segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Quando Deus é morto pela religião

Continuando a série de devocionais sobre o evangelho de João, voltamos para o capítulo 18. Nele, Jesus é entregue por Judas às autoridades judaicas para ser julgado e, como sabemos, condenado e crucificado. Os sinais que Jesus fizera não foram suficientes para que os judeus cressem nele nem tampouco deixassem de persegui-lo. Jesus se tornara uma pedra em seus sapatos; não ficariam satisfeitos enquanto não tirassem este incômodo.

Jesus é interrogado por Pilatos, que costumava sempre soltar um prisioneiro naquela época do ano, na páscoa. Pilatos questiona aos judeus presentes no pretório, onde Jesus fora interrogado, se gostariam que ele soltasse a Jesus, dito rei dos judeus, ou Barrabás, um assaltante. A resposta já conhecemos.

Quem crucificou Jesus foram os religiosos da época, por incrível que pareça. Um de seus seguidores o traiu, entregando-o aos líderes religiosos da nação judaica. Estes, por sua vez, preferem absolver um assaltante a um homem sobre quem nem o próprio juiz pôde ver culpa. E isso em nome da religião.

Pessoas fazem absurdos por causa da religião. O religioso convencional sente-se portador da verdade que o outro não tem, por isso corre o risco de justificar qualquer ato (por mais estúpido que seja) nos seus valores religiosos, que lhe dizem possuir a verdade - ao invés de conhecê-la, como pregou Jesus.

No caso dos judeus na condenação de Jesus, a religião permitiu condenar um homem inocente em prol da posse da verdade. Permitiu libertar outro homem cuja culpa já acompanhava até mesmo sua descrição mais simples: "Ora, Barrabás era um assaltante", diz Jo 18.40. Barrabás, porém, não questionava a verdade dos judeus. Jesus o fazia. Barrabás havia roubado bens daqueles que o libertaram ou de pessoas próximas a eles, enquanto Jesus havia lhes tirado a razão.

Não podemos cair no mesmo erro dos judeus, considerando que somos donos de uma verdade inquestionável, sagrada, intocável, que justifica condenar qualquer um que a ela se opor. Jesus é a verdade, mas morreu calado por causa dela. Os judeus julgavam possui-la, e por ela mataram um inocente e absolveram um culpado.

Vendo por aqui, podemos concordar com Nietzsche, quando disse que "o homem, em seu orgulho, criou Deus, à sua imagem e semelhança". Este Deus criado pelo orgulho humano, não sendo capaz de sustentar sua frágil verdade, autoriza seus seguidores a sustentarem-na a qualquer preço. Como fizeram os judeus. E como muitos - inclusive alguns que se dizem cristãos - fazem até hoje.

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