quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Justiça

Resolvi passar para o teclado hoje algumas idéias que constantemente me têm assombrado. Faço um texto que não teve nem rascunho. Escrevo direto aqui no blog. Desta vez, não vou me permitir negociar entre a sinceridade e a polidez, entre a espontaneidade e a retórica. Permitam-me um desabafo...


Onde foi parar a busca pela justiça? Será que ninguém mais vê com seriedade a ênfase que Jesus e os autores dos textos sagrados deram à prática da justiça? Não é cada indivíduo responsável pelo bem estar do outro e pela manutenção da harmonia no ambiente em que vive? Os cristãos não deveriam ser os primeiros a levantarem a bandeira da justiça?

A resposta sincera à essas perguntas certamente assustaria a muitos. Mas não pela perversidade ou apostasia de quem as poderia responder. Mas sim pela cegueira de quem as poderia responder! É certo que muitos lêem aquele parágrafo e concordam com o que está escrito. Porém, não se enxergam como cúmplices da injustiça no mundo, o que todos somos.

Queremos uma justa distribuição de renda. Mas se ganharmos um milhão, compraremos aquele carro ou aquele sítio. Não nos conformamos com a fome e com a miséria no mundo. Mas trabalhar toda a semana e se ocupar com os compromissos sociais e religiosos nos momentos de folga é suficiente para que nossas mãos se atem para a mudança deste quadro. Afinal, o que eu poderia fazer sozinho?

Somos todos hipócritas! Todos queremos que o carro mude a direção, mas ninguém está disposto a pegar no volante. Condenamos os milionários por ostentarem uma vida pomposa e ocuparem-se mais com a manutenção da sua riqueza do que com alguma ação para reverter o miserável quadro mundial. Mas trabalhamos todos os dias sonhando com o dia em que chegaremos perto deles. E o que faremos então? Certo é, que se hoje não fazemos nada com o nada que temos, se tivermos amanhã também não o faremos. E seremos mais um peso naquela balança.

Quando Jesus disse que os sedentos de justiça eram bem-aventurados, já que um dia seriam fartos, não imaginei duas coisas: que seria tão difícil ter essa sede ou achar alguém que a tenha; e que o dia da fartura estivesse tão longe!

Maranata... Maranata...

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Um problema legal

Uma erva daninha que há muito se fixou no nosso meio é o legalismo. Diria nas nossas igrejas, mas o legalismo está presente em tantos dos nossos ambientes e contextos, que prefiro generalizar. No caso das igrejas, porém, é onde o vejo com maior periculosidade.

O apóstolo Paulo alertou à Igreja de Colossos quanto a serem legalistas após receberem a Cristo:

“Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: Não manuseie, não prove, não toque?”
Cl 2.20-21 – Nova Versão Internacional

O Salmista expõe uma forte repreensão contra um comportamento possivelmente legalista:

“Não sejam como o cavalo ou o burro, que não têm entendimento, mas precisam ser controlados com freios e rédeas, caso contrário não obedecem”
Sl 32.8-9 – Nova Versão Internacional

Ainda no Antigo Testamento, temos exemplos de pessoas que eram obedientes às Leis de Deus e não eram legalistas. Era o caso de Davi, que vendo a necessidade de seus homens, não hesitou em dar-lhes do pão da proposição (I Sm 21.1-6), não hesitou em dançar diante de todos para celebrar o Senhor, mesmo sendo o rei; e não era o caso de sua esposa, Mical, que achou inconveniente o rei se expor daquela forma perante o povo (2 Sm 6.1-14, 20-23). O caso do profeta Oséias, que se casou com uma prostituta, sob uma ordem de Deus, para mostrar ao povo como eles se relacionavam com o Senhor; o caso do profeta Ezequiel, que ousou declarar a visão que tivera do trono móvel de Deus, o que quebrava o dogma da presença exclusiva de Javé no templo (Ez 1). O próprio Senhor não é um Deus legalista.

Hoje, porém, muitos têm guiado sua fé e prática cristã dessa forma. Se recebem algo de Deus, é porque fizeram por merecer, e se passam por alguma dificuldade, é porque não se portaram como deveriam. Sempre caminhando pela lei da causa e do efeito, anulando a graça de Deus. Não se tem por “lei” que Deus nos aceita e abençoa sendo nós pecadores irremediáveis, pó, cinza, presos às corrupções deste mundo até à sua providência final. Muitos querem “conquistar as bênçãos e os milagres de Deus”. Nada disso se conquista. Cristo já conquistou para nós, e se dependermos de nossos méritos, jamais os teremos.

O legalismo é anti-cristão. Não é possível alguém ser legalista e estar de acordo com a Bíblia, pois foi “para a liberdade que Cristo nos chamou” (Gl 5.1). O legalismo traz culpa e torna-se o mal da religião, tão criticado por tantos filósofos, uma vez que jamais conseguiremos cumprir toda a Lei. O legalismo provoca a divisão, pois passamos a desprezar aquele que é “menos santo” ou que ainda não se entregou a Cristo, por acharmo-nos melhores do que esses.

Lembremo-nos de que quando pregamos para alguém “aceitar a Cristo”, estamos apelando para que ela aceite o sacrifício feito por Ele como suficiente para expiar os seus pecados, independente de suas obras (Ef 2.8-9) e de seus méritos. Por isso é difícil e duro aceitar a Cristo, pois, automaticamente, estamos dizendo que todos os nossos esforços para alcançar a Deus, que é plenamente santo, justo e bom, são vãos, e somente o sacrifício de Cristo nos basta.

Façamos jus à nossa fé, e busquemos a nossa santificação, cientes de que o mérito até de sermos santos é proveniente de seu sacrifício e do trabalho do Espírito que Ele nos deu.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Percipere

Há alguns anos atrás, decidi levar uma vida cristã séria. Não ser mais um que freqüenta uma missa ou culto nos finais de semana, mas levar uma vida exclusivamente cristã. Isso trazia muitas implicações, e eu tomei esta decisão conscientemente. Até então, via Deus como alguém distante, e passei a percebê-lo mais perto. Como alguém que tomava decisões a meu respeito e eu as seguia (ou não), e passei a ver seu respeito em relação às minhas decisões (considerações calvinistas a parte). Via Deus como alguém sempre chateado, pois nunca conseguia fazer o que ele queria; ficar sem pecar era impossível. Entendi que ele me aceita pecador como sou, e me chama à santificação ciente de minhas muitas falhas.

Comecei a minha devota caminhada cristã numa igreja evangélica, e passei a ver Deus nessa instituição: e errei feio. Não porque Deus não estava na instituição, mas porque ele não é a instituição. Dei à instituição um caráter mais sagrado do que lhe era devido. Não pensei que essa fosse apenas o ajuntamento de um bando de pecadores como eu. Via o líder como alguém mais santo, com uma característica um tanto o quanto mística em torno de si. Até que, depois de um bom tempo, convivi com alguns líderes, e vi que eles eram pessoas comuns, como eu. E depois, sendo ainda uma pessoa comum, o mesmo pecador arrependido e perdoado, imerecidamente aceito, me vi também como um líder. E estranho... Não me lembro de haver me tornado um super-homem.

Difícil foi essa percepção... Via Deus e a instituição como uma coisa só, e a situação ficou complicada quando tive que fazer essa separação. Deus é uma coisa, a instituição outra. Deus cuida dos membros da instituição, e essa é a respeito dele, mas são coisas distintas. E então, me vi num novo perigo: reconhecer um e outro, distingui-los, mas, no processo de separação, perder um deles. E como eu vivo na instituição, ela está sempre muito perto de mim e eu muito ativo nela, quem seria o maior candidato a perder o posto?

Então, começo o processo de resgate. Do resgate da essência, do resgate daquele que é a causa de tudo o quanto tenho vivido, mas que se perdeu no meio da minha vida. Precisei começar a resgatá-lo, pois a vida para ele confundiu-se com a vida nela – a instituição. Assim, passei a buscar o que estava perdido. Além de servir na igreja, quero servi-lo na igreja. Pois uma vez que me aproximo dele, percebo a importância da instituição, que é onde ele escolheu para estarmos e para ele nos edificar (At 20.32; Ef 4.11-16; 2 Tm 3.16,17; l Pe 2.1,2; 2 Pe 3.18).

A instituição tem suas muitas falhas, pois quem a faz é gente como eu. Entendo que se me frustro com a instituição, frustro-me comigo mesmo, pois sou eu quem a construo, de uma forma ou de outra. Então, junto a Deus, recomeço minha construção. Não há nada melhor do que servi-lo, e não há nada mais correto do que faze-lo junto àqueles que também o querem.

Graças a Deus.

P.S.: dedicado à Milene Castro, por jogar luz em tantas áreas ainda escuras para mim...

quinta-feira, 6 de março de 2008

Deus de perto

Sl 23:4: “Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.”
Emanuel: Deus conosco.
Sl 139:7: “Para onde poderia escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença?”
Mt 1:23 e Is 7:14: “A virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamarão Emanuel, que significa ‘Deus conosco’”.
Mt 28:20: “[...] E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos.”

O Senhor é um Deus presente. Ele passa conosco pelo vale da morte, nos consola nas tribulações, sempre deixa-se sentir nos momentos mais difíceis. Apesar de sabermos disso, porém, costumamos agir contrariamente a essa verdade. Principalmente quando passamos por dificuldades. “Levanta-te, Senhor!”. Disse o salmista (Sl 10:12). Davi estava tão indignado com a situação da qual se queixa neste salmo, que diz que o Senhor parece ter se ausentado (Sl 10:1). De tão inconformado que estava, esqueceu-se de que Javé era aquele Deus presente do Salmo 139, do 23 e de tantos outros.

Declaramos pensar que Deus está ausente quando, nas tribulações e dificuldades, oramos pedindo para que Deus intervenha, tome uma providência, “levante-se do seu trono” para nos socorrer. Pedimos que ele venha até nós, ao invés de crermos que ele já se faz presente, como prometera, e nos colocamos a perguntar até quando passaremos por determinada situação sem que ele faça algo. Ter “gozo ao passar por provações” (Tg 1:2)? Nós vamos é “repreender o inimigo”, que está “furioso contra nós”!

Devemos orar de uma maneira mais coerente com o que cremos e com o que a Palavra de Deus nos ensina. Como visto nas referências inicias, ele nunca se ausenta, está em todo o tempo conosco. Por crer que ele nunca perde o controle da situação; por crer que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8:28) e que ele sempre passará conosco por qualquer que seja o vale, proponho a seguinte oração:

“Muito obrigado Senhor, por estar conosco sempre e nas horas mais difíceis. Muito obrigado por nunca se ausentar, conforme nos prometera; e ajuda-nos a entender os teus propósitos nas diversas situações da nossa vida, sejam quais forem.
Cremos que tu és o Senhor, o que rege todo o universo; e cremos que tudo o que nos tem permitido passar coopera para o nosso bem. Muito obrigado por tua eterna e consoladora companhia.
Amém.”

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Ef. 6: A armadura de Deus

Outra noite estive pensando sobre a Armadura de Deus, sobre a qual o Senhor nos fala através do Apóstolo Paulo em Efésios 6:10:17. Lembrei-me de quantas vezes já ouvi pregadores levando os irmãos a orarem, vestindo-se com a Armadura de Deus. “Coloque agora, pela fé, o capacete da salvação!”. Como se a orientação do Apóstolo fosse para realizarmos diariamente este ritual (e há quem o faça), para nos protegermos do Diabo.


Se fosse dessa forma, essa seria uma prática muito destoante do restante do Novo Testamento. Não vemos nenhuma orientação da parte do Senhor sobre nenhum ritual, com exceção de dois bem específicos, que carregam em si símbolos, não místicas. São a ceia do Senhor e o batismo. O primeiro, fala da presença de Cristo conosco e da esperança de sua volta, e o segundo é um símbolo da transformação que ocorreu conosco internamente, sendo manifestado externamente.

Vejo que o que o Senhor quer de nós neste sentido é muito mais simples e nobre, mais válido que praticarmos matinalmente esta "reza". Você consegue se imaginar tendo, em um dia, posse do capacete da salvação e da Espada do Espírito, e acordar no dia posterior sem a salvação e as bênçãos do conhecimento e da observância da Palavra? Seria possível estar com os lombos cingidos com a verdade hoje, e amanhã ser um mentiroso? Vestir a couraça da justiça, praticando o que é correto e depois tornar-se injusto sem motivo algum? Estar em um dia pronto para anunciar o Evangelho por onde for e se acovardar depois? Ser resistente a Satanás num momento, com o escudo da fé, e estar desprotegido em outro, sem nenhum motivo? Não, amigos!

Devemos ouvir tudo, como nos orienta a Palavra de Deus, e reter o que é bom. Muito do que tem chegado para nós da Teologia da Batalha Espiritual e da Teologia da Prosperidade deve ser muito bem filtrado. É claro que a orientação de Deus para nós sobre a sua armadura diz respeito a resistirmos ao Diabo sendo cristãos verdadeiros, não dando espaço para a sua atuação em nossas vidas. Ou pensaremos que praticar a justiça, ser autêntico, pregar o evangelho, ter a certeza da salvação, ser cheio do Espírito Santo e conhecer e obedecer a Palavra de Deus é uma necessidade só daqueles que “batalham espiritualmente”?

É claro que todos nós batalhamos espiritualmente. Não só aqueles que dizem expulsar demônios, desfazerem trabalhos, chutarem macumbas, etc. E todos nós enfrentamos o “dia mau”. O revestimento da armadura de Deus é uma característica de cada cristão verdadeiro. Nenhum de nós pode dar-se ao luxo de abrir mão de qualquer daquelas peças, fundamentais para um viver cristão genuíno. Ninguém pode vestir a couraça da justiça e troca-la pelos trapos do engano a qualquer momento. E o mesmo com as outras partes da armadura. Cristo ordena que sejamos vigilantes (I Pe 5:8), perseverantes (Ef 6:18), constantes (Ap 3:15-16). Faça das características de um soldado, como o da metáfora que Paulo usou para os Efésios, parte indissociável da sua vida cristã.

Sejamos cristãos autênticos, revestidos com toda a armadura de Deus, cheios da autoridade que o Senhor nos garantiu, e que o próprio Senhor nos dê sabedoria e discernimento para ler e ouvir a sua Palavra.

Que Deus nos fortaleça, em nome de Jesus.