemos mais uns aos outros. Antes seja o vosso propósito não pôr tropeço ou escândalo ao irmão"
14.13


"Se por causa da comida se entristece o teu irmão, já não andas conforme o amor. Não faças perecer por causa da comida aquele por quem Cristo morreu"
14.15


"Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros"
14.19

O texto todo, claro, colabora para afirmar este tema central. Os versos acima são apenas alguns destaques que deixam claro a quê o Apóstolo nos chama: a ter a nossa liberdade condicionada à do outro, e nossa prática como já disse acima que deve ser. Hoje não temos problemas da mesma natureza que o daquela igreja de forma tão acentuada, mas conseguimos facilmente praticar esse mandamento em outras situações.

Muitos irmãos que começam a estudar Teologia, por exemplo, passam a ter prazer em trazer para o círculo da igreja discussões que deveriam ficar limitadas ao ambiente acadêmico ou aos mais envolvidos com o tema. Outros, críticos que são (ou que somos), discordam de algumas práticas da igreja e querem manifestar tal indignação. Mas o fazem no momento errado, da forma errada, perto da pessoa errada, e assim correm o risco de causar um mal maior do que aquele que quer combater.

A forma como nos portamos deve abençoar nossos irmãos e comunidade, nunca lhes servir de problema. Ainda que "algo discutível" (14.1) seja muito incômodo para nós, devemos levar isso a quem de fato pode resolver problema: primeiro ao Senhor, depois ao responsável por qualquer que seja a situação incômoda. Não a qualquer um. E se achamos que podemos ou não fazer algo, como ouvir determinados tipos de música, frequentar um certo tipo de lugar, comer ou beber o que quer que seja, que a nossa liberdade seja exercida com temor a Deus, respeito e interesse pelo próximo e por sua fé.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Rm 13.1-7: A submissão (não-cega) às autoridades

O capítulo 13 de Romanos, na minha Bíblia, tem uma seta que sai do verso primeiro e aponta para uma anotação minha: ?? Hitler? Saddam? Mao Tse Tung? O primeiro verso diz:

"Toda pessoa esteja sujeita às autoridades superiores, pois não há autoridade que não venha de Deus. As autoridades que há foram ordenadas por Deus".

No restante deste trecho Paulo diz que as autoridades são ministros de Deus para o bem (13.3-4), não para o mal. Incentiva seus leitores a serem submissos à toda autoridade, pelo seu próprio bem social e também por causa do Senhor. Diz que se deve pagar tributo, temer e tributar honra às autoridades dignas disso.

Mas então, como fica o questionamento que tive no primeiro verso? Certamente ele foi influenciado pelo "bem" que recebeu das autoridades que o julgaram e o consideraram inocente, mas isso não é tão determinante para seu discurso. Paulo não fala sobre as autoridades que, ao invés de promover o bem, promovem o mal. Pouco depois de sua morte, um decreto de César já tornaria seu ensino difícil: o imperador passou a requerer para si honra e reconhecimento divinos de quaisquer cidadãos.

F.F. Bruce, um teólogo excelente e autor de um comentário muito bom de Romanos, diz que caso uma autoridade vá além dos mandamentos de Deus, ela está ultrapassando o limite da sua vocação, aquela da qual o primeiro verso fala. Toda autoridade vem de Deus e deve ser reconhecida como tal. Ela é agente de Deus para o bem, já disse o texto e aqui já reforcei; mas ao ultrapassar esta linha, é como se estivesse por sua própria conta. Caso o cristão seja confrontado entre a obediência às autoridades e a obediência a Deus, o texto de Atos 5.29 o norteia: "antes importa obedecer a Deus do que aos homens".

A Palavra de Deus é coerente e seus ensinamentos são bons para nós. A Bíblia não nos manda fazer nada ilógico - ao menos sem que isso faça sentido mais tarde. Mas este mandamento não tem nada de falho ou confuso: é simples e coerente. A submissão às autoridades se dá enquanto elas estão debaixo da Palavra de Deus e continuam sendo o que Paulo disse que são constituídas para serem: instrumentos do bem, agente punitivo para quem pratica o mal (social).

Vale reforçar: devemos estar submissos às autoridades até que elas contrariem a Palavra de Deus, não qualquer outra coisa. Jamais ouviremos a voz de Deus mandando-nos ir contra qualquer lei da Constituição que não esteja contra a sua Palavra Revelada, a Bíblia Sagrada. Qualquer absurdo que ouvirmos por aí, do tipo "Deus me mandou fazer isso" e "isso" for contra a lei... É absurdo mesmo!

Rm 12.9-21: Aborrecendo o mal, não o maldoso

O texto de Rm 12.9-21 tem estrutura e temas bem semelhantes ao sermão do monte. Possivelmente Paulo tinha acesso à comunicação oral desse sermão e foi influenciado por ele para escrever essa parte da carta. Ainda não havia dado tempo de os evangelhos escritos serem conhecidos, mas o ensino já era passado oralmente.

Um princípio que nos leva a uma prática mais justa e semelhante à de Jesus da Palavra de Deus nos salta aos olhos no texto. O verso 12.9 diz:

"O amor seja não fingido. Aborrecei o mal, e apegai-vos ao bem."


Agora, veja outros versos do mesmo trecho:

"Abençoai aos que vos perseguem; abençoai, e não amaldiçoeis." (12.14)

"A ninguém torneis mal por mal. Procurai as coisas honestas perante todos os homens" (12.17)

"Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, pois está escrito:Minha é a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor" (12.19)

"Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer, se tiver sede, dá-lhe de beber (...)" ('12.20)

"Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem" (12.21)

Como em tantas outras ocasiões nas Escrituras, vemos o Senhor invertendo a lógica e a previsibilidade das nossas ações pecaminosas para nos transmitir o ideal de acordo com o seu padrão. Em suma, o texto nos diz que devemos fazer o bem àqueles que nos fazem mal, confiando a vingança, caso ela necessite acontecer, ao Senhor. Não parte do Senhor aquela mentalidade que dita a regra do "toma-lá-dá-cá", que diz que o Senhor fará justiça aos seus e que qualquer que tocar em um de seus cabelos será "punido" por isso.

Se seguirmos a orientação do Senhor em relação àqueles que nos perseguem, corremos o sério risco de ganharmos o nosso inimigo para o Senhor e, ao invés de levar-lhe punição, comunicar-lhe a graça de Deus. Pois não foi exatamente isso que o Senhor fez conosco? Não merecíamos o pior, por termos pecado contra ele, virado-lhe as costas e crucificado o Senhor? No entanto, estamos salvos e com o Espírito Santo fazendo morada em nós. Ele foi o primeiro a pagar o mal com o bem: ao invés de nos consumir, pagou nosso mal com seu sangue.

Devemos aborrecer a maldade, como Senhor o faz. E assim como ele foi capaz de amar alguém mal como nós, somos chamados a fazer o mesmo com nossos adversários, comunicando o mesmo amor que recebemos em troca de nossos pecados. Isso, claro, se de fato recebemos o amor de Deus. Então somos capazes de tal ato de amor. Se não conseguimos fazer isso, precisamos rever o quanto entendemos e recebemos a mensagem e a obra da graça de Deus em nós.

sábado, 5 de novembro de 2011

Rm 11: A pedagogia doxológica de Paulo (?)

Puxa vida... Que raio de título é esse!? Pois é, outro dia eu disse que não escrevia para teólogos e agora uso um título que mal eles entendem. Mas vamos aproveitar para aprender um termo interessante, se ainda não conhecemos. E só o usei por que ele se encaixou muito bem, você verá.

O termo grego "doxa" significa glória, majestade, poder, esplendor. Talvez o título que a sua tradução da Bíblia dá a algumas conclusões das cartas do Novo Testamentou e/ou ao trecho de Rm 11.33-36 seja doxologia. Em termos simples, significa que aquele texto está exaltando a Deus, glorificando-o. É um texto de louvor a Deus.

Terminando a leitura do capítulo 11 de Romanos, chamou-me à atenção o que Paulo acabara de fazer. Como disse aqui, no texto sobre o capítulo 9, o trecho de 9-11 é usado pelo Apóstolo para falar sobre a relação Israel / gentios. Paulo explica que os judeus tiveram de fato a primazia da fé e da graça, mas tendo rejeitado a mensagem do evangelho, ele foi passado aos gentios. Mas ensina isso com o objetivo de valorizar ainda o papel de Israel na salvação da humanidade. Rm 11.12 deixa isso bem claro:


"Ora, se a sua queda é a riqueza do mundo, e a sua diminuição a riqueza dos gentios, quanto mais a sua plenitude!"


Paulo entendia que todos acabaram sendo beneficiados por que Israel rejeitou a Cristo, mas também entende que o próprio Israel será restaurado posteriormente, que o Senhor não o rejeitou de vez. O propósito divino no endurecimento deles é a plenitude da revelação de Deus aos gentios (11.25). Após isso, o Senhor salvará Israel, diz Paulo (11.26), os enxertará novamente na árvore da qual foram cortados (11.23).

Após explicar detalhada e perfeitamente tudo isso aos romanos, Paulo encerra o trecho com a sua doxologia:

"Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como da ciência de Deus!
Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!
Quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?
Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado?
Porque dele e por ele e para ele são todas as coisas. 
Glória, pois, a ele eternamente. Amém."


Como isso nos ensina! Com paciência e dedicação paulo instrui aqueles a quem escrevia. Os romanos são vistos por Paulo como discípulos, por mais que ele ainda não os conhecesse pessoalmente (falei disso também aqui, caso você não se lembre ou não tenha lido). O Apóstolo traduz estes princípios complexos de forma simples para os seus leitores, fazendo uso de uma pedagogia e retórica incríveis. Consegue lhes expor muito com pouco, traduz o profundo de forma acessível. E então encerra com o texto acima.

A forma como Paulo ensina a este povo, dando no final de tal exposição a devida glória a Deus nos traz alguns alertas. Primeiro, toda a grandeza de tal ensinamento não se deve à sabedoria ou conhecimento de Paulo, mas a Deus. Segundo, a pedagogia, o ensino de Paulo aponta para a soberania de Deus. Os questionamentos "quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi se conselheiro?" e a afirmação "porque dele e por ele e para ele são todas as coisas" nos deixam isso claro. E com isso tudo, entendemos (mais uma vez) que Paulo não tinha outro objetivo com seu ministério e também especificamente com esta carta, que não fosse ministrar o evangelho com sinceridade e transparência e glorificar o nome do Senhor.

A carta que mudou o rumo da história, que influenciou determinantemente de Agostinho a Lutero dentre outros, foi escrita por alguém que creditava todo o mérito da grande obra que fez a Deus. Que o Senhor nos ajude a servi-lo como Paulo o serviu. Quer ensinemos, sirvamos, ministremos, preguemos, façamos ou deixemos de fazer; que reconheçamos que o Senhor é soberano e que tudo veio dele é para ele. "Glória, pois, a ele eternamente".

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Rm 10.9-10: Oração de salvação?

O tipo de oração ao qual o título do texto se refere é muito comum em nossas igrejas, não? E normalmente é baseada no texto também ali referido. Quero refletir com você sobre ele por um outro lado. Lembre-se do texto comigo:

"Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Pois com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação"


É muito comum este texto ser a base para qualquer grupo de evangelismo, principalmente de evangelismo de rua, como alguns dos quais já fiz parte. Íamos a hospitais, praças públicas, parques, onde quer que houvesse alguém que pudesse ouvir a Palavra de Deus e ali pregávamos. Se a pessoa ouvisse e aceitasse a mensagem, pedíamos que ela repetisse uma oração que usava estes dois versos como base. Simples! Voltávamos felizes, pois mais um havia aceitado a Cristo.

Outro dia, porém, pregando para cerca de 80 jovens numa igreja, perguntei quem havia se convertido num desses evangelismos. Ninguém se manifestou. Então, perguntei quem havia se convertido através de algum programa de televisão evangélico; uma vez que há tantos e eles existem para evangelizar (?????), seria comum encontrar algum fruto deles. Nenhum. Então, perguntei quem se converteu através de algum amigo ou parente, que lhe pregara o evangelho e começara a caminhar com ele. Todos os que não haviam nascido em um lar cristão se manifestaram.

Então, o evangelismo de rua não é válido? Não digo isso de forma alguma. Mas precisamos questionar apenas o que nos tem servido de base e o que temos entendido como sucesso nessas incursões evangelísticas. O grande problema dessa prática é que ela tem como vitória o fato de "x" pessoas repetirem uma oração de confissão. Depois, conta-se o "testemunho" do número de conversões - o que quase nunca corresponde de fato ao número de pessoas que realmente se converteram.

A ideia de confessar com a boca e crer com o coração do texto e Romanos certamente não é coisa de um momento único. Mas diz respeito à fé com a qual cremos "para a justiça", como diz o texto, que é uma fé madura e consciente, que precisa ser trabalhada. A confissão deve ser uma confissão constante também, pois certamente nãos serei salvo se agora confessar que Jesus é o Senhor mas, daí a pouco, entregar-me novamente ao pecado.

Uma pesquisa feita em algumas mega-igrejas nos EUA constatou que 12% dos membros dessas igrejas foram até elas por conta própria, enquanto que 7% foram influenciados por alguma forma de media e os restantes 82% foram conduzidos por algum amigo, colega de trabalho ou familiar (confira a pesquisa aqui, caso se interesse). Esse dado reforça o seguinte argumento: o discipulado é bem superior ao evangelismo - inclusive em eficácia.

Muitos evangelismos preocupam-se apenas com os números dos que são alcançados, enquanto um discipulado verdadeiro ocupa-se da mudança real de vida e perseverança na fé do recém-convertido. Finalizo reforçando: não sou contra o evangelismo. Mas a ordem de Jesus para nós foi para fazermos discípulos e não somente orações de confissão. Sou a favor do evangelismo, desde que ele não substitua o "fazei discípulos" que segue o "Ide por todo o mundo".

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Rm 9: A predestinação e o sentimento de Paulo

Penso conhecer um pouco do público para quem escrevo. Sei que apesar de alguns bons amigos teólogos lerem o blog, eu não escrevo para teólogos diretamente. Fui condenado, ao estudar Teologia, a não conseguir desprezá-la jamais em qualquer leitura simples do texto sagrado, mas não escrevo para este público somente. Escrevo para quem quer ler a Palavra de Deus de forma simples e sincera, entendê-la, praticá-la e ensiná-la também a outros. E neste grupo estão incluídos teólogos.

Portanto, não tratarei do tema da predestinação, que prefiro denominar como o tema da soberania divina, para ser mais fiel ao pensamento do querido reformador que mais o difundiu, neste texto. Vou deixar que o leitor entre e saia daqui com o mesmo pressuposto com o qual chegou. Talvez em outro momento o faça, mas por hora me aterei ao seguinte: está claríssimo neste capítulo que Paulo entende que o Senhor é soberano para escolher um vaso para honra e outro para desonra; que como diz o verso 16, "não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que se compadece". Ele é soberano.

Partindo daí, quero ressaltar um pouco o que ouvi na mensagem do Rev. Augustus Nicodemus Lopes (vale a pena conhecer esse homem) na Conferência da Fiel deste ano - que infelizmente só acompanhei pela internet. Por todo o capítulo 9 e ainda até o final do 11, Paulo traz como tema a relação do judeu com o evangelho, de forma mais específica, e a relação da incredulidade do homem com a graça divina, de maneira mais geral. Sendo o capítulo 9 especificamente o que mais trata do tema da soberania divina quanto à sua escolha.

Muitos olham para a doutrina da soberania divina ou da predestinação, se for mais fácil para você identificá-la assim, de forma errada. Pensam que todo o que acredita que Deus faz essas escolhas de alguma forma se isenta da responsabilidade de anunciar o evangelho, pois uma vez que depende de quem Deus chama ou não, o anúncio se faz inútil. Ou vê essa tarefa como um trabalho já de antemão frustrado, pois depende de Deus e não de nós. Mas, ainda que acreditemos em outra coisa, não é o Espírito Santo que continua o responsável pelo crédito e eficácia da nossa mensagem?

Paulo nos dá um exemplo fenomenal de alguém que entendia ser da escolha soberana de Deus quem seria ou não salvo, mas que se dedicava de corpo e alma à tarefa de anunciar o evangelho. A maneira como ele começa o capítulo e ainda o 10, grita isso aos nossos ouvidos. Isso vai estender um pouco o texto, mas quero transcrever esses versos aqui. Seguem:

"Em Cristo digo a verdade, não minto (dando-me testemunho a minha consciência no Espírito Santo): que tenho grande tristeza e contínua dor no meu coração. Pois eu mesmo desejaria ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus compatriotas, segundo a carne."
Rm 9.1-3

"Irmãos, o desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para que se salvem"
Rm 10.1

Paulo desejava que se fosse possível, ele mesmo fosse separado de Cristo para salvar seus compatriotas judeus. E diz desejar e orar pela salvação deles. E entendemos que Paulo tinha como doutrina cristalina a eleição e a soberania divina, mas isso não o isentava de envolvimento emocional com o anúncio do evangelho e sua aceitação por parte daqueles a quem amava.

Você pode, como disse, entrar e sair daqui com o mesmo pressuposto. Mas não pode deixar de ocupar seu coração com a reflexão sobre a postura de Paulo quanto à pregação do evangelho, que é exemplo para nós. Por mais que Deus é quem faça suas escolhas e ele é quem credita a nossa mensagem - e até mesmo por isso, devemos anunciar o evangelho com todas as nossas forças e paixão. Assim como Paulo.

Que o Senhor nos ajude a sermos bíblicos, coerentes e apaixonados pela sua palavra, amando aqueles que ainda não o conheceram. E a pregar o evangelho com tanto sentimento e dedicação como entendemos fazer Paulo neste texto.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Rm 8 - Não há condenação. Sobre quem?

O capítulo 8 de Romanos começa com o seguinte verso, que é sobre o qual trataremos, principalmente:

"Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus [que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito]".


Algumas versões, por diferenças de tradução, não trazem no primeiro versículo a declaração entre chaves no primeiro verso, apenas no quarto. De qualquer forma, aqui ou ali, ela é coerente e não altera o sentido do todo.

Paulo acabara de tratar nos capítulos 5-7 sobre a nossa morte para o pecado e a vida para Deus, dizendo que somos participantes da morte de Cristo ao morrermos para nossas vontades e de sua ressurreição, ao renascermos para a vontade de Deus. Falou também sobre o poder da lei de fazer abundar o pecado e o poder do sacrifício de Cristo por nós, de superabundar a graça. E no capítulo 7, como reforcei no último post, ele fala sobre sua atitude voluntária de servir a Deus, que luta contra a vontade involuntária de seus membros de servir ao pecado.

E neste último ponto o verso 8.1 baseia-se para começar dizendo "Portanto(...)". Uma vez que já não servimos à lei dos nossos membros, mas à lei de Deus com o nosso entendimento, não há condenação sobre nós. Uma vez que fugimos do pecado com todas as nossas forças e nos esforçamos, em contrapartida, para obedecer à lei do nosso entendimento, que ativamente busca servir a Deus, não há condenação sobre nós.

Quantos não interpretam de forma errada os versos 7.15-25 e o 8.1 em diante? Ao olharmos para este texto, temos uma certeza: se queremos fazer a vontade de Deus acima da nossa, ele não nos acusa quando erramos. Não quer dizer que podemos pecar deliberadamente, mas justamente o contrário. Se andamos com ele, não vivemos na prática do pecado (I Jo 3.9). Quer dizer que, entregues à sua vontade, aqueles erros acidentais do caminho, que são cometidos por causa da nossa natureza carnal e não da nossa voluntária inclinação para a carne, não nos são motivos de acusação.

Muitos já se sentiram acusados por pecados com os quais, estou certo, nem mesmo o Senhor se preocupou com eles. Nenhum pecado na nossa vida é aceitável, claro. Mas quando pecamos nossa atitude deve ser de arrependimento, confissão, mudança de postura e continuidade da caminhada. Não é preciso parar no caminho por causa de um acidente, pois o próprio Deus não nos acusa. Ele não aprova o pecado e nos dá força para vencê-lo, mas não nos acusa.

A segunda parte do versículo 8.1 ou o verso 4, se preferirem, nos diz que a não-condenação incide sobre os que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito. Que nos esforcemos para isso. Relendo todo o texto que estudamos até aqui, entendemos que andar segundo o Espírito é consequente à nossa entrega a Cristo. O que, se ainda não aconteceu, deve acontecer agora. Caminhemos com ele, não sirvamos ao pecado, não paremos no caminho. Pois não somos acusados, graças a Deus.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Rm 7.15-24 - Não acerto, mas quero muito!

O texto é tão clássico quanto mal interpretado. E o princípio que garante a má interpretação é comum a outros textos também: o de pensar que tudo o que se encontra na Bíblia é direcionado a todo mundo. Já parou pra reparar que as pessoas pensam que todos são alvos das promessas de Deus, por exemplo? O Salmo 23, por exemplo, quase que teria incluído no seu título a qualificação de inter-religioso...

As promessas de bênção das Escrituras são para os discípulos, os servos, aqueles que caminham com o Senhor e o obedecem. Assim como o que Paulo diz no texto referido no título. Resumindo bem, ele diz que há uma lei em seu corpo que obedece ao pecado, ao passo que a lei da sua consciência e vontade se submete a Deus. Portanto, o mal que ele não quer fazer, acaba fazendo, e o bem que muito quer fazer não é alcançado.

Muitos olham para este texto como uma legalidade para se conformar com os próprios pecados. Como se não tivessem que se preocupar com seus erros, uma vez que até o Apóstolo Paulo entendeu que não conseguiria acertar, mas que erraria sempre. O texto não nos dá tal legalidade, graças a Deus.

Percebam comigo que o Apóstolo começa o trecho que tratamos dizendo que seu modo de agir lhe era incompreensível, por fazer o que não quer e não o que quer (7.15). Ele queria tanto acertar, que o processo que conduzia ao erro parecia irracional. Paulo diz neste trecho 6 vezes que sua vontade era fazer o correto e que seu homem interior ou sua mente serviam a Deus. E outras 7 vezes ele diz que o erro não faz parte de sua vontade consciente, mas de uma lei involuntária que reside em seu corpo.

A diferença de Paulo, que compreendia corretamente o que ali pregava e muitos do nosso tempo, é que ele de fato buscava acertar. Seu argumento não é justificativa para seus erros, pelo contrário. Paulo deixa muito claro seu compromisso com o Senhor, que resulta na busca da santidade. E ele não justifica os erros que comete, apenas mostra entender sua origem. Tanto que seu texto termina com um lamento: "pobre homem que sou! Quem me livrará do corpo dessa morte?"

O que nos garante entender esse texto da maneira correta e viver como o Apóstolo vivia, está claro no último verso do capítulo, 7.25:

"Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado."


Jesus é quem gera em nós, pelo seu Espírito Santo, o desejo de fazer o que é certo. Ele é quem nos leva a sermos escravos da lei de Deus com a nossa mente, para que possamos obedecê-lo em tudo. Paulo estava tranquilo em sua posição e certo de que não havia condenação alguma sobre ele, como diz o próximo verso do livro (8.1). E nós podemos andar assim também, desde que nosso desejo por agradar ao Senhor seja tão grande, sincero e verdadeiro, que o pecado não é um desvio aceitável, mas um erro repugnante.