sábado, 26 de junho de 2010

A atual mensagem dos velhos profetas

Ultimamente tenho estudado os profetas do Antigo Testamento. Especificamente aqueles que profetizaram no período anterior aos exílios sofridos por Israel e Judá, as duas nações irmãs que se separaram por discordâncias políticas e religiosas.

Para quem está “boiando”, o povo hebreu era um povo nômade que recebera a promessa de Deus de que um dia tomaria posse de uma terra fértil para ali se estabelecerem. Este povo se organizava em forma de tribos, cada uma sendo chamada pelo nome de um dos filhos de Jacó, posteriormente chamado Israel. Quando esta nação nômade e tribal conquista a sua terra prometida, no intuito de tornar-se uma nação forte frente às demais, ela requere um rei que governe sobre si. Deus não queria muito isso, preferia que ele mesmo governasse seu povo, mas cedeu à pressão deles. O problema é que o rei, que deveria governar em favor do povo e no nome de Deus, o fazia na maioria das vezes em detrimento do povo por benefício próprio e contra Deus, levando este mesmo povo a pecar das mais diversas formas.

Daí surgem os profetas, com a difícil tarefa de denunciar os erros ou os pecados tanto do rei quanto da nação, para livrá-los do juízo divino – prenunciado como a perda da preciosa terra prometida, ou o exílio que sofreram. Mas nem tudo eram pedras: os profetas também levavam consigo uma mensagem de esperança e apontavam claramente o caminho para o conserto. Qualquer que desse crédito ao profeta – que obviamente era a voz de Deus – se daria bem.

O que mais tem me chamado a atenção nestes estudos são os pecados dos quais os profetas se encarregam de denunciar: na sua maioria se tratam da exploração dos pobres em favor de uma classe mais abastada, dos políticos da época, e da corrupção religiosa do povo da nação. Uma mensagem de conteúdo extremamente relevante, que buscava estabelecer a justiça no governo e levar o povo a uma prática religiosa verdadeira.

Entender a mensagem profética daquele tempo à luz do nosso faz-se uma tarefa desafiadora. Como um homem brasileiro e religioso, se pudesse escolher por extinguir dois males da nossa sociedade - principalmente estando sob as influências destes estudos de hoje - possivelmente acabaria com a corrupção no nosso governo e com a exploração desenfreada, maliciosa e também corrupta da fé dos nossos compatriotas. Certamente isso faria de nós uma nação tão melhor que dificilmente conseguiremos mensurar em nossa imaginação o quão beneficiados seríamos.

Com o fim da corrupção, teríamos o fim da injustiça social. Com o dinheiro público usado exclusivamente em favor do povo, teríamos políticas sociais suficientes para tirar a necessidade que tantos jovens menos favorecidos enxergam de entrarem para o crime para se sustentarem. Se os poderosos da nação usassem seu poder para distribuírem as riquezas de nosso país ao invés de somente acumulá-las para si, não haveria quem não tivesse um pedaço de chão para construir sua vida.

E no âmbito religioso, se fossem exterminados os lobos que vestem seus ternos – ou suas estolas – e buscam tirar a lã das ovelhas para tecerem seus luxuosos agasalhos, como seríamos mais felizes! Esses mestres de quem nunca aprende alimentam o que há de pior em seus fiéis: a alienação política e social em favor de uma esperança potencialmente frustrada de uma solução divina milagrosa para seus problemas que, muitas vezes, não são apenas seus, mas de todo o nosso povo. Ocupando o lugar de quem deveria lutar contra a injustiça, estes falsos religiosos que abusam da ingenuidade e da simplicidade de seus seguidores praticam o mesmo mal que deveriam combater.

Os profetas denunciaram os abusos dos poderosos e a corrupção dos religiosos, como vemos neste texto do profeta Miquéias, cap. 3, versos 9-11:

“Ouvi agora isto, vós chefes da casa de Jacó, e vós governantes da casa de Israel, que abominais a justiça e perverteis tudo o que é direito, edificando a Sião com sangue, e a Jerusalém com iniqüidade. Os seus chefes dão as sentenças por peitas, e os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao Senhor, dizendo: Não está o Senhor no meio de nós? nenhum mal nos sobrevirá.”

Os profetas denunciaram com clareza os erros daquela nação e o que Senhor queria para ela. Se pensarmos hoje que gostaríamos de fazer a vontade de Deus com a nossa vida e estendê-la ao nosso contexto, o que temos de buscar é a justiça em nossas atitudes e uma prática religiosa que combata a injustiça contra aqueles que não têm armas para lutar. Estudar estes profetas me tem feito ver como Deus é coerente e, ao mesmo tempo, como também insistentemente cometemos os mesmos erros. Deus é tão coerente que a mensagem proferida há pelo menos 2800-3000 anos atrás, continua a mesma: pratiquem a justiça e busquem uma religião sincera, justa e socialmente relevante.