sábado, 15 de outubro de 2011

At 16 - Creia e serás salvo, tu e tua casa. Será???

Já viram o filme "O livro de Eli"? A aplicação que ele faz do poder da Bíblia é interessantíssima, não é? Se você já leu, é um bom exemplo para começar esse texto. Caso não, eu não serei aquele que estragará o filme para você. Portanto, sem spoillers.


Confesso que já há muito tenho problemas com as mensagens que ouço/leio sobre promessas de Deus. Infelizmente, a maioria das que são pregadas no nosso meio mais motivam uma fé gananciosa e interesseira do que buscam renovar a esperança do que necessita. Já vi quem dissesse que Deus promete riquezas a todos. Promete luxo, tudo do melhor nessa terra, etc.. Vale lembrar que um grande problema da teologia da prosperidade é matar a esperança de um descanso e paz eternos para trazê-los a nós hoje. Se tudo o que a teologia da prosperidade prega se concretizar em nossa vida, quase não precisaremos do céu!

Perdeu-se o escrúpulo para interpretar a Bíblia da forma como mais se convém. E o famoso texto de Atos 16, especificamente o verso 31, é um dos mais mal-interpretados que conheço. Paulo e Silas, presos por pregarem o Evangelho, dizem a um carcereiro que estava prestes a se matar: "Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo, tu e a tua casa".

Agora, vou pedir que você leia esse texto como se fosse a primeira vez. Os dois discípulos estavam presos. De repente, de madrugada, há um terremoto na prisão e todos os presos têm suas portas abertas e algemas soltas. O carcereiro, temendo ser morto pelos seus superiores, intenciona tirar a própria vida. Quando Paulo grita para que ele não o faça, dizendo que estavam todos no mesmo lugar. Então, respondendo à pergunta do carcereiro: "Que é necessário que eu faça para me salvar?", Paulo diz: "Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo, tu e a tua casa".

Então responda você mesmo: na sua opinião, Paulo disse que se o sujeito cresse, toda a sua casa seria salva por causa da sua fé, ou disse que se ele e a sua casa cressem, todos seriam salvos? Vou encerrar o parágrafo só para você pensar mais um pouco.

Eu fico com a segunda opção. Um dos princípios básicos de interpretação da Bíblia é deixar que ele mesma se interprete. Para que isso ocorra, não pode haver contradição entre dois textos, pois sabemos que ela própria não se contradiz. Se isso ocorrer, o problema está no intérprete, não no texto que é interpretado. Se considerarmos a primeira opção de resposta, não estamos anulando a individualidade da fé, que é presente no restante das Escrituras?

Essa interpretação é perigosa. Primeiramente, lembremo-nos (ou fiquemos sabendo) que, teologicamente, não tiramos doutrina de livros históricos da Bíblia. Apenas exemplos, princípios, etc. Livros históricos, como são todos os do intervalo entre Josué e Ester e o livro de Atos no NT, nos contam erros e acertos de seus personagens, o que nos daria brecha para interpretarmos de formas muito diferentes. Também, o texto deve ser lido em seu contexto, a exemplo do que foi explicado alguns parágrafos acima. E se interpretarmos de forma a entender esse texto como uma promessa para todos, desconsideramos bastante seu contexto original.

Se eu crer no Senhor, serei salvo. E se os da minha casa crerem no Senhor, serão salvos também. Se quisermos achar uma promessa nesse texto, aí está ela. Seja de outra forma, como explicamos à irmã piedosa,, que perdeu o pai alcoólatra com câncer no fígado? Ou à mãe que, depois de se converter, fez de tudo para resgatar o filho das drogas, mas ele acabou morto pelo tráfico? Se você não conhece nenhum caso semelhante a esse e ainda acredita que eles não aconteçam, fica mais fácil entender a "promessa" do texto. Porém se sabemos que tudo isso ocorre, precisamos ser mais sensatos.

Uma forma de nos confortar com esperança sobre a salvação daqueles amamos? A salvação foi prometida a todo o que crê, portanto a porta está aberta para eles assim como para nós. E o Espírito Santo, também prometido por Jesus a nós, nos dá poder e capacita-nos a pregar o Evangelho de forma genuína, agindo ele mesmo na pregação para que ela seja eficaz. Além disso, todas as nossas orações são ouvidas por Deus e sabemos que se orarmos pela nossa família isso terá efeito. Pelo menos no meu caso, me lembro claramente que alguém orou para que eu me convertesse.

Perdoem-me pelo tamanho do texto de hoje. Mas achei necessário explicar com um pouco mais de cuidado esse texto bíblico. Sei que a Palavra de Deus, completa, verdadeira e coerente como é, não frustra a esperança de ninguém. Isso só acontecerá se esperarmos dela o que não está sendo oferecido. Mas se nela buscarmos discernimento, sabedoria, esperança verdadeira, fé, motivação, força e ainda mais, teremos. Deus cuida de nós. E de nossas famílias também. Portanto, contemos e oremos pelo seu cuidado, pois ele nunca nos desamparou e nem o fará.

Um comentário:

Marcus Vinícius disse...

Concordo com o texto. Não aceito nada que diga que eu não sou sou responsável diante de Deus. Cristo me resgatou da trevas e Deus me adotou,logo, sou filho e responsável diante dele. "Teologias" que transferem responsabilidades são terríveis. E a pior de todas, sem dúvida, é a da prosperidade.