quarta-feira, 31 de agosto de 2011

João Batista e sua mensagem para poucos II - Exemplos

Você leu o texto anterior e ficou na dúvida sobre qual seria a postura ideal. Se ficou mesmo, veja alguns bons exemplos que conheço. E alguns terríveis (anônimos) também...

Em 2008 ouvi o Pr. Rick Warren na Ig. Batista Getsêmani. Sua história é um dos maiores referenciais que tenho e terei. O Pr. Rick ganhou (e ganha) milhões com a venda de seu livro best-seller mundial, "Uma vida com propósitos". Para resumir muito, Warren mostrou ao público naquela ocasião seu relógio comprado no WallMart antes das vendas do livro e disse andar no mesmo carro que ele tinha há 6 anos. Devolveu 25 anos de salário à sua igreja, passou a viver com 10% dos seus ganhos e a doar 90% para a beneficência. Uma das beneficiárias é um ong que ele mesmo fundou, para cuidar de pessoas aidéticas.

Richard Stern, presidente da Visão Mundial, foi CEO de duas multinacionais até os seus 28 anos, quando sentiu-se chamado para trabalhar como presidente desta instituição. Abriu mão de altos salários e muito luxo, para entregar-se ao cuidado de crianças necessitadas na África e em outros lugares. Richard já tinha uma condição boa quando se casou. Em seu livro "A grande lacuna" (publicado originalmente em inglês sob o título "The hole in our gospel"), ele diz que não conseguia comprar os melhores utensílios para sua casa, por pensar que estaria gastando desnecessariamente enquanto sabia que milhares passavam por necessidades básicas.

Por outro lado, vemos líderes "evangélicos" vivendo com luxo extremo. Carros importados caríssimos, aviões, mansões, etc.. Mas a lógica que domina a mente desses homens não é a lógica da encarnação, mas a capitalista. A lógica da encarnação de Jesus é a de que o Deus Todo-Poderoso, o Verbo Divino, se fez como nós para trazer-nos salvação. Se me digo pastor, como terei um padrão de vida elevadíssimo, muito além daquele no qual vivem minhas ovelhas? Me acharei merecedor de tal conforto, por estar "entregando minha vida ao ministério"?

Quantos já não confundem, por causa dessa lógica trocada, "viver do ministério" com "entrar no mercado gospel"? Gravar cd's, clipes, etc., fazer shows (cultos?) caríssimos e viver no luxo com o resultado disso não é viver pela fé ou do ministério. É achar um filão de mercado e gozar dele. Conhecemos alguém que reverteu rendas milionárias do mercado musical para missões e/ou para obras sociais? Se conhecemos, sei que a proporção perto dos que fazem o contrário é ínfima.

Daí, temos exemplos melhores até fora do meio cristão, como é o caso da trupe O Teatro Mágico, que milita em favor da música independente, valorizando a música como arte, e arte na qual não se põe preço. Suas músicas são maravilhosas, coerentes, críticas, com qualidade sensacional. E se você quiser ouvir, basta baixar de graça em seu site. Ou ir a um show com custo muito baixo. Sua luta se torna mais autêntica do que a "obra" de muitos cristãos. Vivem da arte, mas ela não se torna serva de sua ganância.

Esse texto é um desabafo, sim. Mas um desabafo de problemas que nos cercam e que devem nortear a nossa prática. Não é um "apedrejamento" à igreja de hoje, mas uma crítica à conduta de alguns e mais do que isso, uma prevenção à nossa. Essa crítica é acompanhada da esperança de colaborar para um meio cristão mais esclarecido. E isso só pode ser feito do lado de dentro, por isso não é uma crítica para destruir a igreja, pois sou também parte dela, a amo e por ela luto.

Podemos viver bem, sim. Mas o altruísmo é característica essencial do cristianismo. Que Deus tenha em suas mãos nosso coração e prática. Que não nos esqueçamos que o exemplo de Cristo foi o da simplicidade e da doação. Que Deus nos livre da ganância!

João Batista e sua mensagem para poucos

João começou a batizar no deserto e muitos o procuravam por causa de sua pregação e batismo. O capítulo 3 de Lucas, nos versos 1-20, nos fala sobre sua mensagem. E que dura mensagem! O verso 7 diz que ele se referia à multidão que o procurava como "raça de víboras" e os exortava a arrependerem-se de seus pecados. Com esse tratamento carinhoso, até questiona-se por que o povo ainda o procurava.

Mateus e Marcos também nos falam sobre a mensagem de João Batista (Mt 3.1-12 e Mc 1.1-8), mas apenas Lucas, devido à sua ênfase na justiça social, destaca alguns detalhes dessa mensagem. Lucas diz que a multidão perguntou a João o que deveriam fazer quando este lhes falou sobre arrependimento. Isso vai aumentar bem o tamanho do texto, mas quero transcrever os versos aqui:

"Então a multidão o interrogava: Que faremos, pois?
Respondeu-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem, e quem tiver alimento faça da mesma maneira.
Chegaram também uns cobradores de impostos, para serem batizados, e lhe perguntaram: Mestre, que deveremos fazer?
Respondeu-lhes: Não peçais mais do que o que vos está ordenado.
Então uns soldados o interrogaram: E nós, que faremos?
Ele lhes disse: a ninguém trateis mal, não deis denúncia falsa, e contentai-vos com o vosso salário".

A mensagem de João Batista era uma mensagem de arrependimento, e de arrependimento verdadeiro e prático. Ele diz aos seus ouvintes que deveriam se arrepender e mudar de conduta, deixando de prejudicar ao próximo de qualquer forma que fosse e abrindo mão dos próprios bens, se necessário, em prol do outro.

Nosso tempo nos dita regras exatamente opostas, por isso a mensagem de João ainda é tão coerente. Quem conhece um policial que exerce uma função que lhe é proibida no seu contrato com o Governo? Ou alguém que lida com dinheiro de outro e age desonestamente? Talvez mesmo alguns de nós, leitores desse blog, podemos ter agido assim. E a pregação do arrependimento nos diz para irmos numa via contrária.

A primeira resposta de João é à qual eu quero dar mais destaque. Nela, ele fala à multidão como um todo. As outras duas foram para grupos específicos, mas mesmo esses grupos também se encaixam na primeira. Ele diz que quem tem vestimenta e alimento deve repartir com quem não tem. E não disse somente à quem tivesse sobrando, apesar de que o normal na época fosse ter apenas uma túnica, ter duas era sinal de uma condição um pouco melhor, mas ele não diz assim quanto ao alimento.

Nosso tempo diz que é normal acumularmos bens. Nosso sistema econômico, capitalista, justifica o acúmulo de capital privado. E o problema é que nós aceitamos sua justificativa, mesmo nós cristãos, e passamos a achar normal, justo e conveniente termos o melhor carro que conseguirmos, a melhor e mais cara casa, as melhores roupas. Afinal, se eu trabalhei para isso, que mal há? Aliás, há até a teologia da prosperidade que, em nome de Deus, nos incentiva a buscar essas coisas.

A mensagem de João que é corroborada por Jesus nos diz o contrário. Será que já pensamos que, para que eu ande de carro numa sociedade capitalista, alguém tem que estar andando a pé? Que enquanto podemos morar numa casa que vale centenas de milhares ou milhões, outros moram em barracos sem saneamento e é isso o que viabiliza nosso conforto? Que nossa roupa cara deixa alguém nu? Na sociedade capitalista não há recursos para todos, por isso o mercado de trabalho é uma disputa. O melhor lutador consegue o melhor posto em detrimento do outro.

Não estou pregando uma vida de total abdicação dos bens materiais. Não estou dizendo que deveríamos fazer voto de pobreza e nos refugiarmos num monastério; isso cairia em outro extremo também problemático no nosso contexto. Mas devemos pensar e repensar nossa prática, por sermos cristãos. Realmente nos arrependemos de nossos pecados? Nossa vida deve mostrar isso - nos moldes da mensagem original de João Batista, inclusive.

O que fiz aqui foi praticamente reproduzir a mensagem de João, contextualizando-a um pouco. E sei, infelizmente, que ela não perdeu suas características originais: de ser uma mensagem coerente, necessária, que visa o bem comum e a justiça, vinda de Deus, mas que assim como no tempo de João, encontra lugar em poucos corações.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Mais uma contra a teologia da prosperidade

Outro dia ouvi alguém dizer que ouviu numa pregação (de alguma coisa que não era o evangelho) que Jesus era alguém rico, alguém de posses. Que, por ele ter tido o melhor dessa terra, nós também teríamos. O suposto pregador disse que, ao entrar em Jerusalém montado num jumento, Jesus estava usufruindo do equivalente a um carro de luxo nos dias de hoje.

É, eu sei que é tão medíocre a afirmação que te dá preguiça de ler. Também tive de escrever, então ficamos quites. Não vou dar mais exemplos desse nível para te ajudar a ler o texto até o final.

Em Lucas 2.21-24, há a narrativa da circuncisão e da apresentação de Jesus no Templo, conforme determinava a lei judaica. Ao oitavo dia de nascido, todo homem deveria ser circuncidado e todo primogênito consagrado ao Senhor. Assim os pais de Jesus procederam.

Uma oferta era determinada pela lei, e essa determinação está em Levítico 12, que deixarei para você ler. O texto diz que os pais da criança deveriam sacrificar um cordeiro. Porém, caso não tivessem condições de fazê-lo, deveriam oferecer um par de rolas ou de pombinhos (12.8), que foi o que os pais de Jesus ofereceram na ocasião.

Jesus viveu uma vida plena, porém árdua e sem luxo. Numa ocasião em que precisou pagar um imposto junto com Pedro, ele não tinha dinheiro. Mandou que Pedro fosse pescar e tirasse da boca do peixe uma moeda para pagarem o devido. Quando mandou os discípulos irem pregar o evangelho, orientou que o fossem sem reservas de roupas, suprimentos ou dinheiro. Ao confrontar o jovem rico, orientou-o a vender seus bens e ao relacionar-se com Zaqueu, rico cobrador de impostos, este sentiu-se constrangido a restituir tudo o que havia ganho com prejuízo alheio.

Jesus não fez nenhum milagre financeiro (!). Hoje isso até pode causar espanto. Como disse minha esposa outro dia, caso Jesus estivesse em nosso tempo, esse possivelmente seria o pedido mais comum. Jesus não morreu na cruz para nos dar uma "vida próspera", ele morreu para nos dar VIDA. Estávamos mortos no pecado, mas com ele temos a vida eterna.

A teologia da prosperidade menospreza a mensagem do Evangelho, fazendo-nos esperar de Deus apenas para essa vida. E, como disse o Apóstolo Paulo, fazendo assim somos os mais infelizes dessa terra. A teologia da prosperidade não é o evangelho. As boas novas de salvação que Jesus nos trouxe são. Graças a Deus por isso.

O justo Jesus de Lucas

O Evangelho de Lucas é o meu preferido por causa de sua ênfase inclusivista. Lucas escreve fazendo questão de incluir no relato mulheres, crianças e classes/profissões que eram discriminados naquela época. O autor quer mostrar que o Senhor não vê as distinções que criamos, que o Evangelho é manifestado a todos.

Uma das primeiras evidências dessa ênfase de Lucas é a aparição de anjos aos pastores de Belém, em 2.1-20. Os pastores eram mal vistos pela sociedade, pois sua fama de conduta não-exemplar os precedia. Eles tinham o costume de cometer pequenos furtos enquanto buscavam pasto para suas ovelhas (já contei isso e houve quem disse que certas coisas nunca mudam). Mas o Senhor não olha para isso e os escolhe para serem os primeiros a saber do nascimento de Jesus, por meio de um anjo.

O cântico de Maria também é um exemplo de como Lucas dá ênfase aos marginalizados. Os versos 1.52-53 dizem: "Depôs dos tronos os poderosos, e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos". Lucas sabia e queria transmitir que o Senhor é um Deus justo e que conhece o coração e a necessidade de cada um, não vendo como o homem vê.

O Jesus apresentado por Lucas é esse que se preocupa em equilibrar a balança da vida. Que promove a inclusão e a justiça, que não discrimina, que veio para os doentes e não para os sãos. É esse Jesus que come com pecadores, conversa com pessoas de má fama, valoriza as mulheres e as crianças. Foi ele quem chamou para discípulo um cobrador de impostos e permitiu que uma mulher pecadora lhe prestasse culto, lavando-lhe os pés.

Nós somos quem olhamos com preconceito, Jesus olha com amor. Nós fazemos juízo de valores (deturpados valores), enquanto o Senhor apenas condena o pecado, aceitando o pecador. Se Jesus tivesse encarnado no nosso tempo, certamente o acharíamos pregando nas casas de prostituição, nos becos de mendigos, nas casas de jogos e nas cadeias. E nos escandalizaríamos com ele, assim como seus contemporâneos.

Graças a Deus por seu amor sem preconceito. Por que ele consegue olhar no nosso coração onde ninguém mais vê. E certamente há, aos seus olhos, motivos em nós que seriam suficientes para sermos discriminados por muitos. Mas ele veio justamente por que não merecemos e não alcançaríamos seu amor por nós mesmos. Graças a Deus por Jesus, que é perfeito, muito melhor do que nós, e ainda assim não nos condena - como muito fazemos com nosso próximo.

sábado, 27 de agosto de 2011

Lutas no caminho certo. Pode?

Os primeiros capítulos de Lucas nos narram fatos que lhe são exclusivos. Ele é o único que se preocupa em nos mostrar como foram os antecedentes ao nascimento de Jesus e parte de sua infância, omitidos pelos outros três Evangelhos.

Dois personagens que também lhe são exclusivos são Zacarias e Isabel, pais de João Batista. Recomendo que leiam Lc 1.5-17, ao menos, para continuar neste texto.

Lucas diz que Zacarias era sacerdote e cumpria sua escala anual de servir no templo, quando teve uma visão de um anjo que lhe prometera um filho de seu casamento com Isabel. Sua mulher era estéril e os dois já eram velhos, mas essa foi a palavra do anjo - se você ficou com preguiça de ler, aqui teve um resumo dos versos. Mas não se acostume.

O que me chama a atenção nessa narrativa é o fato de Zacarias ser um sacerdote e, juntamente com sua mulher, serem reconhecidos como quem andava irrepreensivelmente de acordo com os mandamentos de Deus (vs. 1.6). E mesmo assim, acontecia de Isabel ser estéril, o que era problema naquela cultura. Para o judeu infertilidade ou muitos filhos representavam a maldição ou a benção de Deus, respectivamente.

A realidade desse casal desafia muito do que é pregado hoje em muitos púlpitos, principalmente nos neo-pentecostais. Não é por andarem corretamente que esse casal bom e correto deixou de ter dificuldades, e dificuldades que duraram muito tempo, pois eles já eram velhos e ainda sem filhos. Isso nos lembra que o sol nasce mesmo sobre justos e pecadores, e que podemos sim ter dificuldades na vida cristã. Se formos tentados a nos esquecer disso, olhemos para Jesus e os 12. Ninguém teve uma vida fácil...

O Senhor providenciou um filho a Zacarias e a Isabel. Eles se alegraram e mantiveram o temor do Senhor. Mas ainda outro fato me salta aos olhos: o Senhor abençoou seus servos, dando-lhes um sonhado filho. E isso foi feito também com o objetivo de essa dádiva fosse para abençoar outros. João Batista tem seu nascimento anunciado com ênfase no trabalho que ele faria (vs. 1.13-17).

Assim é também a nossa vida e caminhada. Mesmo caminhando corretamente, podemos ter dificuldades no caminho. E o Senhor, gracioso que é, pode nos livrar delas, mas tudo é para a sua glória. Afinal, se somos seus servos, não podemos apenas cantar na igreja que "tudo o que temos e somos vem dele e para ele", sem sermos pacientes e perseverantes com eventuais lutas e consagrarmos a ele todas as vitórias.

Leitura bíblica

A partir de hoje, começo a postar devocionais sobre o Evangelho de Lucas, seguindo a leitura bíblica que estamos fazendo na Missão Getsêmani Pedro Leopoldo.

Caso queira nos acompanhar, estamos lendo 2 capítulos do Antigo Testamento e 1 do Novo Testamento por dia. Não temos prazo para terminar, nem nos demos ao trabalho de calcular quando encerraremos esta primeira leitura. A faremos com calma e bastante estudo. Aqui, tenho postado um pouco sobre o NT, sendo que na EBD temos estudado o AT (quanta sigla!).

Hoje leremos Êxodo 19-20 e a segunda carta de João. Amanhã, terminamos a primeira carta e na segunda-feira começamos o Evangelho de Lucas, que será seguido pelo livro de Atos. No Antigo Testamento, leremos em sequência até os livros de Reis e Crônicas, onde faremos algumas mudanças para uma leitura cronológica dos textos - explico melhor outra hora.

Não deixe de ler a Bíblia. Ela é nosso alimento espiritual. É a Bíblia que nos faz conhecer ao Senhor e crescermos com ele. Todo cristão verdadeiro deve ler, conhecer e praticar a Bíblia. E isso pode começar hoje, caso ainda não seja um hábito seu.

Vamo junto! Que Deus nos abençoe e nos ensine.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Um exemplo para o discipulado em III João

Pelo pequeno tamanho da carta de III João, fica fácil olharmos para o texto todo e identificarmos o que o Apóstolo, que demonstra responsabilidade pastoral para com seus destinatários, objetivava com seu escrito. Assim como em outras cartas do Novo Testamento, aqui João elogia, exorta, previne, repreende, motiva, etc. A carta é uma demonstração de cuidado pastoral.

João escreve elogiando a Gaio por sua hospitalidade e conduta cristã e condenando a atitude de um tal Diótrefes, que agia de forma contrária. Também previne a Gaio de seguir o mau exemplo daquele, além de elogiar ainda Demétrio e esboçar o desejo de ver os seus destinatários. Basicamente, toda a terceira carta de João está neste parágrafo.

O Apóstolo nos dá exemplo, com isso, das características que devem estar presentes no nosso discipulado. Primeiro, João demonstra envolvimento emocional com seu discípulo: ele lhe quer bem, desejando-lhe saúde física e emocional. O processo ainda deve ter reconhecimento dos acertos do discípulo para motivá-lo, assim como João fez, elogiando a Gaio. João reconheceu seus acertos e o encorajou. Também deve ter um olhar acurado de um pastor que zela pelo rebanho, alertando sobre a presença do lobo ou de qualquer perigo, como foi com o caso de Diótrefes.

Essas duas primeiras atitudes discipuladoras, colocamos em prática ao caminharmos juntos com o discípulo a ponto de vermos seu progresso e discernirmos o que lhe é potencialmente prejudicial. Contra os perigos, devemos alertar nossos discípulos sempre para que eles não sejam pegos de surpresa por algo que podemos enxergar e eles não.

João ainda elogia um bom companheiro, Demétrio, que serviria de bom exemplo e companhia para seu filho na fé. E encerra a carta dando continuidade ao discipulado, planejando ver seu discípulo para continuar orientando-o.

Da mesma forma, esse exemplo nos é útil: devemos motivar bons relacionamentos àqueles que acompanhamos e não fazer um "pseudo-acompanhamento"; assim como no caso de João, o discipulado deve ser contínuo. Apenas uma ligação, um e-mail, um bilhetinho (há quem considere que a terceira carta era um bilhete anexo à outra) não são suficientes para gerar crescimento. Deve haver vivência. Como João intentava fazer, devemos buscar contato direto e mais profundo com nossos discípulos. Tudo o que temos a lhes ensinar não deve caber apenas nos recursos aqui citados.

Me alegra um texto tão simples como o desta carta trazer lições tão preciosas para nós. Isso demonstra como o Senhor não quer que percamos um detalhe do que ele quer nos ensinar, não importando que recurso ele usará para tal. Mesmo que seja um pequeno texto entrar para as Escrituras, um que talvez até questionemos a razão de estar ali. Mas, assim como João o fez e devemos fazer também, o Senhor não mede esforços para abençoar àqueles que o seguem.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Cuidado e amor de Deus + oração = livramento e provisão

Livro de Êxodo. A história é conhecida: o povo de Israel está habitando no Egito e se tornando cada vez mais forte e numeroso. O rei que bem os havia acolhido por causa de José morre e o seu sucessor escraviza o povo, com medo de eles se rebelarem contra sua nação. Então, Deus levanta Moisés para libertar o povo, o que acontece depois de muita água debaixo da ponte...

Esse é o menor e mais incompleto resumo de Êxodo que você já leu, provavelmente. Mas retomo apenas o básico para nos introduzir ao ponto que destaco abaixo.

Os versos 2.23-25 dizem:

"Depois de muitos dias, morreu o rei do Egito. Os filhos de Israel gemia sob a servidão, e por causa dela clamaram, e o seu clamor subiu a Deus. Ouviu Deus o seu gemido, e se lembrou da sua aliança com Abraão, com Isaque e com Jacó. Atentou Deus para os filhos de Israel e os conheceu".

De forma semelhante, diz o verso 3.7:

"De fato tenho visto a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus opressores, e conheço os seus sofrimentos".

Os elementos que formam a equação do título deste texto estão muito bem presentes na situação de Israel agora. Os textos acima dizem que o povo sofria, então clamou e foi ouvido pelo Senhor. Deus tinha uma aliança com esse povo e se lembrou dela (não que ele tivesse se esquecido, mas entenda o que o autor quis dizer), olhando para Israel e os conhecendo. O caminho que Israel percorreu ou pelo qual foi conduzido pelo Senhor, nos ensina muito.

Primeiro, com a oração motivada pelo sofrimento. Apenas sofrer não muda a situação de ninguém. Mas orar por causa do sofrimento chama a atenção de quem pode resolver nosso problema.

A forma como o Senhor reage ao sofrimento e ao clamor de Israel nos mostra como ele se importa conosco. Os textos dizem que ele atentou para o sofrimento do povo, viu o seu sofrimento. E que os conheceu, envolveu-se com eles. O verso 3.8 diz que o Senhor estava a caminho de livrar o povo do Egito e conduzi-los a um lugar muito melhor. O Senhor os livraria do Egito e providenciaria algo melhor.

O Senhor se importa conosco e cuida de nós. Vê pelo o que passamos e, ao ouvir nossa oração, apressa-se em nos livrar. Precisamos saber que Deus age dessa forma. Caso contrário, passaremos por muitas situações nas quais poderíamos contar com sua ajuda sem fazê-lo.

Encerro lembrando de uma canção antiga, que o Pr. Lucinho Barreto sempre gosta de citar, que diz: "Oh, que paz perdemos sempre! Oh, que dor no coração! Só porque nós não levamos tudo a Deus em oração".

Na dificuldade, clamemos a Deus. Deixemo-lo conhecer, através do nosso clamor e oração, o que nos aflige. E então veremos seu cuidado e amor ao nos livrar.

Dois estímulos a uma fé sincera

João escreve sua segunda carta à "senhora eleita". Entende-se ser mesmo uma senhora de idade, já com alguns filhos ( II Jo 4). Alguns consideraram a possibilidade de "senhora eleita" ser uma metáfora para a igreja, mas a falta de incidência deste termo tanto nos escritos joaninos como no restante do Novo Testamento deixa essa possibilidade enfraquecida.

O Apóstolo dá apenas duas orientações na sua curta carta: que o amor ao próximo fosse praticado (vs. 5-6) e contra falsos mestres e doutrinas (7-11). Ao falar da segunda, João nos mostra um raro tipo de pessoa: aquela de quem devemos nos afastar (10-11). A orientação é para que o indivíduo que "vai além da doutrina de Cristo" nãos seja recebido nem sequer cumprimentado pelos irmãos.

O Apóstolo Paulo deu uma orientação parecida referindo-se àqueles que dizem ser irmãos mas vivem na prática do pecado, em I Co 5.9-13. Diz para não nos associarmos a tal pessoa e termina a exposição orientando a igreja a "afastar esse iníquo" do meio deles.

Um grupo bem distinto esse que devemos evitar: os hipócritas e enganadores. Também por que é possível até confundi-los. Facilmente as atribuições de um são coincidentes com as do outro e ambos conduzem ao mesmo fim: deturpam a fé de quem está no caminho correto. Um por promover uma falsa prática e outro uma falsa doutrina.

As advertências de Paulo e João contra esses dois nos guiam à prática de uma fé sincera. Não somos orientados a nos afastar de pessoas do mundo, como o próprio texto de I Co citado acima deixa claro. Mas sim daqueles que querem "mundanizar" a sua fé. Não devemos nos afastar de quem está enganado por uma falsa doutrina, mas daqueles que, conhecendo a verdade, esforçam-se para deturpá-la.

A diferença entre o pecador e o hipócrita é que o primeiro pode reconhecer o seu erro e mudar o caminho, enquanto o segundo é impedido pelo seu orgulho. E entre o falso mestre e o que não compreende ou está enganado, é que o primeiro pensa possuir a razão, enquanto o segundo a busca.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Certeza da salvação

João encerra sua primeira carta deixando claro aos seus destinatários que eles possuem a vida eterna. E a evidência disso é tão simples, que chega a nos fazer questionar: "mas só precisa disso mesmo para ser salvo, para ter a vida eterna?"

João diz que "todo aquele que crê que Jesus é o cristo é nascido de Deus" (5.1) e que "quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho (...) e o testemunho é este: Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em seu filho". Assim, se cremos em Jesus, sabemos que temos a vida eterna.

Então parece ser fácil demais. Talvez alguém diga que conhece um monte de pessoas que creem em Jesus mas que vivem praticando o pecado; que creem em Jesus mas não conseguem caminhar com ele; que o fazem mas decidem por não segui-lo agora. E aqui cometemos um grande engano.

Muitos banalizaram a fé. É necessária a certeza de que crer em Jesus, como João está dizendo, é saber quem ele realmente é, reconhecê-lo como Cristo, Filho de Deus, salvador do mundo. É não ter engano quanto à sua pessoa e obra. Se alguém crê que Deus pode fazer todas as coisas, não está crendo em Jesus. Se sua fé se resume a isso ou à expectativa de que Jesus lhe dê uma vida melhor ou mesmo a vida eterna, não está crendo em Jesus de verdade.

Talvez pensemos que "só" crer em Jesus seja pouco. Mas na verdade, João pode estar dizendo uma coisa e estamos entendendo outra. Crer em Jesus não é reconhecer sua potencialidade e/ou ter expectativas sobre ele. Mas saber quem ele é, tê-lo conhecido assim como João diz no início da sua carta que o conheceu. Reconhecer sua grandeza e poder e ao mesmo tempo nossa insignificância e incapacidade, que nos faz depender dele.

Crer em Jesus é saber que ele é Deus, soberano, justo, bom, que em suas mãos o Pai confiou todas as coisas. E saber que somos a ele sujeitos, somos pecadores, maus e que dependemos da sua graça para sermos salvos - e não para recebermos o que queremos, somente. Crer em Jesus é conhecê-lo de verdade. E quem o conhece não consegue deixar de crer nele. Pois sua graça e amor são irresistíveis.

Se assim cremos nele, podemos estar certos de que temos a vida eterna.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

É impossível amar somente a Deus

Toda a carta de João está permeada pelo tema do amor a Deus e ao próximo. O capítulo 4 desenvolve mais intensivamente o tema, mas ele é presente em todo o texto.

João relaciona diretamente o amor a Deus com o amor ao próximo, dizendo que quem ama a Deus certamente ama ao próximo. Quem não é capaz de amar ao seu irmão, a quem vê, como amará a Deus, a quem não vê (4.20)?

O texto de Hebreus 12.14 diz que devemos buscar a paz com todos e a santificação. O texto de Romanos 12.18 diz que no que depender de nós, devemos ter paz com todos os homens. Entendemos que buscar a paz com todos não é somente ser simpatizante dela, mas almejá-la ativamente. E que o que depende de nós equivale a muita coisa. Se somos injustiçados, apanhamos, levamos prejuízo, etc., ainda depende de nós ter paz com aquele que nos prejudicou.

A qualidade da nossa vida cristã pode ser medida pelos nossos relacionamentos. Se somos capazes de amar e sermos amados pelos irmãos, estamos na luz. Se vivemos tendo dificuldade para desenvolver tal sentimento e de vê-lo demonstrado a nosso favor, precisamos rever algumas posturas.

Não é possível amar a Deus sem amar ao próximo. Ao contrário do individualismo dominante no nosso tempo, o Senhor nos impele a caminharmos juntos e em amor. E se fomos amados por ele, de fato e não só no nosso imaginário religioso, conseguiremos amar com o mesmo amor que recebemos.

"Ninguém jamais viu a Deus; mas se amarmos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é aperfeiçoado o seu amor."
I Jo 4.12

domingo, 21 de agosto de 2011

I Jo 3.1-7 - João, como é Deus?

Que resposta boa João nos dá na sua carta. Resposta a uma pergunta que ele aprendeu a responder quando viveu o que narrou no seu Evangelho: Jesus queria que os seus cressem no seu nome e soubessem que ele era, de fato.

Agora, João entende que Deus se manifestou a nós através de Jesus, e também entende que essa manifestação/revelação não foi total, pois ainda o veremos "assim como ele é" (3.2). Então, ele nos dá um "esboço" de como é o nosso Deus, nos versos 3-7.

O verso 3 diz que ele é puro e assim como ele é, devemos ser. Temos que ser puros sexualmente; puros de intenção; puros nos nossos relacionamentos, vivendo-os com sinceridade e sem segundas intenções, tanto no relacionamento com os irmãos como no relacionamento com Deus. Ele é puro e devemos nos purificar, se temos a esperança de nos encontrarmos com ele e o vermos como realmente ele é - como também diz o verso 3.3.

No verso 5, João diz que nele não há pecado, ele é santo. Diz que ele se manifestou para tirar os nossos pecados e que se vivemos pecando, na verdade não o conhecemos. Este verso aumenta a nossa responsabilidade. Se somos seus filhos, devemos nos portar como tal. Algum pecado insiste me ser presente na nossa vida? Busquemos àquele que se manifestou para tirar nossos pecados.

Finalmente, o Senhor é justo. E quem pratica a justiça só pode ter vindo dele, pois nós não o somos; justiça é uma virtude que não existe naturalmente em nós. Se nos dizemos filhos de Deus mas fomentamos um contexto de injustiça, estamos enganando a nós mesmos. Por isso, podemos acreditar que se o Evangelho realmente passa a fazer parte de nossa vida, seremos incomodados ao nos depararmos com a situação do mundo atual. A injustiça, tão condenada na Bíblia desde Moisés e os profetas, nada tem a ver com o Senhor.

O interessante no caráter de Deus é que ele é contagiante. Ele é puro, santo e justo, e não conseguimos nos relacionar de fato com ele sem que essas características passem a fazer parte de nós. Assim é Deus. E, se somos dele, "meio assim" o seremos. Um dia, o veremos sem a limitação que nos é imposta pelo pecado. Mas desde que sejamos, desde já, reflexo daquilo o que ele é.

sábado, 20 de agosto de 2011

I Jo 2.15-17: Três formas de ficar longe de Deus

Se alguém quiser afastar-se de Deus de forma simples, direta e eficaz, tem uma opção certa: amar o mundo. Tiago confirma o dito de João em sua carta, em Tiago 4.1, dizendo que a amizade do mundo é inimizade com Deus. Quer ficar longe de Deus? Aproxime-se do mundo.

O que a Bíblia chama de mundo é o sistema governado por valores não cristãos, onde prevalecem os interesses e prazeres humanos, não a vontade de Deus. É o campo onde Satanás é o árbitro. Ao mesmo tempo, é o nosso campo de trabalho: o mundo é o alvo da igreja. Mas esse é assunto pra outro texto.

Vemos em I Jo 2.16 que a cobiça da carne, a dos olhos e a soberba da vida são três facetas do mundo que nos afastam de Deus, pois ele nada tem a ver com elas.

A cobiça da carne fala sobre nossos desejos sexuais. O sexo é um presente de Deus para o homem, mas um presente que só pode ser usado no momento certo. Este ponto poderia ser muito desenvolvido aqui, mas o faremos em outro momento também. Por hora, consideremos que dar vazão desenfreada aos nossos desejos e impulsos sexuais é afastar-se de Deus. Sexo antes e fora do casamento, pornografia, masturbação, estimulação visual incontida, etc.. Deus tem para nós uma vida sexual muito prazerosa - e limpa, pura, santa.

A cobiça dos olhos diz respeito à nossa vontade de ter, bem traduzida como consumismo. Nossa sociedade estimula tal sentimento e em muito depende de tal para sobreviver. Mas (tentar) satisfazer o consumismo é um caminho sem fim e sem volta, que requer exclusividade. Ele depende de tanto esforço e dedicação de nossa parte que não sobra disposição para o Senhor.

E a soberba da vida é o desejo de grandeza, o querer ser cada vez mais e melhor, aparecer, ganhar destaque. É o sentimento que gerou a reprovação de Lúcifer, quando quis ser tão grande quanto Deus.

Em 2008, ouvi o Pr. Rick Warren relacionar este texto com a tentação de Jesus no deserto, em Mt 4 e Lc 4. E foi muito bem feita a relação, pois Jesus foi tentado a satisfazer sua carne com pão enquanto jejuava, a possuir os reinos do mundo que Satanás lhe oferecera e a afirmar-se como Filho de Deus jogando-se de um penhasco para que os anjos o resgatassem.

Assim como Jesus, se vencermos estas três tentações/facetas do mundo, venceremos Satanás e seremos aprovados por Deus. Jesus foi tentado no início do seu ministério e logo após passar por isso começou o cumprimento excelente de seu propósito. Se cedermos, porém, como nos afirmam João e Tiago, nos apegamos ao mundo para afastarmo-nos de Deus.

Podemos concluir com o o verso de I Jo 2.17: "Ora, o mundo passa, e a sua concupiscência/cobiça, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre". O mundo não vai nos satisfazer por completo, passará e nos deixará condenados. Agradando a Deus estaremos satisfeitos, realizados, e permaneceremos na eternidade com ele.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

I Jo 1.1-3: Como ser motivado ministerialmente

Hoje começo os devocionais sobre a primeira carta de João, para seguirmos refletindo sobre os textos deste autor sagrado. Vamos começar nossa reflexão nos primeiros 3 versos da carta:

"O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, a respeito do Verbo da vida (pois a vida foi manifestada, e nós a temos visto, e dela testificamos, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e a nós foi manifestada); sim, o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que vós também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo."

João descreve nesses versos que conheceu Jesus fisicamente. Pôde vê-lo, tocá-lo, ouvi-lo, e por isso anunciava suas palavras, para gerar nos seus ouvintes comunhão com eles e com Deus. João anunciava o evangelho por ter conhecido Jesus. E o Apóstolo amado o conheceu ao máximo. Enquanto lhe era possível, desenvolveu uma comunhão íntima e profunda com o Senhor. Tornou-se, dos doze, o mais próximo do Mestre.

Se tivermos, assim como João, uma experiência real com Cristo, conheceremos e anunciaremos sua Palavra. Se soubermos desenvolver nossa comunhão com ele, uma vez que o próprio Jesus nos chama a isso, anunciaremos o que ele nos ensinou/ensina e levaremos outros à mesma comunhão.

Poderia explorar os outros versos da capítulo, mas isso foi feito em outro post. Por hora, saibamos que seremos motivados ministerialmente se nos relacionarmos com o Senhor. Ele nos levará a cumprir sua vontade de forma natural, prazerosa. Com um sentimento de gratidão acima do de dever, pois é impossível nos relacionarmos com ele e não querermos nos dedicar à sua causa.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Somos perdoados e entendemos que somos

No último capítulo do Evangelho de João Jesus aparece para seus discípulos no Mar de Tiberíades, após uma noite fracassada de pesca deles. Jesus dialoga com os discípulos e em especial com Pedro, que é o personagem central dessa narrativa.

O Pedro que vemos aqui, que já viveu três anos com o Mestre e os viveu intensamente, como podemos ver nas suas reações descritas nos evangelhos, é um Pedro mais sensato, que se conhece melhor e também ao Senhor. Em Lucas 5, por exemplo, Jesus aparece a Pedro e outros também após uma pesca frustrada e ordena, da mesma forma, que lancem as redes novamente. Pedro o faz, mas quer deixar claro que ele sabia o que fazia: "Mestre, havendo trabalhado a noite toda nada apanhamos, mas sob tua palavra lançaremos as redes".

A forma como ele age agora é diferente. O texto não nos mostra reação de Pedro à ordem de Jesus, parece que ele a obedece silenciosamente. A esta altura, ele já conhecia seu Mestre. Pedro sabia com quem ele havia caminhado os últimos anos. E também já se conhecia melhor. O seu último episódio narrado contribuiu muito para isso: Pedro pensou que iria com Jesus até a morte, mas o negou no momento mais crucial.

O que o Senhor faz agora com Pedro manifesta seu cuidado, perdão e graça com ele e conosco. Pedro tem a oportunidade de lançar as redes e, desta vez, obedecer sem pestanejar. Num contraste com as três vezes que Pedro negou o Senhor, Jesus lhe pergunta também três vezes sobre seu amor para com ele. E Pedro tem novamente a oportunidade de fazer o certo (explorei mais profundamente este texto aqui).

Jesus não dependia desse momento para perdoar Pedro por seu erro. Acredito que ele já havia o feito há tempos. Mas Pedro podia depender disso para se sentir perdoado; agora ele entendeu que o perdão o alcançou. O Pedro que começa o capítulo 21 de João poderia ser um Pedro triste, marcado pelo seu erro; até um Pedro que queria voltar à vida que tinha antes de conhecer a Jesus. Queria voltar a pescar peixes, mas o Senhor prometera fazer dele um pescador de homens. O Pedro que encerra o capítulo está pronto para conduzir a Igreja que o Senhor implantara.

Jesus quer que o sirvamos e ele mesmo é quem providencia tudo o que precisamos para tal tarefa. Seja uma cura na alma, uma manifestação de perdão e compreensão, aceitação, amor, seja uma provisão material, etc. Parafraseando uma oração de Agostinho, ele não exige nada de nós que ele mesmo não nos providencie. Graças a Deus por seu cuidado conosco. E que o retribuamos servindo, pois é para isso que somos chamados.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Fé perseverante num Cristo vivo

Em João 20, vemos um exemplo bem oposto do que vimos no capítulo 19 com Pilatos, Nicodemos e José de Arimatéia. E o bom exemplo vem de alguém que aquela sociedade discriminava: uma mulher, Maria Madalena.

Os discípulos estavam dispersos. Jesus fora crucificado na sexta e sepultado no sábado. Na madrugada de domingo, Maria Madalena foi visitá-lo no sepulcro. Diferentemente dos personagens do capítulo anterior, Madalena havia seguido Jesus também em vida. Lucas 8.1-2 diz que ela, juntamente com outras mulheres, acompanhavam Jesus e o discípulos.

Maria Madalena foi a primeira a buscar Jesus após a crucificação. Mesmo seus discípulos não o fizeram, sequer estavam reunidos. Quando Maria vê que o corpo de Jesus não se encontra no sepulcro, corre para avisar os discípulos e só encontra Pedro e João (20.2).

A perseverança de Maria Madalena e o amor claro dela por Jesus lhe renderam um privilégio: ela foi a primeira a ver o Senhor ressuscitado. É ela quem anuncia a todos os discípulos que o Mestre estava vivo (20.18).

Sua atitude é a de quem teve uma experiência verdadeira e marcante com Cristo. A mesma referência de Lucas, citada acima e também Marcos 16.9 dizem que Jesus havia expulsado dela sete demônios. A partir de seu encontro com Jesus, ela foi liberta e transformada. Por isso, não conseguia deixar o Mestre.

Não consigo imaginar com muita facilidade alguém que conheceu ao Senhor de fato e se desviou do Evangelho muito devido a exemplos como esses. Quem conhece a graça não consegue viver sem ela. Quem experimenta o amor de Deus entende que ele é insuperável; qualquer experiência lhe é inferior.

Maria Madalena cria num Deus vivo, pois a vida que ela tinha fora concedida por ele. Mesmo a morte de Jesus não lhe afastou dele e ela pôde vê-lo novamente. Sua atitude nos serve de exemplo de perseverança e fé. Ela não imaginava ver o Senhor vivo, mas foi surpreendida por causa de sua dedicação.

Espero que o Senhor sempre encontre em nós um coração tão dedicado a ele quanto o de Maria Madalena. Com amor e devoção suficientes para buscá-lo e encontrá-lo mesmo nos lugares e situações mais improváveis. Tenhamos uma fé perseverante e certamente encontraremos um Cristo vivo!

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Fé covarde num Cristo morto

Para um cristão, ler o capítulo 19 de João é uma das leituras mais difíceis de se fazer. Jesus é ali zombado, humilhado e os judeus pedem sua crucificação decididamente. Então, ele é condenado sem que tenha ferido nenhuma lei, como reconhece Pilatos várias vezes.

Pilatos, inclusive, dá indícios de ter acreditado em Jesus. Ele não o quis condenar, fazendo-o por pressão dos judeus apenas. E quando ouviu que Jesus se "havia feito filho de Deus" (19.7), ficou atemorizado. Mandou talhar na sua cruz a alegação sob a qual foi condenado: Jesus, o nazareno, o Rei dos Judeus. Os principais sacerdotes disseram a Pilatos para escrever apenas que ele havia dito ser o rei dos judeus, não que o era. Mas Pilatos recusou-se, fazendo permanecer o escrito original.

Outros dois personagens aparecem após a crucificação, ambos demonstrando "fé" em Jesus. São eles José de Arimatéia e Nicodemos, aquele fariseu que havia conversado com Jesus em Jo 3. O verso 19.38 diz que José era discípulo de Jesus, porém em secreto, por medo dos judeus. Quanto a Nicodemos, havia ouvido uma mensagem que chamava ao arrependimento e a uma nova vida em Cristo, mas não havia atendido. Apenas agora aparecera.

Pilatos não teve coragem de assumir a fé em Cristo. Para ele, Jesus era no mínimo inocente, mas a pressão externa o levou a crucifica-lo. José de Arimatéia e Nicodemos não tiveram coragem de praticar sua fé em Cristo. José teve medo e o texto bíblico não diz por que Nicodemos não seguiu a Jesus, aparecendo somente agora. Apenas vemos que Jesus o chamou ao novo nascimento, ao desprezo da vida anterior e dedicação total a uma nova vida com Ele. E Nicodemos não demonstrou reação.

Com o exemplo desses três sujeitos, podemos refletir se nossa fé não está como a deles: uma fé covarde. Se realmente cremos em Jesus, nosso discurso, prática, pensamentos, etc., não são mais os mesmos. Mas uma convicção sem força suficiente para ser testemunhada é, no máximo, mais uma crença religiosa.

A promessa do Espírito Santo é de recebermos nele "poder para testemunhar", como Atos 1.8. Se nossa fé tem tido um testemunho impotente, precisamos do poder do Espírito Santo. Ou de uma experiência verdadeira com Cristo, que era o que Pilatos precisava. Não podemos nos contentar em cultuar um Jesus morto, como fizeram Nicodemos e José. A fé verdadeira vê e caminha com um Cristo vivo, e dele assim testemunha.

"E recebereis poder, quando descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas..."

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Quando Deus é morto pela religião

Continuando a série de devocionais sobre o evangelho de João, voltamos para o capítulo 18. Nele, Jesus é entregue por Judas às autoridades judaicas para ser julgado e, como sabemos, condenado e crucificado. Os sinais que Jesus fizera não foram suficientes para que os judeus cressem nele nem tampouco deixassem de persegui-lo. Jesus se tornara uma pedra em seus sapatos; não ficariam satisfeitos enquanto não tirassem este incômodo.

Jesus é interrogado por Pilatos, que costumava sempre soltar um prisioneiro naquela época do ano, na páscoa. Pilatos questiona aos judeus presentes no pretório, onde Jesus fora interrogado, se gostariam que ele soltasse a Jesus, dito rei dos judeus, ou Barrabás, um assaltante. A resposta já conhecemos.

Quem crucificou Jesus foram os religiosos da época, por incrível que pareça. Um de seus seguidores o traiu, entregando-o aos líderes religiosos da nação judaica. Estes, por sua vez, preferem absolver um assaltante a um homem sobre quem nem o próprio juiz pôde ver culpa. E isso em nome da religião.

Pessoas fazem absurdos por causa da religião. O religioso convencional sente-se portador da verdade que o outro não tem, por isso corre o risco de justificar qualquer ato (por mais estúpido que seja) nos seus valores religiosos, que lhe dizem possuir a verdade - ao invés de conhecê-la, como pregou Jesus.

No caso dos judeus na condenação de Jesus, a religião permitiu condenar um homem inocente em prol da posse da verdade. Permitiu libertar outro homem cuja culpa já acompanhava até mesmo sua descrição mais simples: "Ora, Barrabás era um assaltante", diz Jo 18.40. Barrabás, porém, não questionava a verdade dos judeus. Jesus o fazia. Barrabás havia roubado bens daqueles que o libertaram ou de pessoas próximas a eles, enquanto Jesus havia lhes tirado a razão.

Não podemos cair no mesmo erro dos judeus, considerando que somos donos de uma verdade inquestionável, sagrada, intocável, que justifica condenar qualquer um que a ela se opor. Jesus é a verdade, mas morreu calado por causa dela. Os judeus julgavam possui-la, e por ela mataram um inocente e absolveram um culpado.

Vendo por aqui, podemos concordar com Nietzsche, quando disse que "o homem, em seu orgulho, criou Deus, à sua imagem e semelhança". Este Deus criado pelo orgulho humano, não sendo capaz de sustentar sua frágil verdade, autoriza seus seguidores a sustentarem-na a qualquer preço. Como fizeram os judeus. E como muitos - inclusive alguns que se dizem cristãos - fazem até hoje.

domingo, 14 de agosto de 2011

Reflexões sobre a oração de Jesus - João 17

João capítulo 17 contém as últimas palavras de Jesus antes de ele ser entregue às autoridades para ser crucificado. Já foi muito abençoado por este texto, que está entre os meus favoritos na Bíblia. A oração que Jesus faz ali contém tantas verdades preciosas que citar todas aqui é praticamente impossível.

Neste texto, porém, gostaria de sistematizar algumas lições que aprendo nesse capítulo. Seguem com suas referências:

1 - 17.1-5: O que fez com que Jesus orasse pelos seus discípulos e não pelo mundo foram três fatores: terem recebido a palavra de Jesus, reconhecido sua autoridade e crido que ele é o Filho de Deus. Esses pontos chamam a atenção do Senhor para nós.

2 - 17: O momento anterior à maior aflição de Jesus foi precedido pela oração. Não pelo simples desespero ou aflição, mas pela oração. E Jesus orou por outros, quando a sua hora havia chegado. O Mestre se preocupava com os seus incondicionalmente.

3 - 17.6-8; 12; 26: No final da caminhada, Jesus pôde dizer que cumpriu o seu propósito. Lembro-me da morte de John Stott, há poucos dias. Um homem que também cumpriu o seu propósito. Devemos lutar para chegarmos ao final da caminhada sem motivos de lamento e/ou arrependimento.

4 - Jesus fez 4 pedidos pelos seus discípulos: que Deus os guardasse do mal para que a unidade fosse promovida no meio deles (11, 15); lhes desse santificação (17-19); que eles tivessem, mesmo após a cruz, comunhão com Jesus (24) e que o amor de Deus neles fosse manifestado (26). Cabe muito a nós respondermos esses pedidos de Jesus. Nossas atitudes podem providenciar o contexto para que o Senhor faça tudo isso em nós.

5 -(18, 20-21, 23) A missão de Jesus "não terminou no fim" e se estende aos discípulos e a nós. Somos a continuidade da obra que Jesus fez na cruz. Seu ministério terreno nos serve de norte e, como ele mesmo disse, podemos fazer mais do que ele mesmo fez (Jo 14.12).

A oração sacerdotal é o último discurso de Jesus, no qual ele declara a continuidade da sua missão e o cumprimento daquilo que lhe cabia até então. A perseverança de Jesus, todo o seu esforço para que seus discípulos cressem nele, as tensões que tivera com as autoridades e com os religiosos - e mesmo com os seus discípulos, culminavam agora no sucesso do seu propósito.

A vida de Jesus não foi fácil ou agradável. Não o vemos desfrutar de conforto ou lazer, o Mestre trabalhou incansavelmente mesmo estando limitado no corpo humano, como nós. Alguém muito otimista (e tolo também) diria que o Mestre teve uma vida difícil para que tivéssemos conforto agora. E/ou que ele viveu trabalhando muito para que descansássemos.

O cap 17 começa com a frase: "Tendo dito estas coisas, Jesus levantou os olhos ao céu, e disse:(...)". "Estas coisas" que Jesus havia dito terminaram em Jo 16.33, dizendo que teríamos aflições no mundo, mas como ele venceu o mundo, poderíamos ter bom ânimo. As aflições de Jesus também nos servem de exemplo para a prática. Nossa entrega a ele deve ser do mesmo nível. Afinal, foi o amor do Pai por Jesus e o seu amor por nós que o motivaram. Como Jesus nos amou assim como o Pai a ele e devemos amar ao próximo como a nós mesmos, este caminho é digno de nós.

Que no final, assim como Jesus, possamos declarar o cumprimento do nosso propósito. E que no caminho, esse propósito de servi-lo e fazer seu nome conhecido nos motive o tempo todo.

sábado, 13 de agosto de 2011

Se seremos consolados...

A partir do capítulo 13 do Evangelho de João, Jesus está na última semana que antecede a crucificação e dedica um tempo exclusivo aos discípulos, dando-lhes várias instruções: sobre o serviço, as dificuldades vindouras, seu retorno para lhes buscar, sobre o Espírito Santo, etc.

No capítulo 16, o Mestre fala sobre a vinda do Espírito Santo, seu papel, dá alguns alertas aos discípulos e fala sobre sua segunda vinda. O papel do Espírito Santo, tema mais desenvolvido neste trecho, é o convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo (16.9-11); guiar os discípulos à verdade e anunciar as coisas futuras que tiver ouvido de Jesus (16.13-15) e, o que quero destacar aqui, consolar (16.7).

Se consolar é uma tarefa do Espírito Santo, ou do próprio Deus, como podemos considerar, já entendemos que precisaremos ser consolados. O que nos remete a uma vida cristã potencialmente sofredora, na qual enfrentaremos mesmo tudo o que Jesus disse - e que nos esquecemos facilmente - , todas as aflições, perseguições e lutas.

Se o Espírito nos é enviado para consolar, é incoerente pensarmos num evangelho que transforma nossa vida num mar de rosas com abundante prosperidade e ausência de tribulações. É fato que somos guardados pelo Senhor de todo mal, mas sofreremos lutas justamente por causa do seu nome, como ele mesmo disse. Do cap. 13 em diante no seu evangelho, o próprio João nos mostra inúmeras referências sobre isso.

Teremos uma vida cristã de desafios. Viver o Evangelho não quer dizer "aceitar a Cristo" para ter uma vida melhor. Mas, receber a graça da salvação e comprometer-se com ela, levando de graça essa mesma graça que recebemos. E lembrando que, se nos fora prometido o Consolador, haverá momentos de tristeza e dificuldades. Mas o próprio Deus é quem estará em nós, consolando-nos e motivando-nos a continuar no caminho.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

"Farei tudo o que pedirem em meu nome..."

Capítulo 14 do Evangelho de João. Jesus está fazendo um discurso aos discípulos preparando os seus corações para a crucificação. Os versos 14.1-14 nos mostram um discurso de ânimo, esperança e ensinamento, com Jesus garantindo aos discípulos que, indo para o Pai, lhes prepararia lugar e os buscaria depois.

A conclusão deste discurso de Jesus traz uma declaração totalmente coerente com tudo o que o Mestre tem dito até aqui. Porém muito estranha, se a lermos sob a ótica do nosso tempo e da realidade das nossas igrejas, principalmente dos nossos púlpitos. O Senhor diz que tudo o que pedirmos no nome dele, ele o fará. E o afirma duas vezes, nos versos 13 e 14, para deixar bem claro.

Vendo com quem Jesus está falando, sua promessa faz sentido. Jesus caminhou com estes homens três anos. Fez de tudo para lhes mostrar quem ele era de fato e para que cressem nele e seu objetivo foi alcançado, como nos diz Jo 17.6-8. O Senhor falava com pessoas que sabiam quem ele era, haviam recebido a sua palavra e estavam comprometidos com sua obra.

Alguém com esse perfil certamente será atendido por Deus em todos os seus pedidos. Não por que o Senhor o tem como preferido ou que essa seja a fórmula mágica para se alcançar algo de Deus; mas por que quem age dessa forma, terá a sua vontade coerente com a vontade do Pai.

Em Jo 14.13 Jesus disse que faria qualquer coisa que fosse pedida em seu nome para que o Pai fosse glorificado. Tiago 4.3 nos diz que costumamos fazer pedidos a Deus e não sermos atendidos porque pedimos mal, para atender aos nossos próprios prazeres. Quem conhece a Cristo de verdade e o serve, terá seus pedidos atendidos por causa da natureza e intenção deles: glorificar o Pai.

Há orações que o Senhor nunca deixa de responder. Se pedirmos pelo Espírito Santo, ele certamente nos responderá. Se quisermos ser usados por ele, idem. Se orarmos para que sejamos fortalecidos contra o pecado, para que a injustiça diminua - a começar na nossa prática, para que "venha o teu reino", como diz a oração modelo. O Senhor não deixará de atender tais pedidos, pois são de acordo com seus planos para nós.

Que tal, a partir do dito de Jesus sobre a oração, refazermos o verso de Tiago 4.3?

"Pedimos e recebemos, porque pedimos bem. Para satisfazer a vontade e cumprir os planos do Senhor, não os nossos próprios caprichos."

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Servindo como Jesus IV - Apontando a salvação

Quando Jesus foi lavar os pés de Pedro, este se recusou no primeiro momento. Certamente todos os discípulos ficaram surpresos com a atitude de Jesus, mas Pedro foi quem o manifestou (Jo 13.6-7). Ver o Mestre assumir uma posição tão humilde deve ter levado todos a se questionarem. Se Jesus, que era o maior deles, assumia a mais baixa posição em seu meio, o que eles seriam ou o que deveriam fazer?

A resposta de Jesus à negação de Pedro é que ele não estaria entendendo completamente naquele momento, mas que depois ele entenderia. O serviço humilde era apenas um esboço da entrega de Jesus aos seus - e a nós. Quando Jesus fosse crucificado, Pedro teria total entendimento do que realmente era o sacrifício de Cristo. Não um simples sacrifício de seu orgulho ou posição, mas de sua vida completa.

O serviço exemplar de Jesus apontava para a sua obra redentora. O serviço que fazemos para o Senhor deve seguir o mesmo norte, tendo seu sentido completo com a mensagem da cruz. Servimos por que o Filho de Deus nos serviu, amou e se entregou por nós. Tentamos entregar um pouco do muito que recebemos.

Que possamos executar da tarefa mais simples à mais ilustre, com qualquer que seja o nosso trabalho apontando para a cruz de Cristo. Dele é a glória pelo nosso serviço.

O amor só existe na unidade

Quando Jesus resume toda a lei ele o faz em dois mandamentos que envolvem o mais nobre dos sentimentos: amar a Deus e amar ao próximo. Estes mandamentos o Apóstolo João entendia muito bem. Chamado no seu próprio evangelho de discípulo amado, ele narra discursos de Jesus nos quais ele é incisivo neste ponto.

Um destes discursos ocorre na ceia anterior à páscoa, pouco antes da crucificação, cena narrada em Jo 13.21-35. Jesus está com seus discípulos e o texto diz que seu espírito se perturbou, e então ele anunciou que seria traído. Consciente disso, Jesus incentiva Judas a apressar-se para fazer o que queria, o que leva o traidor a deixar a ceia.

Nos versos de Jo 13.31-35, Jesus diz que ele seria glorificado logo, o que entendemos ser com sua morte e ressurreição. E dá um "novo mandamento", como ele mesmo o diz, aos seus: que eles amem uns aos outros assim como haviam sido amados por Jesus.

Este é um desafio enorme. Afinal, Jesus nos amou a ponto de morrer por nós. E ele ainda diz que seremos reconhecidos como seus discípulos por fazermos isso. E este elo de ligação entre nós e o Senhor é muito belo. Somos marcados pelo amor que temos uns pelos outros, e temos este amor porque fomos amados primeiro por alguém que, de tão perfeito e grande, não veria nada de interessante em nós.

Me chama atenção o momento em que Jesus diz isso. Por que ele não o disse quando Judas ainda estava à mesa? Esta declaração é feita logo após a sua saída. Entendo que só é possível manifestar e viver o amor quando há unidade no nosso meio. Penso isso remetendo-me ao contexto de nossas igrejas. Se dentro delas houver contendas, discussões, disputas, etc., não conseguiremos viver o amor que recebemos de Cristo. Logo, não seremos seus discípulos.

Para vivermos o amor, precisamos de unidade. O "Judas" deve sair do nosso coração. A discórdia deve dar lugar à união, e então conseguiremos ser discípulos verdadeiros, colocando em prática o amor que recebemos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Servindo como Jesus III - matando o orgulho

Jesus de fato assumiu o papel de servo, até literalmente. Quando Jesus levanta-se da ceia e veste-se com uma toalha para lavar os pés dos discípulos, ele toma atitude que nos diz mais do que parece (Jo 13.4).

Uma casa daquela época poderia ter dois tipos de servos: o diácono e/ou o doulos, ambos termos do grego. O diácono era um servo que poderia representar seu Senhor em determinadas situações, como numa negociação. O doulos era aquele que fazia o serviço que o judeu não se acharia digno de fazer. Lavar os pés, então, era uma tarefa para o menor da casa.

Richard Foster, grande autor cristão, supõe que no momento daquela ceia, como não houvera o servo doulos, os discípulos poderiam ter ficado se perguntando quem assumiria tal tarefa. Decerto, diz ainda Foster, a maioria deles não objetivava ser o maior de seu grupo, mas também ninguém queria ser o menor.

Jesus é o primeiro entre os discípulos (e entre nós) a assumir o papel menos importante para nos mostrar o exemplo mais nobre. Jesus nos ensina a servir, a fazer o trivial, o comum, como forma de servirmos a Deus e abençoarmos ao outro. E isso sem atentar para quem somos ou o que temos, qual nossa posição ou status.

Como o texto de Filipenses 2 nos lembra, ele era Deus e assumiu a forma de servo. O Todo Poderoso, o Verbo da Vida, lavou os pés aos seus discípulos. E nós, nos recusaremos a servir aos nossos irmãos, até os mais simples, por nos acharmos alguma coisa?

Fomos servidos pelo Rei dos Reis. Não há ninguém menos importante do que nós nessa relação. Logo, devemos servir indiscriminadamente, como Senhor, e em detrimento do nosso orgulho.

Servindo como Jesus II - Com consciência e foco

"Sabendo Jesus que a sua hora de passar deste mundo para o Pai já tinha chegado..."
Jo 13.1

"Jesus, sabendo que o Pai tinha depositado nas suas mãos todas as coisas, e que havia saído de Deus e ia para Deus..."
Jo 13.3

Muitos exercem determinadas funções e/ou têm ministérios na igreja. E graças a Deus por isso, pois essa iniciativa visa o serviço cristão, o que é bom.

Tantos outros, porém, estão limitados somente a exercerem uma função/tarefa, sem de fato servirem a Cristo. Isso é possível quando se faz determinada atividade por pura convenção social, com motivações egoístas, para agradar ao pastor ou aos pais, filhos, namorados, cônjuge.

Outra forma ainda mais simples de cometer este erro é servir sem propósito, sem saber onde se quer chegar; erro que Jesus não cometeu. Quando João diz que Jesus foi servir aos discípulos lavando-lhes os pés, ele faz questão de deixar claro que o Mestre sabia quem ele era, de onde vinha e para onde ia.

Todas as vezes que alguém serve num ministério que não contribui de alguma forma para sua vocação - talvez até por esse alguém não saber qual a sua vocação, sempre que se serve sem saber com qual objetivo se executa tal tarefa, com foco e consciência distantes, não se segue o exemplo de Jesus à risca.

Sabermos onde o Senhor quer que cheguemos é fundamental para servirmos com excelência. Se tenho vocação pastoral, servirei numa área que motive minha leitura bíblica, estudos teológicos, contato com os irmãos, aconselhamento. Se missionária, me envolverei ao máximo com evangelismos, trabalhos sociais, etc. Afinal, sei onde quero chegar, lembro-me de onde vim e também onde e como estou.

Jesus serviu com consciência para nos dar o exemplo. Seu auto-conhecimento era um recurso a seu favor, assim como o nosso deve ser. Sirvamos como Jesus, buscando conhecer-nos melhor e visualizar o propósito do Senhor para nós, para mirarmos nele.

Servindo como Jesus I - A despeito das adversidades

João 13 é de longe o meu capítulo favorito da Bíblia. O exemplo serviçal de Jesus ao lavar os pés dos discípulos é uma lição preciosíssima de humildade, autoconhecimento, consciência ministerial e, paradoxalmente, até de seu senhorio e soberania.

Após lavar os pés aos discípulos, Jesus diz que, uma vez que saibamos que ele o fez para nosso exemplo, seremos bem-aventurados se o fizermos também.

O verso 2 deste capítulo começa a nos dar o exemplo de como Jesus serviu. Ele diz que o diabo já havia posto no coração de Judas que traísse Jesus. E como o Mestre reage, vemos nos versos 4 e 5:

"levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha cingiu-se com ela. Depois colocou água numa bacia, e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido".

Mesmo sabendo que sofreria uma traição que o levaria à morte, Jesus não deixou de servir aos seus discípulos, inclusive ao traidor. Seu exemplo para nós começa aqui, lembrando-nos de um erro muito comum de cometermos: pararmos o serviço quando nos deparamos com uma tribulação.

Este erro é tão comum que acometeu até o autor do salmo 42, quando diz que sentia saudades de quando conduzia a procissão até a casa de Deus. Este salmista, que não dava razão ao sofrimento de sua alma, perguntando-lhe repetidamente a razão de estar abatida e encorajando a si mesmo a esperar no Senhor, teve como consequência de sua luta pessoal um afastamento do serviço (falei sobre isso em uma outra mensagem).

Nossos problemas não devem parar a nossa obra. Precisamos persistir em servir, mesmo sob dificuldades, pois o Senhor assim o fez para nos dar exemplo. Se passamos por uma dificuldade qualquer, Cristo é o primeiro a quem devemos recorrer para encontrarmos segurança e solução. Nessa hora, será que a atitude ideal é nos afastarmos dele e de seu serviço, esperando que ele aja por nós?

Sirvamos a todo tempo. Sejamos bem aventurados seguindo o exemplo do Mestre, uma vez que já o conhecemos.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Servindo com esperança, mas sem expectativas

O capítulo 12 de João encerra a primeira parte de seu livro, chamada de Livro dos Sinais. Nele, Jesus está entrando em Jerusalém para viver sua última semana e ser crucificado.

Se olharmos para o que Jesus fez até aqui, considerando apenas a narrativa de João mesmo, já temos motivo para concluir que sua crucificação será puramente por motivações políticas, pois seria impossível que as multidões que presenciaram tantos sinais ainda não cressem nele. Mas, o verso 37 diz: "Apesar de ter realizado todos esses sinais miraculosos na presença deles, ainda não criam nele".

A entrada de Jesus em Jerusalém é o cumprimento do seu propósito. Jesus sabe que entra lá para sofrer na mão dos judeus e para morrer crucificado. Os vs. 23-33 resumem bem isso. E o 25, dentre esses, juntamente com o 37 que lemos acima, me chama a atenção. Diz: "Quem ama a sua vida perdê-la-á, mas quem odeia (e no original está escrito "odeia" mesmo, "detesta") a sua vida neste mundo, guardá-la-á para a vida eterna". Assim como o Senhor estava fazendo neste momento, perdendo, entregando a sua vida.

A lógica motivacional de Jesus é não-convencional, no mínimo. Quem quiser ser o maior é o que deve servir (isso será dito no cap. 13), quem quiser ganhar a sua vida deve perdê-la, o momento que Jesus será glorificado é o momento da sua morte (vs. 23).

Para servirmos ao Senhor, devemos fazê-lo também com uma lógica diferente: fazer o máximo possível, com todas as nossas forças, entregar a nossa vida ao ponto de colocá-la em risco e perdê-la, se necessário; mas certos de que não veremos a vitória nessa vida.

Jesus serviu dessa forma. Sua glória deu-se na ressurreição. Afinal, não creram na sua mensagem, por isso o crucificaram. Servir a Cristo é certeza de vitória no final, bem no final, quando o Senhor voltar. E particularmente, eu não creio que isso vá acontecer enquanto nós ainda estivermos vivos aqui.

Servir a Jesus é dedicar-se de corpo e alma a uma causa que não ganharemos nessa vida. Portanto, devemos fazer o melhor, e sem grandes expectativas de sucesso, pois nem Jesus o alcançou da forma convencional. Se pregarmos e ninguém crer, se orarmos por alguém e esse endurecer o coração, se nos esforçarmos pelo Senhor e não vermos o reconhecimento de ninguém; esse foi o modelo ministerial de Jesus e de tantos outros que o seguiram.

Quem não tem expectativas não se frustra. Nossa expectativa deve ser a de cumprir o nosso propósito, servir a Cristo. Os resultados vêm da mão dele, não dependem de nós. Plantamos a semente, mas é ele quem dá o crescimento. Nosso serviço não deve se basear na expectativa de sucesso ou de grandes resultados, mas na esperança do cumprimento da maior promessa do Senhor, de que um dia ele nos buscará e aí sim, seremos recompensados.

Façamos o melhor, pois é apenas o que ele exige de nós. E troquemos a expectativa pela esperança. Pois a esperança na promessa do Senhor não corre o risco de se frustrar.

sábado, 6 de agosto de 2011

Deus se envolve emocionalmente com nossas questões?

Uma das ênfases de João em seu Evangelho é a humanidade de Jesus. O evangelista faz questão de retratar episódios que destacam seu lado humano, como o fato de ter feito lodo para curar um cego, por exemplo (Jo 9.6-7). João ainda nos mostra a infância de Jesus com exclusividade, sendo o único evangelista a fazê-lo. Jesus pediu água para beber (4.7), chamou a si mesmo de Filho do homem (8.28, entre outros), etc.

No capítulo 11 do Evangelho, Jesus é informado de que Lázaro, seu amigo, estava doente. Jesus dispõe-se a ir até ele, mas ainda demora dois dias onde estava (11.6). O Mestre sabia que Lázaro morreria e que ele o ressuscitaria (11.11-15). A demora para se deslocar e o fato de ter chegado já quatro dias depois que Lázaro havia sido enterrado não tirava o Senhor do controle da situação (11.17).

Aqui o que me surpreende: Jesus sabia que Lázaro estava morto e já estava certo de que o ressuscitaria. Ele antecipa isso a Maria antes de fazê-lo (11.23). Se ele já tinha tudo sob controle e sabia de antemão como tudo aconteceria, por que chorou ao chegar onde Lázaro estava (11.35)?

A conclusão da narrativa é mesmo a prevista: Jesus ressuscita o seu amigo, o que causa um alvoroço entre os judeus, para variar.

A comoção de Jesus deve nos remeter ao seu cuidado conosco. A sua pré-ciência não afetou a maneira de tratar a dificuldade de seu amigo e sua família; ainda que sabendo e controlando tudo, ele estava emocionalmente envolvido. Este lado humano de Jesus motiva-me ainda mais a servi-lo e espero que faça o mesmo contigo. O Senhor cuida de nós e não o faz somente porque ele pode ou por ser "parte de sua função". O faz porque assim deseja, e o faz com o coração dedicado, emocionalmente envolvido com o nosso cuidado.

Glória a Deus por cuidar tanto de nós.

Disposição incondicional, ainda que falte a fé.

À altura do capítulo 11 do Evangelho de João, Jesus já está bem odiado pelos judeus. Já haviam pegado pedras para apedreja-lo, tentado prendê-lo e a cada momento procuram razão para matá-lo.

Neste capítulo é anunciado a Jesus que Lázaro, irmão de Marta e Maria havia morrido. Jesus era muito amigo dos três, como diz o texto. Então, ele decide ir até a Judéia com seus discípulos, onde há pouco eles tentaram apedrejá-lo, como os próprios discípulos o lembram (11.8). Jesus está mesmo decidido a ir, pois vê ali uma oportunidade de aumentar a fé dos seus discípulos (11.14-15).

Tomé, aquele mesmo que quando Jesus ressuscitou duvidou que de fato era ele quem tinha aparecido aos seus amigos até que tocou em suas feridas, toma a palavra. Isso só acontece mais duas vezes no texto de João (e também nos outros evangelhos), no cap. 14, num diálogo com Jesus sobre sua morte e ressurreição e no cap. 20, quando Jesus lhe aparece já ressurreto. Tomé diz: "Vamos todos nós também para morrer com ele".

Caso voltassem para a Judéia, a morte era certa. O que não inibiu Tomé de querer continuar com o Mestre. Sabemos que Tomé foi o único que não estava na primeira aparição de Jesus ressurreto aos discípulos e por isso duvidou que de fato era Jesus que lhes aparecera (20.24-29). Aqueles que creram sem que precisassem tocar em suas feridas, como Tomé fez questão de fazer, foram chamados bem aventurados.

Todos os sinais que Jesus operou até este momento com os discípulos tinham o objetivo de lhes gerar fé. A formação deles ainda caminhava e Tomé nos demonstra mais tarde que ainda não estava totalmente pronto. Porém, sua disposição nos mostra uma entrega sem reservas, que está disposta a ir até onde consegue. Ainda que lhe fosse real um pouco de dúvida, Tomé estava disposto a tudo pelo Senhor. Ele já havia visto o suficiente para conhecer a Jesus e saber que ele era o Filho de Deus.

A exemplo de Tomé, o fato de não sermos perfeitos não deve nos impor limitações. Sabemos quem é Jesus e isso já é suficientemente motivador. O Senhor é gracioso e age conosco assim como com Tomé, ajudando-nos na nossa falta de fé. Não deixemos que acusações sobre as nossas imperfeições ou por aquilo que ainda não alcançamos com o Senhor nos impeça de darmos o máximo a ele. Ainda que nos falte a fé, que seja abundante a disposição para servi-lo.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Sucesso ministerial, segundo João

Tenho tentado limitar-me a uma publicação por capítulo na leitura do Evangelho de João. No capítulo 10 encontrei um desafio, mas fiz uma difícil escolha pelos dois últimos versos, 41-42.

Após dizer ser o bom pastor, que dá a vida pelas ovelhas (10.11) e lhes concede a vida eterna (10.28), Jesus é novamente perseguido pelos judeus (10.39). Então ele se retira para o lugar em que foi batizado por João Batista, permanecendo ali durante algum tempo (10.40).

O que João diz no vs. 41, após tudo isso, é o que me chama a atenção:

"Muitos iam procurá-lo e diziam: Embora João não tenha feito nenhum sinal miraculoso, tudo o que ele disse a respeito deste homem (Jesus) era verdade. E muitos ali creram nele".

Em abundantes referências, João está deixando claro para nós o propósito dos sinais que Jesus fazia: levar o povo a crer nele (2.11; 2.22-23; 4.48; 5.36; 6.14; 7.31; 9.16-17; 9.32-33; 10.20-21, 25, etc.). Ao contrário de Jesus, que fez vários milagres, João apenas pregou sobre o arrependimento necessário para se receber o reino de Deus, vindo através de Jesus, que ele entendia ser o Cristo.

Há muitos hoje através dos quais Deus opera milagres e tantos outros que não. Mas, tenhamos nós um ministério de um jeito ou de outro, nosso objetivo é comum aos exemplos de João Batista e de Jesus: levar muitos a crerem nele. Os sinais que operarmos ou a mensagem que pregarmos têm este único objetivo.

Os sinais de fato acompanharão aqueles que crerem. Mas devemos estar conscientes que, apesar de João não ter operado milagres, o maior dos sinais estava com ele: pessoas se arrependeram de seus pecados e creram nas palavras de Jesus. Eis aí um ótimo parâmetro para medir o nosso "sucesso ministerial": quantos estão crendo em Jesus através do que fazemos/dissemos

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O que importa é que agora vejo!

Em Jo 9, Jesus curou um cego de nascença. O povo nunca ouvira falar de algum cego de nascença ter sido curado, por isso surpreendeu-se com Jesus. Não conhecendo o Senhor e achando que se tratava de mais um pecador comum, se espantavam com a forma como curara aquele homem. Por causa deste sinal, alguns acreditaram que ele vinha de Deus.

A narrativa de seu episódio é grande: 41 versos. Neles, a cura do cego é questionada. Seus pais são interrogados e ele também, duas vezes. O homem é vítima de uma grande falta de compaixão por parte dos fariseus, que valorizaram mais o sábado do que sua cura. O (ex) cego tem sua palavra desacreditada e é acusado de ser "nascido em pecados", de ter nascido com tal problema por causa dos pecados de seus pais.

Pode acontecer conosco: recebemos a Cristo, nossa vida melhora. Somos abençoados por Deus, ele nos ajuda a mudar algumas atitudes e a viver melhor. Temos comunhão com o Espírito Santo, realmente nos entregamos ao Senhor. Mas alguém aparece para duvidar da nossa transformação. Questionam a verdade daquilo que experimentamos e ainda nos acusam com o que entendem ser o nosso passado.

Nossa atitude deve ser a que acredito ter sido a do (ex) cego: "o que importa é que agora vejo!", diria. Jesus abriu nossos olhos. Pode parecer loucura para muitos, mas o importante de fato agora é que vemos quem Jesus é. Com os olhos bem abertos, vendo as coisas espirituais como de fato são, vale a pena passar qualquer coisa por Jesus.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Não julgar, não se contaminar, preocupar-se com o que importa

João diz que uma mulher pega em flagrante adultério foi levada a Jesus, em 8.1-11. Isso depois de Jesus contrariar alguns judeus com o que ele fazia. O texto diz que lhe apresentaram a mulher e perguntarm a Jesus o que fazer como uma armadilha, para testá-lo (8.3,6).

Aprendo três lições que para mim são muito preciosas neste texto.

A primeira delas é a mais óbvia, sobre não julgar. Jesus já disse aqui mesmo em João que ele não veio para julgar ninguém, e agora confirma seu discurso na prática. Ele demonstra que todos são tão pecadores quanto a mulher adúltera e não a condena (8.7-11).

A segunda eu aprendo enquanto teólogo, parte de um grupo de leitores da Bíblia que gosta de fazer perguntas - relevantes e não - para o texto lido. Não sei quantas vezes já vi alguém morrer de curiosidade e até especular sobre o que Jesus escrevera no chão enquanto estava inclinado, com a mulher a sua frente.

Uma mulher flagrada em adultério era apedrejada, como texto nos conta. E ela era levada como tivesse sido apanhada para a sua execução. Jesus estava diante de uma mulher nua, muito provavelmente (dificilmente alguém seria flagrado em adultério de outra forma). Diante disso, fica difícil querer preocupar-me com o que Jesus escrevia na terra: o fato de ele respeitar a nudez da mulher não a olhando diretamente e preservar-se de ser tentado com aquela cena já diz o suficiente ao meu coração.

É tão comum querermos nos ocupar com o que não importa... Então, ficam três lições simples de Jesus neste episódio: não devemos julgar, pois nem ele o fez; sua atitude de respeito e de santidade deve ser copiada; e olhemos para o que importa de fato, não o periférico. Certas perguntas no máximo satisfazem uma curiosidade sem propósito. Mas perguntas certas trazem respostas transformadoras.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Vendando os olhos com o preconceito e o orgulho

No capítulo 7 de João Jesus faz outro grande discurso sobre si mesmo. Nessa ocasião, muitos já queriam matá-lo (7.1, 19-20, 30, 32, 44) mas o texto diz que não o fizeram porque ainda não havia chegado a sua hora. Notemos que não deixaram de fazê-lo por causa da multidão ou dos judeus, mas João deixa claro que foi porque ainda não era a sua hora (7.6-8, 30, 43-45).

Deus estava no controle de tudo, não as circunstâncias. Sempre é assim conosco também, por mais que insistamos em não perceber ou reconhecer.

Os guardas que não conseguiram prender Jesus se apresentaram aos seus superiores. Neste trecho, de 7.45-53, vemos que os principais sacerdotes e fariseus ouviram que as palavras de Jesus eram excepcionais; tinham no mínimo, motivos para ouvi-lo e confirmarem por si mesmos. E foram incentivados por Nicodemos a fazê-lo (7.50-51).

Sua reação, porém, é levantarem três perguntas: se os guardas também foram "enganados" por suas palavras; se alguém "relevante", superior à "plebe", como os chefes dos fariseus haviam crido nele, e se não era óbvio que não poderia sair profeta de onde sabiam que Jesus viera.

Para estes homens, era claro que somente pessoas sem instrução acreditariam no que Jesus dizia, pois suas palavras eram enganosas e irrelevantes. E não poderia vir profeta da Galiléia, devido à excepcionalidade histórica deste fato. Temos aqui 8 versos dos mais carregados de preconceito e de soberba das Escrituras. Tais atitudes cegaram-lhes para verem quem Jesus era de fato.

De tantos pontos relevantes neste capítulo, opto por destacar o lado negativo do preconceito e da soberba implícitos aqui. Pois vemos que aqueles que agem dessa forma eram pessoas religiosas, os principais judeus da época. Infelizmente é muito comum que nós cristãos ajamos da mesma maneira, tendo a certeza de que possuímos a verdade - até por sermos cristãos, achando-nos superiores a outros e fechando nossa mente para qualquer situação que fuja aos nossos conceitos pré-definidos.

Temos preconceitos contra outras religiões, denominações, contra o pensamento acadêmico, muitas vezes. Alguns extremos ainda carregam preconceitos de cor e raça, mesmo sendo cristãos. Nos achamos superiores àqueles que consideramos estarem errados, abraçando o orgulho e a soberba.

Aprendamos com o erro de outros. Aqueles religiosos já nos deram o mau exemplo e ele está registrado para que não façamos o mesmo. No lugar de preconceito e orgulho, busquemos a humildade e a simplicidade.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Mirando nossos esforços em Jesus

Jesus disse ser o "pão da vida" em Jo 6.35. O momento que ele profere tal declaração é logo depois de fazer a primeira multiplicação dos pães, narrada em Jo 6.1-15. Uma multidão havia ido atrás dele após a multiplicação, e então Jesus os confronta por estarem seguindo-no apenas por terem sido saciados de alimento no dia anterior (6.26).

Jesus usa duas ilustrações semelhantes para falar sobre o que ele representava àqueles que o encontravam: ele dá a água viva (Jo 4.10-14) da qual quem beber nunca mais terá sede (4.13-14) e é o pão da vida, do qual quem comer nunca mais terá fome (6.35).

O pão que na oração pai-nosso, por exemplo, representa a provisão de alimento (Mt 6.9-13 e Lc 11.2-4) é o básico necessário para se sobreviver. A mesma representação é usada por Jesus ao responder Satanás após ser tentado (Mt 4.1-4 e Lc 4.1-4).

Trabalhamos dia após dia para conseguirmos tal provisão básica: para termo o "pão de cada dia", para nosso sustento. E via de regra, nossos maiores esforços estão concentrados na obtenção de nosso sustento, o que é normal. Você já fez um paralelo entre o tempo que gasta trabalhando para se sustentar ou para adquirir o que deseja/precisa e o tempo que gasta dedicando à sua família, por exemplo?

O verso de Jo 6.27 nos traz uma palavra de Jesus que vai contra essa lógica: "trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a ida eterna (...)". Jesus, que diz ser o pão da vida, nosso alimento que conduz à vida eterna, está dizendo que não vale a pena concentrar nossos esforços na obtenção do nosso sustento, apenas.

Obviamente, não incentivarei aqui que você deixe o seu trabalho e vá pregar o evangelho durante o horário comercial. Entendo do Senhor, porém, que nossos esforços e trabalho devem tê-lo como prioridade e não alguma de nossas necessidades, ainda que as mais básicas.

Fazer isso parece impossível. Mas podemos trabalhar normalmente e priorizar a Cristo no nosso trabalho. Enquanto atendemos um cliente, por exemplo, podemos fazê-lo com excelência e boa disposição, cativando-o e apresentando-lhe a Cristo. Podemos dedicar parte do nosso tempo ao trabalho voluntário e também do nosso ganho financeiro à obra de Deus.

Não deixaremos de buscar o nosso sustento, mas quando olharmos para nossos esforços, devemos buscar o ideal de vê-los apontando para Cristo, não para nossas próprias necessidades ou desejos, apenas.

"Não andeis ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e pela súplica, com ações de graças, sejam as vossas petições conhecidas diante de Deus. E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus" Fp 4.6-7

"Buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas (comida, bebida e vestuário, necessidades básicas descritas nos versos anteriores) vos serão acrescentadas" - Mt 6.33