sábado, 17 de setembro de 2011

Serviço sem créditos e vida sem débitos

Chego ao final de algumas falas de Jesus sempre imaginando quantos se levantaram naquele momento e arrumaram alguma desculpa para ir embora. Jesus não tinha reservas para dizer a verdade e nem pensava duas vezes para expor seus pensamentos. Era sincero, duro e cheio de autoridade - verdadeira autoridade. Seus discursos muitas vezes eram duríssimos.

Lucas 17.7-9 é um desses duros discursos. Jesus fala sobre a postura que seus servos devem ter. E, para trocar em miúdos bem claros, ele diz que aquele que o serve não deve buscar privilégios ou se ver na posição de alguém com créditos, mas estar ciente de que é um servo inútil que, servindo, sabe não ter feito mais do que sua obrigação.

Nós fomos criados para adorar a Deus. A única possibilidade de um estilo de vida que nos complete é andarmos com Deus, tendo comunhão com ele e o glorificando. Fazendo assim, somos como uma máquina que é utilizada para a função correta e desenvolve toda a sua capacidade de trabalho. Caso contrário, somos sub-utilizados no pecado, na auto-satisfação, no egocentrismo. Só somos totalmente felizes e realizados se cumprimos o propósito para o qual fomos criados. É como se fosse nossa programação inalterável.

Servir a Cristo não é fácil. Outro exemplo disso é o discurso de Jesus sobre o discipulado pouco antes no texto, em Lc 14.25-35. Ele diz que é preciso abrir mão da família e até mesmo da própria vida, tomar cada um sua cruz e seguir-lhe, se quisermos ser seus discípulos. Não é fácil. Porém, é aí que cumprimos o nosso propósito. Servir a Cristo é tão satisfatório que pode fazer um mártir sofrer e morrer em meio a dores, mas com o coração satisfeito e completo.

Tudo o que Jesus tinha que fazer por nós ele já fez. Por graça e misericórdia dele, ainda recebemos muitas de suas bênçãos nas nossas vidas. Mas somos nós quem deve fazer algo pelo Mestre, pois seu sacrifício completo já está diante de nós. Por isso, o duro discurso de Jesus faz sentido: por mais que o sirvamos, não somamos créditos. Por mais que nos entreguemos, não temos direito ou vantagem alguma sobre ele.

Injusto? Parece que somos controlados por um Deus autoritário e ditador, ingrato, que não é capaz de reconhecer nosso esforço e limitação? Não é verdade. Servimos a um Deus que, ao ver nosso esforço e dedicação não nos contabiliza créditos, pois já estamos em dívida por causa da salvação. Porém, esse mesmo Deus não nos contabiliza débitos, por causa da sua graça. Por isso ele é justo. Certamente, nossa balança estaria negativa, mas sua graça faz pesar o outro lado. Graças a Deus por isso, e a ele o nosso serviço.

P.S.: recomendo a leitura da crônica "Sem contabilidade", do Rubem Alves, onde ouvi a aplicação dessa ilustração de débitos e créditos pela primeira vez.

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