quarta-feira, 31 de agosto de 2011

João Batista e sua mensagem para poucos

João começou a batizar no deserto e muitos o procuravam por causa de sua pregação e batismo. O capítulo 3 de Lucas, nos versos 1-20, nos fala sobre sua mensagem. E que dura mensagem! O verso 7 diz que ele se referia à multidão que o procurava como "raça de víboras" e os exortava a arrependerem-se de seus pecados. Com esse tratamento carinhoso, até questiona-se por que o povo ainda o procurava.

Mateus e Marcos também nos falam sobre a mensagem de João Batista (Mt 3.1-12 e Mc 1.1-8), mas apenas Lucas, devido à sua ênfase na justiça social, destaca alguns detalhes dessa mensagem. Lucas diz que a multidão perguntou a João o que deveriam fazer quando este lhes falou sobre arrependimento. Isso vai aumentar bem o tamanho do texto, mas quero transcrever os versos aqui:

"Então a multidão o interrogava: Que faremos, pois?
Respondeu-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem, e quem tiver alimento faça da mesma maneira.
Chegaram também uns cobradores de impostos, para serem batizados, e lhe perguntaram: Mestre, que deveremos fazer?
Respondeu-lhes: Não peçais mais do que o que vos está ordenado.
Então uns soldados o interrogaram: E nós, que faremos?
Ele lhes disse: a ninguém trateis mal, não deis denúncia falsa, e contentai-vos com o vosso salário".

A mensagem de João Batista era uma mensagem de arrependimento, e de arrependimento verdadeiro e prático. Ele diz aos seus ouvintes que deveriam se arrepender e mudar de conduta, deixando de prejudicar ao próximo de qualquer forma que fosse e abrindo mão dos próprios bens, se necessário, em prol do outro.

Nosso tempo nos dita regras exatamente opostas, por isso a mensagem de João ainda é tão coerente. Quem conhece um policial que exerce uma função que lhe é proibida no seu contrato com o Governo? Ou alguém que lida com dinheiro de outro e age desonestamente? Talvez mesmo alguns de nós, leitores desse blog, podemos ter agido assim. E a pregação do arrependimento nos diz para irmos numa via contrária.

A primeira resposta de João é à qual eu quero dar mais destaque. Nela, ele fala à multidão como um todo. As outras duas foram para grupos específicos, mas mesmo esses grupos também se encaixam na primeira. Ele diz que quem tem vestimenta e alimento deve repartir com quem não tem. E não disse somente à quem tivesse sobrando, apesar de que o normal na época fosse ter apenas uma túnica, ter duas era sinal de uma condição um pouco melhor, mas ele não diz assim quanto ao alimento.

Nosso tempo diz que é normal acumularmos bens. Nosso sistema econômico, capitalista, justifica o acúmulo de capital privado. E o problema é que nós aceitamos sua justificativa, mesmo nós cristãos, e passamos a achar normal, justo e conveniente termos o melhor carro que conseguirmos, a melhor e mais cara casa, as melhores roupas. Afinal, se eu trabalhei para isso, que mal há? Aliás, há até a teologia da prosperidade que, em nome de Deus, nos incentiva a buscar essas coisas.

A mensagem de João que é corroborada por Jesus nos diz o contrário. Será que já pensamos que, para que eu ande de carro numa sociedade capitalista, alguém tem que estar andando a pé? Que enquanto podemos morar numa casa que vale centenas de milhares ou milhões, outros moram em barracos sem saneamento e é isso o que viabiliza nosso conforto? Que nossa roupa cara deixa alguém nu? Na sociedade capitalista não há recursos para todos, por isso o mercado de trabalho é uma disputa. O melhor lutador consegue o melhor posto em detrimento do outro.

Não estou pregando uma vida de total abdicação dos bens materiais. Não estou dizendo que deveríamos fazer voto de pobreza e nos refugiarmos num monastério; isso cairia em outro extremo também problemático no nosso contexto. Mas devemos pensar e repensar nossa prática, por sermos cristãos. Realmente nos arrependemos de nossos pecados? Nossa vida deve mostrar isso - nos moldes da mensagem original de João Batista, inclusive.

O que fiz aqui foi praticamente reproduzir a mensagem de João, contextualizando-a um pouco. E sei, infelizmente, que ela não perdeu suas características originais: de ser uma mensagem coerente, necessária, que visa o bem comum e a justiça, vinda de Deus, mas que assim como no tempo de João, encontra lugar em poucos corações.

4 comentários:

Fabrízio Mendes disse...

Pr. Muito boa a devocional de hj! E quero te dizer, que mais uma vez fiquei na responsabilidade em entender a palavra. Sei que isso é, muitas vezes necessário e pesado, pois a partir desse momento, vemos que temos que mudar nossas atitudes, pensamentos e direção! Por isso que sabemos que a verdade nos liberta, mas ela é pesada...rs...Com relação a "apedrejar"...seria um ato de : puts, pq ele me contou isso?!...rsrs...Um forte abraço!

Nivton Campos disse...

Kkkk.. Grande Fabrízio!

Já tive essa sensação de "pq me contou isso?" um bocado de vezes... Mas isso é um bom sinal. Sinal de que se sabemos o que devemos fazer, nos sentimos intimados a isso.

Abração, mestre! Valeu pela visita. Seja sempre bem-vindo.

Ana Cristina disse...

Parabéns pela devocional!Muito bom descobrir que um pastor jovem como vc,se preocupa com o verdadeiro evangelho.Continue assim e que Deus continue te inspirando e abençoando.Ana

Nivton Campos disse...

Obrigado, Ana Cristina!

Amém, graças a Deus por sua Palavra. Fico feliz que compartilha do mesmo sentimento que eu e tantos outros que teem lido o que escrevo aqui. Que Deus nos conserve íntegros doutrinária e praticamente.

Abração! Que Deus te abençoe também.